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Rhoda, 8 anos, psicopata, assassina

Crianças dão medo? Já vi gente dizendo eu crianças são miniaturas humanas capazes de qualquer coisa porque não têm o mínimo escrúpulo, além de serem imunes à maioria das leis sociais. A verdade dita por uma criança pode doer bem mais, ser incisiva, insistente, prepotente e pior: certeira. Mas, e quando essas crianças desenvolvem psicopatia?

>> Medos infantis
>> A semente ruim
>> Mulheres
>> Psicanálise em jogo
>> Afinal, Rhoda é psicopata?

Acompanhe a leitura ouvindo essa playlist cheia de surpresas grotescas:

Toda criança aprende em casa, na escola e, talvez, até na religião: mentir é feio. Essa educação, geralmente, acaba sendo feita na base da chantagem: se mentir, fica de castigo / se mentir, não tem recreio / se mentir, deus castiga. A maioria acaba entendendo que é errado, mas não é consenso geral: uma e outra, entre milhões, vão desafiar o senso da honestidade, assim como o que é certo e errado.

Medos infantis

No início de American Horror Story, exatamente na primeira cena de Murder House, na primeira temporada, eu achei que estivesse diante de uma mini-psicopata. Adelaide era criança quando, inacreditavelmente, premeditou a morte de dois garotos da maneira mais limpa e seca possível. Veja a cena:

“Com licença. Vocês vão morrer lá dentro.”

E, da mesma maneira que poderia dizer “Tenho chocolate no bolso”, Adelaide menina falou “Vocês vão se arrepender”. E eu fiquei besta e impressionado com a cena e esperei, sim, que Adelaide tivesse uma participação mais intensa no seriado. Uma criança / mulher adulta com Síndrome de Down (interpretada por Jamie Brewer) sendo uma psicopata. Seria lindo pra mostrar pessoas com Down de outra maneira, menos vitimizadas e mais ativas, tanto nas artes quanto na ficção. Mas, como Ryan Murphy é bem covardinho na hora de prosseguir com ideias, isso não esteve nem perto de acontecer, e a série (não só essa temporada) foi caminhando ao precipício.

Considerar que uma criança pudesse ser psicopata me deixou curioso e fui pegando, aos poucos, umas produções que abordam o tema, como A Órfã (2009) e Precisamos falar sobre o Kevin (2011). Inclusive, nesse tempo, voltou à tona o documentário A Ira de um Anjo (Child of rage – 1992), que conta o caso de Beth Thomas, abusada sexualmente enquanto criança que desenvolveu comportamentos relacionados à psicopatia.

A semente ruim

No meio do mistério de causas e consequências, me vi de cara com o livro de 1954 de William March, Menina Má, que possui uma adaptação cinematográfica bastante icônica de 1956.

O livro, com edição brasileira realizada pela DarkSide Books, gira em torno de Rhoda, uma menina de 8 anos extremamente independente, coisa que os adultos simplesmente adoram e vivem dizendo:

Essa menina tem 8 anos e já parece ser muito bem capaz de cuidar de si mesma, o que não é nada comum em nenhuma idade.” – p. 48

A todo momento, Rhoda se sente orgulhosa de si, não importa o que tenha feito. O extremo orgulho resulta em arrogância, ira e inveja disfarçadas de mero interesse. Absurdamente sagaz e inteligente, Rhoda passa a perna no pais várias vezes. E, se ela é capaz de fazer isso com as pessoas que a criou, o que faria, então, com outras crianças, indefesas e inocentes? E mais: o que faria com adultos cheios de fraquezas e inseguranças?

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Observando as pessoas, Rhoda sabe exatamente com quem usar suas habilidades de persuasão e manipulação de forma explícita. Na frente de Christine, a mãe de Rhoda, e de amigos da família, a menina é calada e tímida, ainda que vire um pavão quando comentam seu bom comportamento. Com os pais, não demonstra afeto, a não ser em casos específicos em que sabe que irá ganhar algo como recompensa: desde apenas atenção até roupas e brinquedos.

O mistério todo se desenrola quando um menino da escola de Rhoda morre afogado e some uma medalha que ele ganhara por boas notas. Rhoda falara inúmeras vezes com a mãe e com as amigas da mãe acerca do quanto queria ganhar a medalha e o quanto tinha certeza de que ganharia, pois sempre tirava boas notas.

Ela deve ter aprontado alguma coisa, pensou Christine. E uma coisa bem ruim, ou não se daria ao trabalho de tentar me agradar.” – p. 73

A narração da história acontece sempre pelo ponto de vista de alguém, sempre em terceira pessoa. É na mente de Christine que entramos e percebemos, junto dela, que existe algo de errado com as atitudes, pensamentos e sentimentos da filha. Ao mesmo tempo em que Christine associa fatos e lembranças e argumenta sobre como todos os atos da menina são inaceitáveis, quem está de fora enxerga em Rhoda somente a menina comportada, adorável, madura e independente.

