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The Mist cancelada: o que deu errado?

O que fez a série The Mist ser cancelada? Apesar da qualidade de elenco e fotografia, algumas escolhas de roteiro e direção contribuíram para o fracasso.

Como aceitar aquela série que tem um potencial desgraçado e joga tudo pro alto? É complicado lidar com escolhas de roteiro que são de gosto duvidoso, tal qual já aconteceu com Lost e The OC. São coisas que vão além dos gostos pessoais e acaba se tornando opinião pública. No caso de The Mist, causou o cancelamento da série.

The Mist (O Nevoeiro) estreou em 22 de junho de 2017 no canal Spike e teve 10 episódios. Foi apadrinhada pela Netflix, teve divulgação e distribuição ampliadas pela plataforma de streaming. Baseada no conto de mesmo nome de Stephen King, publicado no Brasil no livro Tripulação de Esqueletos, uma coletânea de contos do mestre do terror.

O que tem por aqui:

As adaptações de Stephen King para a TV e para o cinema são conhecidas por terem mudanças que nem sempre acrescentam ao enredo. The Mist já havia sido adaptado para o cinema com a produção O Nevoeiro, de 2007, com direção de Frank Darabont, que participou de produções como Minority Report e The Walking Dead. O filme, inclusive, tem um final diferente do conto e é simplesmente arrebatador: parte seu coração, pisa, passa no sal grosso e joga no fogo.

A Premissa

Em O Nevoeiro, a cidade de Bridgton, no Maine (EUA), é repentinamente coberta por um nevoeiro denso e inexplicado. Pouco após a chegada do fenômeno, várias pessoas morrem e quem permanece vivo está na reclusão de lugares fechados. O foco da estória é no shopping da cidade, onde dezenas de pessoas estão presas, sem comunicação e com recursos escassos.

Na série da Spike, temos a mesma premissa, mas ela funciona como pano de fundo. A família Copeland são os protagonistas: o casal Eve e Kevin, e a filha Alex. Eve é uma professora de educação sexual que é suspensa do trabalho por ser explícita demais. Alex é uma adolescente e quer sair, aproveitar a juventude mas, numa festa, acaba sendo drogada e estuprada. Forma-se um mistério sobre quem estuprou Alex e os dedos apontam para Jay Heisel, o crush de Alex que estava com ela momentos antes do tal acontecimento. (Pelo bem geral do universo, teremos alguns SPOILERS a seguir, teje dito!)

O Problema

Como se percebe, a intenção da série é apegar-se nas polêmicas sociais. No dia seguinte ao estupro, toda a cidade já está sabendo. Alex e Jay estão presos no shopping e, aos poucos, vão desenvolvendo um novo contato. Eve está com Alex e incorpora a barreira protetora de Alex contra o seu agressor, Jay. O roteiro planta a dúvida na mente do espectador: será se Alex realmente foi estuprada? Será se foi mesmo Jay? E esse é o primeiro problema: a romantização do estupro.

As pessoas do shopping duvidam que Alex tenha sido violentada. Não é por acaso que o espectador também duvida, já que os dois convivem, conversam, riem e andam de patins juntos. Alex foi descaracterizada. Ela lida com a violência à própria maneira, mas quando o roteiro faz questão de mostrar que ela está feliz em meio ao caos da vida e da cidade, ela se torna fake. E outra: qual o motivo de enfatizar a dúvida na palavra de uma adolescente? É quase um retrato da realidade. Logo hoje, é comum encontrar relatos de mulheres violentadas que foram silenciadas por autoridades na hora de relatar um estupro.

A Natureza

O maior destaque da série vai para a Nathalie Raven, interpretada por Frances Conroy. Essa atriz é fenomenal e já foi absurdamente subaproveitada nos contos de Ryan Murphy em American Horror Story. Frances é dona de uma expressividade teatral e delicada, e é nela que recai a responsabilidade filosófica do enredo.

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Nathalie é alguém com extrema ligação com a natureza. No nevoeiro, Nathalie se refugia numa igreja. Entretanto, enquanto o padre conforta os fiéis, Nathalie busca uma explicação esotérica para o que está acontecendo. Ao falar de forças da natureza e da deusa, Nathalie soa como a piada da estória, ainda mais quando bate de frente com as concepções do padre.

Felizmente, é lindo ver a atuação de Frances Conroy. Ela encarna a mulher etérea com perfeição e é o tipo de personagem que está atenta a cada acontecimento. Nathalie não perde um detalhe, liga os pontos e tenta explicar o que está acontecendo. O problema fica na maneira rasa como a personagem afirma que a natureza está punindo os pecadores e que toda violência pode ser justificada se for para o bem maior. Não dá pra engolir… A simpatia por Nathalie terminou aí.

Bissexualidade demonizada

Russell Posner interpreta Adrian Garff, um adolescente descobrindo sua sexualidade em tempos de colégio. Pra qualquer pessoa LGBTQ+, essa fase é terrível. A gente queria que chovesse beijos mas chovem julgamentos na nossa horta… E não é diferente com Adrian. Ele estava na festa com Alex e, de cara, já é agredido por um mocinho pra quem ele se insinua de brincadeira.

Adrian é um cara sensível, tem um pai que odeia a expressão do filho e uma mãe relapsa com a situação familiar. A interpretação de Russell é fenomenal e mostra com clareza a confusão que é um adolescente em descoberta sexual. Mas a confusão vai tomando ares de loucura.

