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[resenha] Prova de Fogo é suportar os limites da enrolação

Resenha: Prova de Fogo, segundo livro da série Maze Runner, parecia trazer algum nível de maturidade, mas se perdeu entre dúvidas e incertezas de meninos.

Já percebeu que a febre das distopias adolescentes ainda não acabou? Tem muita gente que tá louca pra ver a continuação do filme de Convergente e se recusa a ler o livro antes de lançar o derradeiro final. Mal sabem eles que o final da série é insano, descontínuo e divergente do que os 2 primeiros livros apresentaram.

Mas parece que, além de rebolar jovens numa arena com armas e rivalidades, a coisa da enrolação também é moda. Divergente foi caminhando pra um final apocalíptico de contexto político e se transformou em ficção científica em, tipo, 10 páginas. Jogos Vorazes enfiou romance goela abaixo e fez nascer um Em Chamas repetindo fórmulas só pra preencher tempo até o final. E Maze Runner (por mais que isso pareça piada) não fica pra trás.

“Agora querem me matar de novo.” Johanna, melhor pessoa de Catching Fire

James Dashner, o autor da saga Maze Runner, teve uma ideia que outros escritores também tiveram. Jovens confinados em algum lugar entregues à própria sorte, dependendo da própria esperteza pra sobreviver e submissos a uma liderança duvidosa é um tema que se repete desde 1954 quando veio pro mundo o livro O Senhor das Moscas, de William Golding, escritor vencedor do Nobel de Literatura em 1983.

Muito provavelmente a ideia é bem anterior a O Senhor das Moscas. Mas vim pra falar de Prova de Fogo, o segundo livro da série Maze Runner. E, só por um acaso, ele não parece em nada com o filme que você viu no cinema.

Meu labirinto, ninguém sai!

Sabe quando a porrada tá comendo, o drama tá desenrolando e você já consegue perceber o que vem pela frente? É assim o final de Correr ou Morrer, primeiro livro de Maze Runner. Não dá pra sequer imaginar que seria tão fácil sair da conspiração do CRUEL (Catástrofe e Ruína Universal: Experimento Letal, a sigla mais tosca que você não consegue respeitar).

Prova de Fogo inicia com os sobreviventes do labirinto descobrindo que estão presos num prédio rodeado por pessoas infectadas com a doença chamada fulgor, que deteriora gradativamente carne e nervos. No salão principal desse prédio, as pessoas que resgataram a gangue do labirinto estão mortas, penduradas no teto por cordas. Teresa desaparece e Thomas (obviamente) fica desesperado sem saber onde a jovem tá. O único rastro da presença de Teresa no prédio é uma placa com o nome dela e os dizeres “Traidora”.

Logo logo, o CRUEL surge pra informar que eles continuam em provações e precisam refinar os resultados. Pelo que são informados, todos os sobreviventes estão infectados com o Fulgor, ao mesmo tempo em que representam uma esperança para a cura dessa doença. Pra receberem o antídoto definitivo, eles devem chegar até um ponto seguro do outro lado de um deserto que mais parece um bug da natureza.

“Que tipo de mundo desordenado era capaz de criar uma tempestade como aquela?” – capítulo 25

Mas nada em Maze Runner é fácil e esse é o ponto mais positivo de todos. A escrita de James Dashner não nos deixa respirar e vai jogando na nossa cara uma morte atrás da outra. De formas inesperadas e surpreendentes, o grupo vai diminuindo e cheguei a perder o fôlego de tanta angústia em certas passagens. O ritmo é de entretenimento puro: intenso o bastante pra manter a leitura fixa durante algumas horas do dia.

Expectativas inalcançáveis

Sim, eu esperava que a estória trouxesse um nível a mais de maturidade. Mas não é o que acontece. Todos os personagens continuam com suas piadas toscas e palavreado inventado incluindo mértila, trolho e plong.

O palavreado é característico dos clareanos e, ao que entendi, foi inventado por eles, o que se justifica pela falta de memória que sofreram ao chegar na Clareira do labirinto. Acontece que: existiam outros labirintos e, aparentemente, todos usam o mesmo palavreado. O que é um tanto estranho, já que eles não tiveram contato prévio.

“Você continua parecendo um idiota toda vez que usa o jargão da Clareira.” – capítulo 9

Outra evidência do caráter infantil desses jovens é a incapacidade deles aprenderem com os erros cometidos no passado. Em Correr ou Morrer, a falta de uma liderança convincente e forte fez o grupo se dividir e rivalizar entre si. Muitos ficaram na Clareira e vão continuar presos por lá. Em Prova de Fogo, a liderança forçada de Minho não convence, e o ar orgulhoso e apático do cara ocasiona algumas mortes. Tem até um momento em que ele comemora o fato de ter perdido poucos membros do grupo, como se fossem só uns pedaços de carne e não pessoas.

Leia também:

Feminismo pra quem né mores

Talvez esse trecho possa ser considerado SPOILER pra alguns leitores mais sensíveis, então já tá avisado… Lá vai:

Durante a travessia do deserto, Thomas conhece Brenda, uma moça nos primeiros estágios do Fulgor. Ela parece bem dona de si, sabe o que quer e sabe demonstrar. Ela se atrai por Thomas de cara e o mocinho fica se fazendo de doido pensando na fidelidade que deve à Teresa (mesmo com várias e incessantes dúvidas se pode confiar nela). Thomas rejeita Brenda numa cena lamentável e se mostra bem ingrato com a ajuda que Brenda tem dado a ele.

