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O medo real e o terror imaginário de Fragmentos do Horror

Fragmentos do Horror celebra as manifestações do medo. Terror, horror e espanto se misturam na arte de Junji Ito com a psicótica edição da DarkSide Books.

Medo, espanto e horror são 3 sensações diferentes que partem do mesmo princípio: a estranheza. Medo é autopreservação, é a ânsia em se proteger dos perigos iminentes. O espanto vem do confronto repentino com algo fora do comum. E o horror transparece pela repulsa da ameaça de um ato ou cenário. Fragmentos do Horror, mangá de Junji Ito publicado pela DarkSide Books, traz todos os três.

Bizarro, embora muito comum e familiar a todos nós, é o alívio que sentimos (…) quando, após um longo período de desconforto, ansiedade, premonições sombrias, dias cheios de apreensão e noites sem sono, finalmente confrontamos o perigo real: uma ameaça que podemos ver e tocar. (Medo Líquido, p. 7)

Já é assim que Bauman começa o Medo Líquido (Zahar, 2006). Nesse estudo, Bauman traz uma série de concepções que envolvem o medo. Morte e maldade, o horror ao que foge da rotina, a presença do medo e o confronto ao que dá medo fazem parte desse discurso. E Junji Ito não vai muito longe do que o Bauman discute.

O que tem por aqui:

Fragmentos do Horror é um mangá com 8 contos gráficos independentes entre si que realçam os sentimentos ao redor do medo. Terror, horror, espanto e até gore são situações que percorrem um ou vários dessas estórias. A base não fica presa ao fantástico, mas também realça a maneira como a natureza humana é, por si, aterrorizante.

Jatos de sangue

O traço de Junji Ito varia de acordo com o propósito que ele quer passar e o momento da estória. Algo que sempre observo, seja em HQs, mangás, animes e demais animações, é a expressão facial dos personagens. E os personagens de Junji Ito são incrivelmente expressivos! Sabemos exatamente o que eles estão sentindo.

Em alguns dos contos existem personagens que tentam esconder as emoções, mas até isso é perceptível pelo traço do autor. Percebemos que existe algo errado no caráter e nos interesses do personagem só de ver sua linguagem corporal. Olhos sombreados, postura arqueada ou um sorriso enviesado já comunicam o bastante pra saber que esses não são dignos de confiança.

O medo e o mal são irmãos siameses. Não se pode encontrar um deles separado do outro. Ou talvez sejam apenas dois nomes de uma só experiência.(Medo Líquido, p. 74)

Mas isso é o traço natural dele. Em cada conto existem algumas páginas que concentram em mostrar algo impactante. Nojo, desconforto, enjôo, medo e horror são o foco de Junji nessas passagens. Ele quer que o leitor sinta o mesmo impacto que seus personagens tiveram ao confrontarem-se com aquelas visões. E ele consegue: essas imagens (principalmente de Dissecação-chan e Magami Nanakuse) são um tanto difíceis de esquecer.

Desenho bom, roteiro mediano

O que chama atenção em Fragmentos do Horror, de cara, é a ilustração. O roteiro fica em segundo plano, escondido só pra quem se aventura a ler os contos. Toda a criatividade de Junji Ito está ali, dentro dos personagens e nas tramas que vivem. Entretanto, não existe equilíbrio ideal aqui.

Ilustração e roteiro devem conversar entre si perfeitamente, e esse é o pecado de Junji Ito nessa obra. O roteiro segue uma fórmula básica em quase todos os contos: apresentar personagem, introduzir o problema e surpreender com uma cena chocante. Depois do segundo conto, já dá pra supor os momentos nos quais a estória vai ficar tensa e vai surgir o elemento de horror.

Os únicos contos que, de fato, funcionam como contos (ou seja, uma narrativa curta e que traz uma conclusão a tudo apresentado) são Gola Rulê Vermelha e A Mulher que Sussurra. Os outros contos não se concluem, têm soluções fáceis, deixam pontas soltas ou fica a impressão de que faltam informações… Como se Junji houvesse tentado criar algo maior, mas parou por ali.

Mesmo assim, os contos Monstro de Madeira, Suave Adeus e Dissecação-chan são um espetáculo de horror urbano. Neles, percebemos a interação dos personagens com os ambientes e cada um tem a própria contextualização. Monstro de Madeira traz a relação de uma família com o histórico do lugar onde vive. Suave Adeus mostra o poder que a oração fervorosa em conjunto é capaz de ter. E Dissecação-chan não tem nada de subjetivo: é psicopatia pura com alguns possíveis elementos sobrenaturais.

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A realidade por trás

Junji Ito não se apega só ao fantástico e ao sobrenatural. Com tantos elementos na mesma trama, é fácil que alguns temas acabem por ficar na superficialidade, se dispersem ou sejam ofuscados pela proposta de chocar pelo terror. Futon e Dissecação-chan mostram a relação de um casal com todos os seus problemas, principalmente a infidelidade. Suave Adeus apresenta a maneira como a mulher é / era tratada no casamento pela família do esposo na cultura japonesa. Suave Adeus, inclusive, deixa no ar a naturalidade da agressão física de homens a mulheres.

Magami Nanakuse também tem sua própria particularidade ao introduzir uma personagem travesti. Não fica claro se a pessoa é propriamente drag, transgênero ou travesti. Mas, sendo uma escritora, ela se apresenta publicamente como mulher e se despe em casa. E um problema relativo a isso também não fica por trás.

É possível sentir o preconceito que a protagonista do conto tem com essa escritora ao descobrir que é uma travesti. A vivência de pessoas drag, trans e travesti na cultura oriental não é tão aberta quanto a androginia que vemos nos mangás e animes. A recepção da androginia no oriente não é a mesma pra quem designa a si uma identidade de gênero distante do masculino ou feminino.

