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Taylor Swift: a maior vitimista que você respeita

Um pequeno teste:

1. Você já chamou a cantora Taylor Swift de “cobra” ou “sonsa” em tom pejorativo?
2. Em algum momento, falou (ou pensou em falar) que ela era piranha ou aproveitadora do sucesso dos homens que namora?
3. Quando você vê notícias dizendo que ela terminou com o namorado, você pensa “Não acredito que ela terminou com esse gostoso!”?
4. E quando ela tá de namorado novo, você pensa tipo “Que vagabunda, já é outro!”?

Se suas respostas foram afirmativas e você tem um pouquinho de empatia, deve ter sentido uma leve culpa. Mas não faz mal. Assim como Taylor, você também deve ser vítima do famigerado jogo das verdades do jornalismo sensacionalista de entretenimento!

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Assim como aconteceu com Madonna, Britney Spears e Christina Aguilera, é visível a quantidade de capas de revistas e jornais estampando a vida pessoal de Taylor Swift. O que essas 4 mulheres têm em comum? Além de serem grandes fenômenos da música Pop, elas se envolveram em relações com outros homens famosos. O problema nessa história é a importância que esses tabloides dão à relação pessoal delas. Afinal, o que deveria ser mais destacado mais: quem elas beijam e fodem ou o trabalho de cada uma?

Blank Space

Eu não gosto da música de Taylor Swift. Me apresentaram há 7 anos, ainda no estilo country, mas não bateu com meus gostos musicais. Ainda assim, algo me chamou atenção: a maneira como ela deixava mensagens subliminares na composição física do álbum, destacando algumas letras das músicas pra formar palavras ou nomes. Óbvio que isso gera um mínimo de curiosidade…

Era fácil encontrar espaços na internet tentando descobrir os sujeitos das mensagens. Somos curiosos, encantados pela vida dos famosos, queremos o sucesso deles aplicado aos nossos sonhos. Houve motivo pra aqueles destaques estarem ali no álbum. Não que Taylor tenha afirmado, mas estava aberto à possibilidade, bastava preencher o espaço em branco… E a imaginação humana viaja só com a simples insinuação. Ou você nunca montou um diálogo completo com seu crush do ônibus, com quem você nunca teve coragem de falar?

Gostando ou não, desde aquele momento entendi porque ela fazia tanto sucesso. Suas músicas são extremamente pessoais, daquelas que a pessoa escreve em momentos de intimidade. Num devaneio durante a aula, depois de ouvir os pais brigando, enquanto pensa em alguém, depois de um término… Isso, inclusive, é um hábito que vários artistas independentes que conheço têm, e é um hábito que revela como essa paixão pela arte é latente na vida da pessoa.

Trouble, trouble, trouble

O que Taylor sempre fez foi entregar o seu diário a desconhecidos. Inúmeros artistas usam de experiências pessoais pra compor. E essa é uma fórmula de sucesso: primeiro vive-se, depois a inspiração chega pra fazer arte. É pensando na própria vivência em relacionamentos que a Taylor tem cativado muita gente pelo mundo todo, confrontando macho que não é santo, apontando na fuça do Fulano e dizendo:

Cara, tu foi babaca em tal momento. Se liga e não repete isso, beleza?!

Como profissional, ela conseguiu essa dimensão toda porque ela vive a vida pessoal plenamente e, só por um acaso, tem gente famosa envolvida. Tem muito de semelhante nas relações amorosas de Marilyn Monroe e Madonna, por exemplo. Se fossem namorados anônimos, ninguém ia querer saber de nada. Mas, pra mídia, toda mulher que se envolve com homem famoso é megera, vagabunda, aproveitadora. Foi Marilyn Monroe quem seduziu e se aproveitou da fama de Joe DiMaggio e do presidente John F. Kennedy. Foi Madonna quem se submeteu a apanhar de Sean Penn.

Alanis Morissette, Pink, Adele, Amy Winehouse… Os maiores sucessos delas, que hitaram em paradas pelo mundo todo, que lotaram estádios  e casas de show e renderam prêmios, foram baseados em experiências pessoais. As experiências tristes sempre dão uma vontade de discutir. É da nossa natureza querer compartilhar experiência ruim, porque guardar a tristeza dá uma bela angústia. Né não?!

Mas então, por que Alanis, Pink, Adele e Amy também não são vitimistas como Taylor, como tanto apontam? Só porque são mais metafóricas e não confrontam as pessoas diretamente? Já comentei aqui no Desfalk sobre Hands Clean, a música na qual Alanis Morissette fala da relação com um homem bem mais velho que se aproveitou sexualmente dela. E outra, Surrendering, uma música super agitada e aparentemente feliz na qual ela chora enquanto compõe.

A gente nunca sabe o real valor que um artista tem pela sua música. Alanis fez sucesso pela sinceridade em questões sociais e políticas. Madonna tocou na ferida da religião, principalmente do Cristianismo. Amy Winehouse bebia pra conseguir cantar, ou você acha fácil expor as principais dores da vida e sonhos fracassados sobre um palco e um holofote na cara?

