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Thrawn, a ameaça definitiva aos Jedi

Mexer numa saga consagrada como Star Wars é um perigo. Por mais que o início de toda essa space opera nunca tivesse sido contada, O Retorno de Jedi, episódio 6, já havia fechado toda a narrativa de forma bem redondinha em 1983. Poucas dúvidas restavam aos fãs, porque o plot twist mais épico da ficção já havia sido revelado. Eis que Timothy Zahn entra na história com a bênção do santíssimo George Lucas.

Estamos falando de Star Wars com roupagem, digamos… mais alternativa. Então, nada mais justo que viajar pelo espaço com a playlist pronta, e com a menor taxa possível da trilha sonora clássica.

Desde a estreia de O Retorno de Jedi que George Lucas coordenava todo material extra de Star Wars que era lançado: de livros à HQs, tudo passava pelo crivo dele. A maioria das vezes, o material já estava pronto e só recebia os ajustes de George Lucas e o seu “ok” (qualquer semelhança com Harry Potter and the Cursed Child é mera obra do acaso). Até que, em 1989, Timothy Zhan foi convidado pela editora Bantam Spectra e pela LucasFilm para dar o famigerado UP na saga.

A premissa já estava pronta, George Lucas e a editora só precisavam de alguém habilidoso que pudesse dar continuidade ao cânone. E foi o que aconteceu: surgiu a Trilogia Thrawn nas palavras de Timothy Zhan, composta por Herdeiro do Império (1991), Ascenção da Força Sombria (1992) e O Último Comando (1993), publicados no Brasil pela editora Aleph.

O dedo da Disney

Tendo vendido toda a marca Star Wars para a Disney, George Lucas perdeu toda e qualquer autonomia sobre a saga. Particularmente, chego a considerar um grande erro. Thrawn é a continuação mais popular entre os fãs antigos da saga, que a consideram como a mais crível.

O que a Disney fez com ela? Tacou o selo Legends na capa de todos esses livros pra dizer que aquela história pode ter sido apenas uma lenda. Ou seja, não nega nem afirma que as histórias possam ter realmente acontecido no universo Skywalker. O que acaba dando mais liberdade criativa à Disney, porque aí eles podem lançar novos produtos de merchandising, novos livros, novos filmes (por mais meia boca que sejam, no quesito narrativo).

Os fãs ganham as novidades, as surpresas e novos encantos, mas a Disney lucra alguns bilhões a mais por isso. E acabam oferecendo aos fãs um desrespeito criativo, como a série Aftermath (de 2015, Marcas da Guerra no Brasil), truncada, básica demais, pouco crível, pouco visual e roteirística demais pra ser um livro sobre o novo cânone de Star Wars. Fora a tradução da editora Aleph que saiu com vários erros de revisão, só pra dar tempo de chegar nas livrarias nacionais antes do episódio 7, O Despertar da Força. E não, eu não recebi boneco provisório. Comprei mesmo, com meu dinheirinho.

Thrawn quem?

Desabafos de lado, Thrawn nos é apresentado como o grão-almirante de uma frota do exército imperial restante, que estava às margens da galáxia quando Darth Sidious caiu (literalmente). Alienígena masculino da espécie Chiss, seu verdadeiro nome é Mitth’raw’nuruodo, e foi um dos pouquíssimos não-humanos a ocupar um cargo importante em todo o domínio imperial.

(…) seus cabelos preto-azulados reluzentes brilhando na luz fraca, sua pele azul-clara de aspecto frio, suave e muito alienígena em sua estrutura física que, tirando isso, era humana.”  – p. 22

Extremamente sóbrio, frio, calculista, inteligente e focado, Thrawn não se perde em devaneios conspirativos da Força, aos quais sucumbiram Anakin / Darth Vader e Palpatine / Darth Sidious. Thrawn não ri do caos que pode ocasionar com o poder que tem nas mãos. É metódico e perfeccionista, quase inabitado por sentimentos humanoides, e isso o deixa bem assustador.

Seus olhos estavam quase fechados e ele recostava-se no descanso de cabeça. Apenas um leve brilho vermelho se deixava entrever por entre as pálpebras.”  – p. 22

Sem ter a quem obedecer, Thrawn toma para si as rédeas de comando da frota, que passa a concentrar esforços numa ameaça aos rebeldes. Se trata dos ysalamiri, um animal de aspecto reptiliano que emite um escudo contra a Força, e Thrawn irá usá-los para Luke, Leia e o que sobrou da força rebelde. O planeta onde habitam, inclusive, está fora do mapa intergaláctico conhecido, justamente por não ter sido detectado pela essência dos Jedi. Ainda bem que não é mais uma Estrela da Morte, né amiguinhos?!

