In Reflexões

Tá difícil questionar o que nos mandam fazer?

Obediência. Essa é uma daquelas palavras bem delicadas. A mesma expressão que pode representar um ato de respeito e benevolência, também expõe autoritarismo e subordinação. E, quando essas interpretações se misturam, o poder de alguém começa a afetar o livre arbítrio do outro. Dessa forma, é bastante delicado quando entramos em situações que exijam, como princípio, que saibamos lidar com chefia.

Como se a vida fosse um episódio de One Tree Hill, deixo aqui alguns sons pra inspirar a reflexão. Bota o play e relaxa aí:

Acabei tendo a sorte de poucos em ter líderes incríveis no meu caminho. Ivna, Kiko e Alyne ainda me acompanham depois de algum tempo, com um pouquinho do que cada um deixou em mim, de empatia, profissionalismo, dedicação e companheirismo. É o sentimento de que, somente juntos, atingimos o sucesso coletivo.

E, sim, falei líderes. O líder é aquele que acompanha o seu colega de trabalho, porque entende que, apenas juntos, conseguirão atingir um objetivo maior; e ele pede, orienta, ensina, abre caminhos e dá aquele ótimo feedback, seja positivo ou negativo. Dessa gente, dá um gosto enorme em executar uma atividade sob comendo dela ou dele, porque, como colaborador e parte de uma equipe, somos valorizados.

Os líderes são mentores natos. Professores como Alvo Dumbledore, personagem da J. K. Rowling, ensinam pelas palavras e pelos atos; constroem um legado fiel de seguidores capazes de lutar por uma causa maior. Jornalistas como Mikael Blomkvist, da saga Millennium, enfrentam autoridades políticas, empresariais e jurídicas e mobilizam desconhecidos pra chamar atenção ao abuso de poder das organizações.

“Quero que você me me ajude a capturar o assassino de mulheres.”

E ainda tem médicos como Meredith Grey, da gloriosa Grey’s Anatomy, e advogados como Alicia Florrick, de The Good Wife. Essas tiveram seus anos de aprendiz e, como tal, percebem todas as dificuldades em criar o seu próprio espaço, além de garantir uma identidade própria. Sendo assim, cuidam de sua equipe com o mesmo zelo que apreciam o crescimento de seus filhos.

Já no caso da chefia… bem, a chefia não tem nenhuma característica do líder. O chefe manda e quer ser atendido. Ele preza pela fiel obediência do subordinado sem entregar nada em troca, além do salário no fim do mês. São os famosos

“Se não quer fazer,
tem uma fila de gente lá fora,
pronta pra tomar o teu lugar.”

Esses são os chefes que perpetuam uma aura de medo e incerteza nos ambientes de trabalho. É por causa deles que muita gente teme a necessidade evidente de questionar. Somos tratados como gado nessas situações. Somos os equipamentos que aram a terra, mas a valorização chega bem antes na merda que aduba o campo.

Somos a própria Hannah Horvath, de GIRLS, em todos os seus motivos: vai trabalhar de graça por um tempo e é absurdamente competente no que faz e traz resultados positivos. Mas é subvalorizada porque tem outra pessoa ali na firma que sabe usar o Photoshop. Pedir para receber um salário não é razão para ser dispensada.

E sabemos que Hannah é incrível. Ela não precisaria, por exemplo, escrever um livro de graça sem garantia de que, tal dia, iria receber alguma quantia em troca. Ela não deveria ter de aturar abuso sexual do chefe em um novo emprego só porque precisa pagar o aluguel do apartamento onde vive.

As vítimas desses abusos somos nós. Estudantes, estagiários, jovens aprendizes e profissionais recém-formados que estamos dispostos a ganhar experiência, seja onde for. Nós somos novos, temos competência, garra e visão de futuro. Mas o mercado é tão antiquado que tem cheiro de mofo e decomposição. Fora que os donos do poder até morrem, mas as políticas organizacionais do século XX não são enterradas com eles.

Jornalista é um bicho que sofre, viu.
E, de alguma forma, posso falar aqui disso.

