In Música

Tirando aquela sujeira debaixo do tapete – Alanis Morissette

Existem artistas por aí que adotamos pra ser nosso mentor inspirador. Eu, no caso, tenho uma mentora inspiradora, nas palavras de quem busco conforto e compreensão. São poucas as músicas de Alanis Morissette que não conversam comigo. Cada trabalho inédito são novas sensações afloradas, e foi com o Under Rug Swept, de 15 anos atrás, que Alanis me fisgou de vez.

Não conhece? Que bolha é essa que tu vive hein? Vamo lá, solta aqui o play:

É uma bênção que Fortaleza tenha sido agraciada com toda a jovialidade da MTV do povão, a graciosa TV União (Jovem de cara e de coração). E óbvio que foi assistindo à programação de clipes (Clube Pop, talvez?), lá por volta de 2005, que dei nome à voz que cantava Hand In My Pocket, música que eu já tinha ouvido em outros cantos (Novela? Filme? Não lembro, sério). E era ela, Dona Morissette, belíssima, com seu cabelão, olhão arregalado e sorrisão de dentões encantadores, no vídeo com a versão acústica de Hand In My Pocket.

Tendo conhecido também Ironic, Head Ovet Feet e Thank You, passei a ficar atento pelo nome e pela voz. Não tenho ideia de quando assisti ao videoclipe de Precious Illusions pela primeira vez, mas fiquei encantado. É estranho quando você percebe uma determinada estética pela primeira vez, e a divisão de telas com diferentes realidades me fez pensar  “tá, acho que isso aqui é o que chamam de arte”. Ainda hoje, é uma peça que me encanta, tanto pela letra, quanto pela estória contada.

Mesmo que, single a single, Alanis viesse fazendo cada vez mais sentido pra mim, chegou um ponto que estanquei. Com toda certeza, minha mente adolescente de 2005-2006 (eu tinha, sei lá, 13 anos?) não conseguia absorver tudo o que essa cantora tinha (e tem) a falar. Nem hoje isso acontece! Exemplo disso é o complexo Under Rug Swept, um álbum que me parece, até hoje, mais obscuro do que estranho e mais deslocado que consistente. E, só por um acaso, Precious Illusions é composição desse trabalho e a sua segunda música de divulgação, junto de Hands Clean.

Under Rug Swept é o quinto álbum comercial de estúdio de Dona Morissette. Foi lançado em 25 de fevereiro de 2002 e, agora em 2017, está de debutante completando seus 15 aninhos de essência. Este álbum dá procedência a Jagged Little Pill (1995) e Supposed Former Infatuation Junkie (1998), e chegou ao público com certa cautela. Claro que o álbum vendeu bem, só não tanto quanto os dois trabalhos anteriores.

“Why why do I try to love you / try to love you when you really don’t want me to” – Narcissus, 2ª faixa de Under Rug Swept

(Tradução: Por que eu tento te amar / tento te amar quando você não quer exatamente isso de mim)

Infelizmente, dá pra imaginar o tanto de pressão nos ombros de Alanis nessa época. Em 2001, a artista entrou em um processo judicial contra a gravadora Maverick Records, responsável pelo seu trabalho desde Jagged Little Pill. A pausa de 3 anos e meio entre um lançamento e outro também deixou a crítica especializada (Entertainment Weekly, Rolling Stone e afins) na expectativa… tanta expectativa que a maioria acabou classificando o material com notas de “regular” a “bom” (algo tipo entre o 6 e o 7). Mas será que dá pra classificar um trabalho desses com tanta frieza assim?

Tudo em Alanis parece surgir como fruto de alguma vivência. Under Rug Swept pode parecer não ter um tema central ou mais evidente como os álbuns anteriores, mas é como se ele fosse uma série de crônicas sobre vários aspectos de relacionamentos, de detalhes transitórios, como a autocontemplação (ou o famigerado overthinking, né) aos mais consistentes, como o reconhecimento de si em outra pessoa e a coragem de ceder espaço para alguém na sua vida.

“Oh these little rejections how they add up quickly / one small sideways look and I feel so ungood” – So Unsexy, 5ª faixa de Under Rug Swept

(Tradução: Ah essas pequenas rejeições, como elas se acumulam rápido / Basta um pequeno olhar enviesado pra eu me sentir mal)

Mas Alanis não seria Alanis se não trouxesse um revés na manga. Ela usa de um extremo senso de empatia pra se por no lugar de alguém e, com isso, tentar entender como essa pessoa se sente em tal situação… Como não amar e admirar uma alma linda como essa, me diz!