Mulheres

Monica é uma dessas personagens que veneram a adultização de Rhoda. o é aquele tipo de pessoa que busca explicações pra tudo na vida, principalmente explicações psicológicas. A cada questionamento de Christine, Monica dá um motivo baseado no que seu terapeuta já falara para ela, ainda que Christine não peça nenhuma opinião ou demonstre quais são seus reais problemas.

Ainda que a índole de Monica irrite bastante, ela se mostra independente e questionadora, contrastando com a imagem conservadora de Christine. Inclusive, Monica se impõe tanto que podemos observar até um momento em que ela veta um mansplaining:

Não deixo de me espantar com a arrogância de certos vendedores. Quando comprei as saboneteiras, o vendedor me disse: ‘Melhor eu lhe mostrar como se instala isso, madame’. E respondi: ‘Meu senhor, fique sabendo que eu sei ler muito bem, e as instruções estão bem aqui, devidamente impressas na embalagem’.” – p. 178

A caracterização de todas as personagens femininas de William March nesse livro são insanamente profundas e detalhadas. Enquanto os homens têm vidas monótonas, solitárias, tristes e dignas de pena, as mulheres (Rhoda, Christine, Monica) tem forte presença a ponto de apagarem os homens, que se tornam invisíveis e frágeis: do menino morto ao jardineiro que leva uma vida baseada na inveja.

Psicanálise em jogo

Na introdução escrita em 1997 pela crítica literária estadunidense Elaine Showalter, dúvidas acabam sendo sanadas e algumas suposições se confirmam. William March escreveu The Bad Seed enquanto a abordagem da Psicanálise se tornou a mais popular entre os profissionais da área da Psicologia.

Não é à toa, portanto, que Freud acaba sendo mencionado no livro. Menos coincidência ainda é a busca pela explicação de todos os fatos a partir das atitudes e do comportamento de cada um dos personagens, e o próprio Freud acaba sendo personificado em Monica, que sente imenso prazer em discorrer sobre tudo ao seu redor.

William March, o autor

Para se ter uma ideia dessa dimensão psicológica da obra, homossexualidade e fetichismo fálico são explorados e discutidos de maneira totalmente aberta numa roda de amigos. Para os padrões atuais não é grande coisa, mas o choque para a época foi tanto que a Little, Brown, editora de outras obras de March, rejeitou o manuscrito de The Bad Seed. A crítica especializada, por sua vez, acabou venerando a obra. Shame on you, Little, Brown…

Afinal, Rhoda é psicopata?

A dúvida paira sobre nossas cabeças do começo ao fim. A maior parte do tempo somos inclinados a acreditar que Rhoda é culpada pelos atos diabólicos mencionados na história. Mas e se ela é só uma menina incompreendida que estava na hora errada no lugar errado? E se foi a própria Rhoda quem acabou sendo influenciada pela opinião impositiva de sua mãe? Essas são dúvidas que podem passar pela mente, principalmente quando todos os outros adultos veem Rhoda de forma tão angelical.

March busca a explicação para a psicopatia infantil na genética, o que eu acabei achando determinista demais a ponto de soar forçado. Ainda que ter “psicopata” como diagnóstico esteja clinicamente relacionado a abusos, violência e negligência parental, a genética entra no conto aparentemente pra fechar alguns buracos históricos. De uma forma ou de outra, eu não pensaria duas vezes e me afastaria o mais rápido possível dessa criatura das trevas, hein!

O final tem um quê de conto shakespeariano e impressiona. Pode não ser a conclusão perfeita ou ideal, mas pelo menos sabemos a que ponto chegaram as tragédias particulares de cada personagem central. Eu queria era saber mais, vou nem mentir!

A edição nacional, por conta da caveiríssima DarkSide Books, foi lançada em 2016, tem capa dura, acabamento fosco em soft touch, e a diagramação está bem leve e agradável. De certa forma, esperava que os ícones gráficos tivessem alguma relação direta com a história, mas não foi o caso: ficou lindo, mas não se conecta tanto assim.

No geral, deixo aqui pra edição e pra obra de William March: 4 oclinhos merecidíssimos.

Menina Má
Título original: The Bad Seed
Edição de 2016 da DarkSide Books
ISBN: 9788566636819
272 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

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2 Responses to Rhoda, 8 anos, psicopata, assassina

  1. Eu tenho esse livro, mas ainda fico meio com medo de ler. Acho interessante toda a discussão acerca da Rhonda, mas é um livro que vai ficar na minha cabeça um bom tempo depois da leitura, devido ao tipo de assunto.
    Vamos ver se tomo coragem…
    Beijos
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

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