Em certo momento, Adrian está no hospital e encontra o seu agressor, que espanca Adrian dessa vez. Coberto de sangue, o que Adrian faz? Vai lá e taca um beijo no boy. Mesmo rejeitando Adrian, os dois ainda dormem de conchinha. O que não faz sentido porque, logo depois, o carinha é descartado e prefere ficar preso na sua heteronormatividade.

Mas o pior mesmo é o pai de Adrian revelar o estado de saúde mental do filho. Todo o diálogo converge pra uma explicação de que Adrian é como é e faz o que faz porque não tem controle mental sobre as próprias atitudes. E sim, sexualidade é um fator incluso no meio disso. (ALERTA DE SPOILER MASTER) Até porque Adrian revela que é o estuprador de Alex! Lembro daquela máxima “Todo homem  é um estuprador em potencial”, mas a  construção do enredo faz isso não ter sentido, já que a amizade entre Alex e Adrian é consistente. Só me pareceu uma desculpa pra jogar a carapuça da instabilidade mental nos bissexuais e fechar o mistério do estupro. Triste e revoltante!

Nevoeiro não: fumacinha

A verdade é que The Mist não tem uma conclusão. É como se a série tivesse demorado 10 episódios de 40 minutos pra dizer:

Oi, tudo bom? Tem alguma coisa na névoa, cuidado tá? Beijo, querida.

Em tempos de The Handmaid’s Tale e Sense8 é inadmissível que qualquer seriado trate estupro de forma duvidosa e sexualidade como distúrbio mental. Esse seriado é bem produzido, tem fotografia incrível, atuações lindas de Frances Conroy. Mas a direção e o roteiro encaminham os personagens a serem caricatos, irracionais e inconsequentes. Com o tanto que arriscaram, parece até que já sabiam que seria cancelada. E não foi sem motivo!

Quer conhecer O Nevoeiro? Pois veja o filme ou leia o conto no livro de Stephen King. The Mist começa bem, traz suspense e tensão, mas se perde já no terceiro episódio. E acredito que você tenha mais o que fazer.

Nota no Rotten Tomatoes: 60%
Nota no Filmow: 3.1

***

Este artigo faz parte do Outubro Macabro de 2017, um ciclo de postagens especiais para o Halloween / Dia das Bruxas nos temas de terror, horror e fantasia dark. Quer mais? Clica aqui!

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11 Responses to The Mist cancelada: o que deu errado?

  1. Débora Costa disse:

    Eu vi várias pessoas comentando sobre o cancelamento da série e acho que os aspectos que você levantou são muito interessantes. Não é uma série que eu assistiria, mas consigo entender porque não deram continuidade.

    http://laoliphant.com.br/

  2. Olá
    putz eu não conhecia. Na real adoro séries mas vejo bem menos do que gostaria pois me falta tempo mas ainda assim muito interessante seu post sobre a série e uma pena que deu errado, parecia ser bem interessante

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

  3. Oi, tudo bem?
    Confesso que nunca tinha ouvido falar dessa série. Mas, por tudo que você falou me pareceu que fazer sentido cancelarem.
    Não gostei da premissa e acho que mesmo se tivesse conhecido a série antes, não iria assistir.
    De qualquer forma, para quem gosta da obra do King, é uma pena que a série tenha se perdido tanto e não faça jus ao livro.
    Beijos!

  4. Esther De Sa disse:

    Olá, tudo bem?
    Isso é bem desanimador né? Você cria muitas expectativas com a série que além de não responder a altura é cancelada. Vi algumas resenhas sobre essa série e assim como a sua, todas eram negativas. Eu não conhecia a história, então até me interessei, mas percebi que ganharei mais lendo o livro.
    Abraços!

  5. itsmaazinha disse:

    Hey, olha confesso que abandonei a Netflix uma pouco justamente por isso. Já ando “escaldada” de está toda empolgada com uma série e do nada cancelarem. Eu sei que ele alegam N’s fatores, mas nenhum deles são convincentes o bastante na minha opinião. Eu fico chateada mesmo!
    Beijos
    http://www.manuscritoliterario.com.br

  6. Yuri S disse:

    Eu vi dois episódios e não consegui continuar, deu tudo errado KKK

    http://www.sextadimensao.com/

  7. Eu achei essa premissa do nevoeiro bem interessante e tinha tudo para ser uma série incrível, mas pelo que percebi a proposta não rolou.
    Depois dos seus cometários, eu decidi conferir o conto do Stephen King. Tenho certeza que vai ser uma leitura bem mais proveitosa.

    Abraço!

  8. Analia Menezes disse:

    nao conhecia a serie, mas pela sua descrição parece ser uma serie impactante e muito boa. Gostei demais.

  9. Dynhofran disse:

    Olá, Falkner!
    Q leitura brilhante você fez dessa série. Ainda não assisti, mas fui conquistado pelo trailer assim que vi. Fiquei sem entender o por quê de a série ter sido encerrada assim tão rápido, e agora lendo seu post vi realmente vários motivos para ela não funcionar. Realmente romantizar o estupro é uma bad, visto que estamos mais do que nunca incentivando as pessoas a “gritarem” as agressões. A questão da homossexualidade também foi de péssimo gosto.
    Outra série, baseada em livro de Stephen King que estou esperando ser cancelada é Mr. Mercedes. Adoro o livro, mas a série, sinceramente… estou achando bem fraca.

    Abraço.
    Diego, Blog Vida & Letras.
    http://www.blogvidaeletras.blogspot.com

  10. As criticas são totalmente reais, você espera que tudo vai dar certo e a série fica sem pé nem cabeça eu até agora não entendi Lost.

  11. Dan disse:

    Também fiquei puta com ocorrido. The oc nem se fala e agora essa é como tirar doce da boca de criança.

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