O carro chefe de Under Rug Swept foi Hands Clean. Nela, Alanis quebra o silêncio sobre uma relação que teve por volta dos 14 anos de idade com um homem bem mais velho. Na canção, Alanis é a voz desse tal homem que detalha vários motivos para ter se aproximado (sexualmente) da cantora. Mas, ao final, tudo parece se voltar contra esse tal cara, e entendemos que não é exatamente esse conto de fadas que ele pinta. Em uma das estrofes, Alanis retoma a própria voz e questiona:

“What part of our history’s reinvented and under rug swept? / What part of your memory is selective and tends to forget?”

(Tradução: Que parte da nossa história foi reinventada e parou debaixo do tapete? / Que parte da sua memória é seletiva e tende a se esquecer?)

Como artista, Alanis transformou o que, aparentemente, foi um relacionamento que só visava beneficiar um dos lados (ou parecia mesmo que ela sairia ganhando de um fanfarrão desses?), e todo esse conto estranho evoluiu pra um dos seus maiores sucessos dentro do gênero Pop. Entrevistas foram feitas após o lançamento do álbum e Alanis declarou que desejava, antes de tudo, expor o que aconteceu e poder falar sobre isso. Mais do que um hit, Alanis teve, aqui, um pouco de paz. É aquela bela sensação de alívio que segue um suspiro bem forte depois de conseguir botar pra fora algo que vinha incomodando há tanto tempo.

Feast On Scraps, por fim, deu uma conclusão ao Under Rug Swept. Trabalho lançado em 10 de dezembro de 2002, é composto de um CD com 8 músicas inéditas descartadas do Under Rug Swept e um DVD com gravações de shows, bastidores de turnês, depoimentos de Alanis, da produção e da banda, além de momentos extremamente significativos pra entender Alanis como artista. Entre as músicas inéditas, destaco Offer, uma incrível melodia que fez parte da trilha sonora da novela Celebridade, da Globo.

O processo criativo de Morissette, além das vivências e das observações do mundo e das relações humanas, é se trancar num estúdio e, ao mesmo tempo, escrever a letra e compor a melodia. É isso que vemos em um dos momentos mais marcantes do Feast On Scraps: Alanis é vista compondo Surrendering, a 10ª faixa do Under Rug Swept e a última música a ser elaborada para o álbum.

Muitas vezes, só temos acesso ao resultado final do trabalho de alguém e só prestamos atenção naquilo. E não faz mal que ignoremos todo o processo de criação… é que, às vezes, deixamos passar o quanto uma pessoa trabalhou naquilo e o quanto ela se orgulha do seu produto, e chegamos a pensar que foi algo fácil de fazer. Enquanto escreve Surrendering, Alanis chora e se entrega. Não é como se Surrendering fosse uma canção melancólica, até porque é uma das mais agitadas do álbum todo, mas ela é uma bagagem de longa data pra cantora.

Na letra da música, sentimos que Alanis teve contato com alguém que se permitiu o benefício da dúvida. A gente carrega uma mala cheia de histórias e, quando esbarramos com alguém pela vida, nem sempre a outra pessoa tá disposta a partilhar do conteúdo da sua própria mala. Surrendering é um pouco disso: alguém que admira e agradece outro alguém por partilhar das suas histórias, mesmo com todas as barreiras e todas as proteções impostas a si. Sabendo disso, é bem compreensível que Alanis chore, seja pela lembrança, pela aventura, seja pela empatia em ser paciente e saber se doar dentro dos limites de outra pessoa.

“Self-protection was in times of true danger / your best defence to mistrust and be wary / surrendering a feat of unequalled measure” – Surrendering, 10ª faixa do Under Rug Swept

(Tradução: Autoproteção foi, em tempos de perigo real, / a sua melhor defesa pra desconfiar e ser cauteloso / rendendo-se a uma proeza de valor inigualável)

É estranho que, como um trabalho único e coeso, Under Rug Swept venha cantar baixinho no nosso ouvido sobre questões tão amplas. Eu poderia passar horas falando o quanto cada composição me toca e como, muito provavelmente, nada tem a ver com a intenção de Alanis ao escrever cada uma delas. Mais glorioso ainda é terminar de ouvir esse álbum com Utopia, quase como se Alanis nos abraçasse e dissesse “Calma, criança, vai ficar tudo bem viu? Confia!”

Desse jeito, até eu dou aquele suspiro…

“We’d provide forums / we’d all speak out / we’d be heard / we’d all feel seen”

(Tradução: Providenciaríamos fóruns / todos conversaríamos / todos seríamos ouvidos / todos nos sentiríamos vistos)

Não tenho como dar uma nota a esse trabalho, de tão dinâmico que ele pode vir a ser. Fica a critério de cada um a importância que cada música assume. Afinal, quem somos nós pra apontar e dizer que tem defeitos nos sentimentos alheios.

 

***

Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

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