Aprenda arte, capitão – disse Thrawn, quase num devaneio. – Quando você entende a arte de uma espécie, você entende toda a espécie.” – p. 27

Turminha marota

Luke e Leia Skywalker, Han sono Solo e Chewbacca continuam os mesmos em essência. Até C3PO e R2D2 aparecem pelo santo bem da fanbase. É muito fanserivce junto num canto só, mas nem só de referências vive esse livro.

Luke, em suas meditações, recebe mensagens de Obi Wan Kenobi e decide fazer uma busca pelo universo para encontrar um Jedi que possa ser seu mestre e completar o treinamento inacabado de Obi Wan e Yoda. Han Solo continua sendo um zero à esquerda, tratando Leia como mocinha indefesa, mas tem lá seus momentos interessantes…

Leia, mais do que nunca, incorpora seu papel de diplomata em prol da causa rebelde, pela Nova República. Aqui, Leia aparentemente desperta alguns poderes Jedi e até pega algumas dicas de Luke, mas não recebe um treinamento adequado. O melhor e mais impactante é que Leia está grávida. De gêmeos. Parece um círculo sem fim, né?

Zahn ainda fez uma incrível descrição, ainda que breve, da comunidade Wookie. Ele descreve como os Wookies se portam, como socializam, seus modos de vida, de organização em aldeias e cidades. A surpresa fica por conta das curiosidades sobre o ecossistema de Kashyyyk, que lembrou bastante o visual consagrado em A Vingança dos Sith e nos jogos de Battlefield, o que só acrescentou à experiência de imersão.

Edição da Aleph

Isso que é editora esperta. Dona de boa parte dos direitos de edição do universo expandido de Star Wars no Brasil, a Aleph até que tem feito um trabalho interessante, principalmente porque é bonito ver uma coleção dessas na estante, todas com um visual padronizado. Entretanto, o pecado ocorre na hora de traduzir o trabalho, seja pela pressa em lançar, prazos a cumprir e contratos a respeitar. Mas não dá pra negligenciar uma experiência dessas, principalmente com Star Wars.

Fora os problemas que vi em Marcas da Guerra, aqui, em Herdeiro do Império, existem alguns incômodos, e o problema é, sim, de tradução e revisão. A questão dos períodos longos pode até ser uma escolha do Timothy Zhan, mas palavras repetidas na mesma sentença (quando existem sinônimos mais cabíveis no nosso idioma) e a necessidade em reler alguns parágrafos mostra que tem alguns problemas acontecendo. E se não fui só eu que notei, então tem algo a ser considerado numa próxima edição, né? Não é tão sério que comprometa a leitura, mas realmente poderia ser melhor e mais requintado.

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Na questão visual, a ilustração de capa é do Marc Simonetti, mesmo cara que fez as ilustrações das capas de Guerra dos Tronos e afins, e todas têm o mesmo ar obscuro e misterioso que instigam bastante a imaginação. A diagramação interna é padrão das outras edições de Star Wars da Aleph e acaba sendo uma experiência leitora agradável.

Cena pós créditos

Deu pra perceber que são os detalhes que realmente importam, né? Eles encantam e fazem perceber que ainda há muito pra ser conhecido e explorado por esse universo. Como o livro acaba sendo bem introdutório e empurra vários personagens novos ao leitor, não vale tanto a pena aprofundar em comentários sobre isso, principalmente por não ter noção se serão relevantes nos próximos 2 livros.

Nesse livro, Leia tem uma importância central nas questões diplomáticas, e me parece que é essa a mensagem que Zhan nos passa. Os homens podem deliberadamente esquecer um sistema por desavenças políticas e perdem muito do conhecimento que poderia ter sido incorporado com um tratado de paz. É igual arroz: unidos venceremos. 4 oclinhos ao primeiro volume da Trilogia Thrawn.

Star Wars – Herdeiro do Império
Título original: Heir to the Empire
Edição de 2014 da Aleph
ISBN: 9788576571988
482 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

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2 Responses to Thrawn, a ameaça definitiva aos Jedi

  1. Clayci disse:

    Nossa.. é sério que está cheio de erros? Que triste isso!
    Eu sempre gostei dos livros da Aleph (principalmente a diagramação).
    Não comecei essa série Star Wars ainda, mas pretendo da uma chance <3

    • Falkner disse:

      Sim, tem alguns errinhos aparentes de tradução :\ Mas nada grave, é coisa que passa batido numa leitura rápida. Se quiser uma indicação, começa por essa trilogia, foi o livro de SW que mais me instigou até agora <3

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