O problema tá numa passagem bem lamentável. Quando Teresa e Brenda se conhecem (não direi o contexto ok?), existe uma faísca de raiva entre as duas. E Thomas, só por um acaso, merece essa atenção toda? Como se ele fosse esse croissant todo (e ele não chega a ser nem um pão de queijo!).

“Nenhuma das duas disse uma palavra sequer, mas o ódio entre ambas era quase palpável.” – capítulo 44

Não bastava que James Dashner escrevesse uma saga inteira com protagonismo masculino heterossexual entre adolescentes querendo se provar um mais macho que o outro. Tinha que enfiar uma rivalidade emocional desnecessária entre mulheres brigando por um embuste de boy, né?

Baixou a Taylor Swift né?

Tem como fugir?

Thomas é um dos protagonistas mais bucólicos que já li (pra não dizer chorão). Indeciso, imaturo e incompetente, ele é o mais influente do grupo e sabe que precisa tomar a liderança. Mas ele sempre recua e depois se lamenta incansavelmente quando algum dos companheiros morre. E mesmo com tanta coisa acontecendo, Thomas não nos deixa esquecer que Teresa desapareceu, clamando por ela em todo capítulo.

Primeiro o labirinto e a perseguição dos Verdugos. Depois, ameaças invisíveis num túnel sem iluminação, um sol de torrar a pele em segundos e pessoas desequilibradas pelo Fulgor. Por incrível que pareça, existe um equilíbrio entre a choradeira de Thomas, a infantilidade do grupo e a ação do mundo desajustado pelos desastres naturais. De fato, essas pessoinhas não vão parar de correr tão cedo…

Tem problemas de abordagem, tem furos, mas ainda deixa um gostinho de interesse pelo 3º volume. É entretenimento e não vai muito além disso. 3 miopias pra Prova de Fogo.

Prova de Fogo – Maze Runner vol. 2
Título original: The Scorch Trials
Edição de 2012 da V&R
ISBN: 9788576832997
400 páginas
Skoob | Goodreads
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8 Responses to [resenha] Prova de Fogo é suportar os limites da enrolação

  1. debyhsama disse:

    Olá,
    Entendo alguns pontos que você diz, mas outros para mim não me irritariam. Não li nenhum livro da série, e pretendo na verdade. E quanto as coisas serem um pouco ‘bobas’ é sempre bom lembrar que eles são adolescentes né.

    Debyh
    Eu Insisto

  2. Oie
    na verdade até agora só vi o primeiro filme da série e não me despertou curiosidade para continuar ou ler os livros pois não é bem meu tipo de leitura favorita mas ainda assim achei bem legal sua resenha e os pontos que vc trouxe, quem sabe em algum momento eu não arrisque

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

  3. Olá!
    Ainda não conheço o gênero, por isso não posso opinar muito.
    Já tive muita vontade de ler Maze Runner, mas isso foi diminuindo com o passar do tempo. Hoje em dia, a história não chama minha atenção, como das outras distopias que você citou.

    Abraço!

  4. Débora Costa disse:

    Eu nunca terminei de ler essa série. Eu larguei o primeiro livro na metade porque não gostei muito da narrativa, mas pretendo continuar um dia, dar uma segunda chance sabe?

    http://laoliphant.com.br/

  5. Silviane disse:

    Meu deus! Você realmente não gostou do livro HAHAH
    Mas concordo com a maioria das coisas, mesmo que eu ame demais essas distopias jovens bobas. Mas sempre que eu sempre vi Divergente como uma ficção cientifica? Com aqueles experimentos que rolou no primeiro livro de cara, e tudo só foi caminhando ao seu derradeiro final. Sei lá, meu ver… mas faz anos que li e nunca nem fiz resenha sobre essa trilogia. Quem sabe em um outro momento eu releia.
    Mas voltando A Prova de Fogo é um livro que eu achei tão chato que depois dele abandonei a saga inteira, não consegui ler mais nada porque meu desinteresse foi enorme. Talvez seja porque mostra um homem com protagonista e eu me identifico, claro, muito mais quando é uma mulher. Sobre essa falta de sororidade entre as duas meninas até certo ponto faz sentido, no contexto de um livro em geral, porque sempre temos uma personagem feminina sendo disputada por dois garotos. No caso, como o autor optou por Thomas ser hétero então ele esta sendo ~disputado por duas meninas. Enfim, analisando só por esse aspecto… não sei como sera o relacionamento das duas futuramente, então é mais complicado opinar com tanta propriedade.

  6. Maria José disse:

    Olá, ótima resenha. Eu leio pouquíssimas distopias (por falta de oportunidade, não por não gostar) e ainda não comecei a ler essa e depois da sua resenha nem tenho muita animação pra ler. Pode ter pontos interessantes, mas que pena que em pleno segundo livro os personagens ainda não amadureceram nada.

  7. Sandra Mendes disse:

    Hey, Falkner!

    Você conseguiu acabar com todas as esperanças que eu tinha a respeito de Maze Runner! rsrsrsrs
    Eu li o primeiro livro (acho que em 2014 ou 15) e gostei muito, mas, apesar de ter os demais, por algum motivo que não me lembro agora, não continuei a leitura. Agora, depois da sua resenha, já nem quero mais. Já me decepcionei com Divergente e Jogos Vorazes o suficiente pra não querer perder meu tempo com mais do mesmo. Acho que vou passar meus livros pra frente.. ahahahahahaha

    Beijos!

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