Festa ao horror

No posfácio da publicação, Junji Ito conta que ficou 8 anos sem escrever. A pausa longa no trabalho dedicado ao horror refletiu na consistência de suas criações. O próprio autor admite que seu trabalho em Fragmentos do Horror está abaixo da média. Não conheço outros trabalhos dele, mas é impossível discordar. A fama do cara é unânime pra quem consome produtos de horror e eu não esperava nada menos do que algumas noites sem dormir. Mesmo assim, tem seus vários destaques positivos, como já falei acima.

Vale ressaltar ainda a qualidade da edição. Nunca vi um mangá com capa dura, mas óbvio que isso mudaria com a DarkSide Books, né? A ilustração de capa referencia o quadro O Grito, de Munch, e esconde desenhos que só aparecem quando refletidos na luz. Por dentro, o papel é grosso, fosco, não reflete luz nem deixa entrever o outro lado da página. E acredite: já peguei muito mangá com papel-jornal com desenhos manchados pela tinta da página de verso.

O resultado não poderia ser simplesmente foda: ficou incrível. E é uma porta de entrada bem interessante para outros trabalhos do Junji Ito. É até bem simples e didático pra quem não tem costume em ler mangás no sentido oriental: de trás pra frente, da esquerda pra direita e de cima pra baixo. DarkSide também poderia trazer uma orientação simples de como funciona o mangá, pois, sim, ainda tem muita gente que estranha!

Ilustrações espetaculares, cenas de impacto e a própria edição da DarkSide contam muito pra nota que dei a esse livro. Infelizmente, é no principal que ele peca: o roteiro. Não consigo deixar de lado a previsibilidade de algumas estórias. À parte disso, é impossível não consagrar a criatividade desse cara. 3 oclinhos pra Fragmentos do Horror.

Fragmentos do Horror
Edição de 2017 da DarkSide Books
ISBN: 9788594540362
224 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

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Outubro vai ser um mês recheado de conversas sobre medo, terror, horror e algumas variações disso. Tem muita coisa boa engavetada que quero falar por aqui. Então, nada melhor do que o retorno das 3 postagens por semana: sempre às segundas, quartas e sextas! Bora nessa juntos?

É o Outubro Macabro aqui no Desfalk. Em razão do Halloween / Dia das Bruxas no fim do mês, teremos uma ruma de livro, filme e seriado pra deixar você de olhin bem aberto a noite toda!

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Fragmentos do Horror foi cedido pela editora DarkSide Books. Para ver outros conteúdos da caveira pelo Desfalk, clique aqui.

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9 Responses to O medo real e o terror imaginário de Fragmentos do Horror

  1. Yuri S disse:

    Me parece um tanto desconfortável de ler, mas to com muita vontade!

    http://www.sextadimensao.com/

  2. Larissa disse:

    Olá, tudo bem?
    Certeza que não leria 😅 Não por maldade é que se o autor já quer que eu sinta o que o personagem sentiu no momento já vi que ficaria traumatizada, sou muito medrosa.
    Amei sua resenha!
    Beijos, Larissa (laoliphant.com.br)

  3. Olá
    meu deus, que edição linda, adorei. Ainda não sabia sobre o livro mas como sempre a dark side arrasou, já estou muito curiosa

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

  4. Oi! Ultimamente estou me arriscando mais em ler mangás e achei a premissa dessa publicação da editora um arraso! Que legal ler uma história ilustrada que percorre as diferentes facetas do medo.
    O novo selo da Dark Side ganhou meu coração, e espero poder adquirir obras assim em breve.

  5. Sandra Mendes disse:

    Hey, Falkner, tudo bem?
    Caramba, que resenha fantástica temos aqui, senhoras e senhores!
    Apesar de adorar histórias de horror, medo e morte (rsrsrs), não sou fã de mangás. Então, mesmo não me interessando pelo livro, eu amei sua resenha! Completíssima e muito bem escrita. Parabéns!

    Beijos!

  6. Marcia disse:

    Já quero o livro só pq é da Dark, que se Deus quiser eu vou conseguir fazer uma coleção. E o que foi apresentado aqui já me com aquele friozinho de alegria na barriga, mesmo buquê depois possa achar uma merda kkkkk
    Bjs adorei seu post

  7. Jade Amorim disse:

    Falk, eu sou uma fã alucinada do Junji Ito, comecei a me aventurar pela sua narrativa em Uzumaki, talvez uma de suas obras mais consagradas e lançado pela Conrad em 2008 (se não me engano). Claramente concordo com sua avaliação, o Ito nos últimos anos esteve escrevendo um mangá de horror e meio bizarro sobre gatos (!) e ele perdeu muito da mão que experimentei em suas primeiras obras.
    O traço continua sensacional, a qualidade gráfica da Darkside é orgásmica para mim que sempre sonhou em ver o Ito ser tratado com tudo que merece aqui no oriente.
    Acredito que o conto que mais me fez lembrar o Ito antigo, no primeiro contato que tive com ele foi A Mulher que Sussurra. É claramente meu favorito e onde eu vi ele trabalhar perfeitamente no horror clássico, aquele que te espanta e te congela.
    Enfim, ótima análise. Adorei a sua ideia de fazer um outubro especial em homenagem ao Halloween.

    Beijo beijo!
    http://www.jadeamorim.com.br

  8. Morgana Brunner disse:

    Meu deus que edição é essa Jesus, fiquei encantada por demais, sou meio louca desses quadros e fiquei feliz de encontrar a resenha desse livro aqui em seu blog, ficou demais as fotografias e quero para ontem lê-lo. Ainda mais sendo da Darkside queridinha da minha vida haha
    Beijinhos

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