Trabalhei num dos maiores conglomerados empresariais de mídia do Nordeste do Brasil. Observei colegas de turma esquecerem do seu papel ali nas redações jornalísticas. Em sala de aula, aprendemos a questionar uma decisão editorial, estudar o impacto que um título causa nas pessoas e, mais do que tudo, passamos a ter noção do que causa a estereotipação e como é ditar, através da mídia, o que as pessoas irão comentar e até pensar.

Dá trabalho ser audiência num dia e, no outro, assumir o papel de informador. E tanto se fala da função do jornalismo de massa para uma comunicação cidadã, mas dá pra perceber que as oportunidades de questionar esta produção estão passando batido. Receber uma pauta do seu editor não é considera-la já como feita. Somos humanos, temos moral, temos ética. Passamos longe de ser máquinas que montam títulos chamativos através de algoritmos. Mas também passamos longe de questionar por que uma matéria precisa ser tendenciosa, por que ela precisa ser preconceituosa, racista, machista, gordofóbica, LGBTfóbica.

Somos jornalistas e somos questionadores por natureza. Mas, só porque precisamos de um emprego, não significa que também precisemos nos submeter à produção nociva de informação ou que precisemos humilhar a população de um bairro, uma classe social, uma categoria de trabalhadores. Devemos ter a empatia de pensar em como outras pessoas irão receber a informação.

Meus amigos, questionem. Recebeu uma pauta tendenciosa? Converse com seu editor. Pergunte o motivo de precisar ser daquele jeito. Se for difícil demais pra você engolir a execução daquele trabalho, tente manejar e passar para outra pessoa, porque esse é o seu DIREITO garantido pela ética profissional. E, olha, isso é algo que seria defendido com unhas e dentes pelo Sindicato porque, afinal, ele não serve só pra garantir que você receba o salário corretinho no fim do mês.

E isso pode ser levado a tantas outras áreas. Direito, Política, Marketing Eleitoral, Assessoria de Imprensa e Comunicação, Saúde… até na própria ficção! Vejam só os atores de Malhação que leram os textos e deixaram passar uma ofensa gordofóbica. Percebam como os roteiristas / novelistas / escritores desta novela não tiveram a mínima consideração em pensar como o público gordo receberia aquela mensagem de ódio disfarçado de romantismo. Resultou em problema, né? E poderia ter sido evitado.

Chrissy Metz como Kate, em This is Us

E olha, Malhação já tinha passado por uma bela vergonha quando foi tratar de soropositividade em 2015. A transmissão de HIV ainda é tratada como um tabu, ainda que existam várias tecnologias em medicina preventiva. Custa se informar direitinho? Tantos incentivos do governo pra comunicar a população sobre a doença Aids e sobre o vírus HIV, aí chega uma noveleta e taca uns absurdos na cara do povo? Haja estigma nesse carai de mundo! Se quiser saber mais o que se passou, confere aqui essa matéria do Huffington Post e o vídeo do Gabriel Estrela.

Por isso, meuzamigos, fujam do chefe escroto. Chefe é o que vai te botar pra fora no primeiro questionamento. Chefe não vai atrás de diálogo, ele só quer os resultados e, mais ainda, ele quer é o lucro. O líder seria capaz de te defender diante da diretoria no caso de algum problema surgir porque, da mesma maneira como esse líder te desperta fidelidade, ele também tem fidelidade a ti.

Às vezes, somos mais forte do que pensamos e passamos um tempo sendo galinha-choca de empresa irresponsável porque, enfim, precisamos pagar o boleto e não tem papai nem mamãe pra dar na boca. Mas, podendo evitar, fujam das relações abusivas que você sabe que vão te causar sofrimento.

Sai correndo, bina, é cilada!

Sempre vai existir uma saída mais saudável ao teu bem estar psíquico, social e econômico. Não te rende pro abuso do mercado. Você é melhor do que imagina. Tenha paciência, Padawan, vai chegar tua hora de ser Jedi.

“Bom trabalho! Sério, bom trabalho.”

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