No caso da Taylor, ela levou tudo que era decepção para os palcos. Claro: como mulher branca, cis, americana, privilegiada. Mas ninguém sabe da dor alheia, ninguém passa pelas experiências da mesma forma. Todo contexto é diferente. Taylor canta o que vive. E é aí que chego no álbum Reputation, com o single Look What You Made Me Do, que funciona como uma resposta a todo o teatro entre Taylor, Katy Perry, Nicki Minaj, Kim Kardashian e Kanye West realçado pelo jornalismo. Se é isso que ela vive, é isso que ela canta.

Bad Blood

Inovação é característica das grandes marcas. Beyoncé se reinventa pra cativar públicos específicos. Pra atingir a Europa, cantou em tons agudos e batidas fortes no I am… Sasha Fierce (2008). Pra ser mais direta com mulheres, pegou temas femininos e ideias feministas em Beyoncé (2013). Pra falar com negros e pautar feminismo negro, pegou o cotidiano negro americano em Lemonade (2016). Se você pensa que tudo foi pela vontade dela em falar de assuntos sérios, tá certíssimo. Mas Beyoncé também pensou estrategicamente formas de cativar mais público e fazer seu público já engajado ser mais fiel e forte com a sua marca.

A cada novo trabalho, Taylor se reinventa. Ao meu ver, ela atingiu o ápice da maturidade musical em Speak Now, e depois retrocedeu um pouco pra atingir novos públicos internacionais com um estilo mais Pop e menos Country. Me lembra artistas como Pink e Christina Aguilera que, antes de se consolidarem em um estilo próprio de Pop, mesclaram sons de R&B, Rock, Jazz e Punk.

Eu não duvido que Taylor caminhe aos mesmos resultados de Beyoncé e Madonna. Por isso que é super importante a gente não esquecer que todo cantor é uma empresa. E, como empresa, tem personalidade e reputação, precisa se relacionar bem com a mídia, negociar o que falar e o que não comentar. Taylor inova, mas também se apropria de valores que concedem a ela. O estereótipo de inocência foi trabalhado por ela durante um tempo, mas também foi o estereótipo que os jornais escolheram realçar pautando apenas os relacionamentos de Taylor, e não seu trabalho. Mesmo assim, não é por conta disso que ela vai ficar sempre presa no mundo de fadas…

Cold as you

O estereótipo de mulher branca sofredora convence e vende. E não tem nada de errado com isso, porque é a personagem Taylor, é a imagem que ela quer passar: de pessoa emotiva, movida pelos sentimentos, que sofre, mas tá aí, crescendo meio metro de perna a cada ano. Isso é ser cobra, pra saber exatamente quando dar o bote. Alimentar alguns bafafás, ficar calada pra gerar expectativa e, o mais importante, levar a imagem da mulher que vive, que sofre, mas que também vira o jogo. Não é à toa que Look What You Made Me Do mal lançou e já tá no topo das paradas.

Não dá pra negar, entretanto, que ela desliza um bocado. Em 2013, Hard Out There, da Lily Allen, foi extremamente criticado por pessoas de cultura afro, porque Lily usa do twerk pra enaltecer-se no clipe. Miley Cyrus também pagou de twerkeira na fase Bangerz, de 2013, e Miley Cyrus & Her Dead Petz, de 2015 (e depois abandonou tudo, no maior estilo “Meuzamigos eu voltei, eu tarra ficano doida!”) Aí Taylor vai lá, quer fazer a descontraída, e repete o caso: Shake It Off recebeu o mesmo repúdio por pessoas de cultura afro.

Não tá nas minhas mãos falar das richas de Taylor com outras mulheres. Principalmente depois do clipe de Bad Blood, do álbum 1989 (de 2014), que usa de empoderamento feminino pra botar mulheres contra mulheres numa briga. Mas tá, sim, no meu repertório achar péssimo que, na música Picture do Burn, do álbum Taylor Swift (2006) ela insinue que vai contar pra todos os amigos que tal ex é gay, se ele disser aos amigos dele que ela é obsessiva e louca. Como se ser gay fosse ruim, né, queridinha?!

Reputation

Se engana quem acha que ela é santa e se reduz a representar a vítima. Ela foi tão vítima de estereotipação quanto qualquer outra grande mulher artista que estourou sucessos no mundo todo. Reduzir artistas como ela ao vitimismo é apenas acatar a todo o discurso da mídia sobre mulheres como ela. Madonna: a pervertida satânica, Marilyn Monroe: a puta do presidente, a loira burra, Amy Winehouse: a drogada vagabunda, Alanis Morissette: a revoltada, Pink: a sapatão acrobata, Britney Spears: a louca santa do pau oco.

Vítimas somos nós, caindo no jogo sensacionalista do jornalismo de entretenimento. Vítimas somos nós que compramos brigas entre famosos. Vítimas somos nós que acreditamos que Taylor Swift, Katy Perry, Nicki Minaj, Kanye West e Kim Kardashian não se aproveitam dos barracos na vida pra aparecer mais. Vítimas somos nós que ainda temos boleto pra pagar e estamos querendo dar palpite na vida alheia. E olha, eu nem gosto da música da Taylor.

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P.S.: Só eu acho que Taylor Swift e Milla Jovovich são a mesma pessoa?

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