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[resenha] A implacável ambientação de Tons de Magia #1

No volume 1 da série Tons de Magia, não são os personagens de V. E. Schwab que tomam a dianteira. Tem algo bem acima deles que define tudo ao redor: o próprio poder mágico.

O quanto um livro é capaz de surpreender com uma abordagem inovadora? Magia é tema comum em boa parte dos livros de fantasia. Muitas vezes, o elemento fantástico das histórias é reduzido à mágica, sendo só mais uma arma pra lutar contra o mal… Ou, em outros casos, acaba sendo o próprio mal, na figura e carne de bruxas más e feiticeiros gananciosos.

É bem raro, contudo, que a mágica consiga guiar as narrativas. Na maioria das histórias, os personagens contém, libertam, destroem ou aprendem a lidar com o fator mágico. Nos casos em que a dominam, usam desse artifício em benefício próprio, para atingir os objetivos. Mas, no 1º volume da série Tons de Magia, em Um Tom Mais Escuro de Magia não tem nada disso. A magia criada por Victoria (V. E.) Schwab é visível, é tangível, tem nome e mundo próprios.

A Magia como personagem

Vou ser bem ousado e dizer que: Schwab fez da Magia não só a guia da narrativa, mas também a fez personagem. É por causa dela que tudo acontece e se desenrola. É por ela que as pessoas vivem e morrem. É pelo poder mágico que permanecem vivas, em plena consciência de que existe esse poder sobrenatural ou passam a vida na mais densa ignorância achando que bruxa realmente morria na fogueira da Inquisição (como bem aprendemos em Harry Potter).

Queima quengaraaaal

Os mundos são completamente separados uns dos outros. Ao que se conhece, 4 mundos convivem lado a lado. No início, as passagens entre esses mundos era livre: mágicos e não-mágicos poderiam transitar livremente por esses portais de mundos distintos. Mas a luta pelo poder político e a ganância pelo controle da magia ocasionou alguns transtornos… Guerras, massacres e confinamentos foram o resultado disso.

Tons de magia

O centro de todo esse poder fica em Londres. Na Londres daqui e na Londres de lá (e de lá também, e dali…) pois Londres é o nome da cidade no mesmo exato território em todos os 4 mundos. As únicas pessoas capazes de viajar entre esses mundos agora são os Antari, uma raça com poderes mágicos tão intensos que são marcados com o rastro da magia: um dos olhos dessas pessoas é completamente preto.

Um dos Antari é Kell, um órfão que foi abandonado enquanto menino e passou a ser criado pela família real que habita em Londres. Mas não na nossa Londres. Kell mora na Londres Vermelha, um lugar onde todos têm poderes. A nossa Londres é chamada por Kell de Londres Cinza, uma realidade totalmente desprovida de poderes mágicos, apenas com pessoas normais, meros trouxas…

Mas ainda existem 2 outras. A Londres Branca também é mágica, mas não tanto quanto na Londres Vermelha. Ela passa por uma instabilidade política constante, com governantes sendo derrubados e substituídos (usei eufemismo, eles são mortos mesmo) a toda hora. No momento da história, quem governa a Londres Branca são os irmãos Astrid Dane e Athos Dane.

Por último, a Londres Negra, um mundo da magia na sua forma mais pura e mais selvagem. Ninguém sabe muito sobre esse lugar, simplesmente que é muito mais hostil que a Londres Branca. Claro que o fator mistério também ajuda a compor essa fama, porque há séculos não existe comunicação entre a Londres Negra e as outras “Londreses”.

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Comunicação, inclusive, é um fator determinante da história que se apresenta nas letras de Schwab. A Família Real da Londres Vermelha é quem “faz as ligações”, tudo em prol da diplomacia e da boa convivência com os vizinhos. Por ordem dela, Kell, sendo um Antari, o amigão da vizinhança, é quem leva as mensagens para os outros mundos. Para a Família Real da Londres Cinza e também para os irmãos Dane, na Londres Branca.

Mais amigão que o Homem Aranha??

O caminho é apenas esse: através de um Antari, a única raça que pode fazer a travessia entre mundos. E eles são raros. Na Londres Vermelha só existe Kell. O que diabo é isso então que acontece quando a Londres Negra dá indícios do seu poder na Londres Cinza? Me pergunte não, vá ler, vá!

Numa realidade que existe pelo poder da Magia, nada poderia ser normal. Aos poucos, vamos sabendo detalhes que despontam a contar o que é essa Magia, de onde veio, como dominá-la e não ser dominado (como se reproduz, o que come, bem Globo Repórter). Kell é um ótimo personagem, é lindo, é crush… mas, num mundo desses, com uma Magia dessas, ele não passa de mais um coadjuvante.

Pera, quê? Comassim viado

Assim como Lila também é! Ela é uma moça que comeu o pão que o diabo amassou na Londres Cinza. Totalmente normalzinha, a não ser pelo fato de ser uma ladra, e das melhores e mais espertas! Ela vai dar algumas reviravoltas nesse lugar e é lindo ver como tudo vai convergindo ao mesmo ponto. Mas, como falei, protagonista aqui é a Magia!

Construção de mundo

A autora, Victoria Schwab, possui um canal no YouTube onde comenta os processos criativos, responde dúvidas de leitores e dá dicas que ajudam escritores iniciantes. Num dos vídeos ela menciona o quanto a construção de mundo é importante pra ela e como isso facilita pra ela imaginar o andamento da história.

E em Um Tom Mais Escuro de Magia é perceptível todo o destaque da ambientação. O fato de se passar no século XIX dá um charme especial aos espaços e às ocasiões, e dá mais vazão para o elemento da realeza. Mas não dá pra negar que a magia em si é que domina tudo!

E a ideia de balancear diferentes mundos com quantidades distintas de magia soa totalmente plausível. Ainda mais se a gente vai mais fundo e imagina como as pessoas agem nesses mundos, como levam suas vidas, o que as motivam e o que as tornam únicas. É assim que funciona a cabeça da Schwab, pelo menos.

Influência do meio

Esse livro é uma baita lição de como as pessoas podem ser frutos do meio. Não totalmente, claro! Frutos do meio, sim, e descendentes das relações com o local onde cresceram e vivem. Tô pra ver livro de fantasia que seja melhor ambientado do que esse. Talvez os próximos sejam ainda melhor localizados e tragam bem mais surpresas.

O intuito aqui não era falar tanto do enredo. Os personagens são encantadores ao seu próprio modo. E o bastante já foi exaustivamente falado acerca da representatividade da mulher forte em Lila. A construção de mundo me pareceu perfeita, impecável. Foi o que me encantou e foi o que me fez dar 4 oclinhos de nota pra esse livro.

Um Tom Mais Escuro de Magia – Tons de Magia #1
Título original: A Darker Shade of Magic (Shades of Magic series)
Edição de 2015 da Tor Books
ISBN: 9780765376459
400 páginas
Nota Skoob – 4.3 | Nota Goodreads – 4.08

Li na edição em inglês da Tor Books. Foi bem tranquilo, é bacana pra quem já tenha um nível de inglês intermediário. O trabalho gráfico é simplesmente lindo e primoroso e, pra mim, valeu super a pena! A edição nacional é publicação do Grupo Editorial Record.

Não vou ser otariane e esconder minha satisfação. Amei! Mas talvez eu seja um pouquinho trouxa de dizer que tenho grandes esperanças e expectativas na continuação e na conclusão da série Tons de Magia. E as expectativas também alcançam outros livros da Victoria (V. E.) Schwab, principalmente Vicious, que ainda não foi traduzido aqui no Brasil. Veremos…

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4 Responses to [resenha] A implacável ambientação de Tons de Magia #1

  1. Nati Rabelo disse:

    Ei Falkner!
    Amei como você construiu a resenha, abordando ponto a ponto um pouco da história e da importância da Magia. Devo dizer que graças a você agora to louca pra ler esse livro hahaha.

  2. Bia Lourenço disse:

    Carmba!
    Primeiro preciso elogiar a forma que você escreve sua resenha, EU AMEI!
    Segundo que fiquei doida para adquirir esse livro, parece ser muito diferente mesmo de tudo que posso ter lido. Preciso saber mais sobre Kell e todos esses mundos!

  3. Auridiane Carvalho disse:

    Desculpe a comparação sem sentido e com um filme de péssima qualidade, mais quando li Tons de magia e Tons mais escuro, acabei relacionando com 50 tons de cinza. Hahaha
    Mas enfim gostei muito da dica só suspeita pois gosto muito do fantástico e maravilhoso em obras.

  4. Marcinha Nunes disse:

    Primeira coisa que reparei foi a semelhança no nome do Livro com o 50 Tons talvez a autora tenha feito proposital por ser fã do livro né…achei muito interessante você resenhou da sua maneira e deu um tom divertido,despreocupado sobre o que estava escrevendo…outro fato interessante é essa temática das 4 Londres que me fez lembrar HP com as várias casas…já estou imaginando um filme vindo dessa série de livros. Gostei bastante 🙂

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