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[resenha] A Monster Calls: eterna luta contra a culpa

A Monster Calls, ou Sete Minutos Depois da Meia Noite, relata a luta de um menino contra os sentimentos da culpa e da angústia, tudo com doses de realismo mágico.

Culpa. Esse é um dos sentimentos mais devastadores que se pode sentir enquanto animal social dotado de consciência. Ninguém está suspenso de sentir culpa. É por ela que outras sensações exalam: raiva, tristeza, angústia, desespero. É por ela que algumas condições afloram: isolamento, fobias, depressão. Nem todo mundo sabe lidar com a culpa e é aí onde mora o maior dos perigos, o pior dos monstros. E ele se revela em A Monster Calls (Sete Minutos Depois da Meia Noite).

Tudo começou com uma ideia de Siobhan Dowd. Autora britânica com dois grandes sucessos da literatura juvenil (A Swift Pure Cry, de 2006, e The London Eye Mistery, de 2007) que trabalhava com a editora Denise Johnstone-Burt na Walker Books. A nova história era promissora e foi guardada por Denise quando Siobhan veio a falecer em 2007, vítima do câncer de mama que infligia a escritora desde 2004.

A história, muito mais madura e ousada que outros livros de Siobhan, envolvia a jornada de um menino com a mãe acometida pelo câncer. Denise Johnstone-Burt também era editora de Patrick Ness, que já havia alcançado certo sucesso com a Trilogia Mundo em Caos. Com a ideia e um início já definidos por Siobhan Dowd, Patrick desenvolveu A Monster Calls. O resultado foi a mais primorosa junção de duas mentes focadas em passar uma ideia.

Para ler a crítica do filme no Desfalk, clique aqui

Vidas particulares

Ninguém sabe o que realmente se passa entre as quatro paredes da casa de uma família. Mas na família de Conor O’Malley, quase não existe segredo… Ele vive apenas com a mãe que está passando por um tratamento intenso contra o câncer. A situação dela se agrava cada dia mais, e os remédios e as possibilidades de cura vão se esgotando.

Uma amiga de Conor da escola descobre e, de repente, todos estão sabendo. Alunos, professores e até desconhecidos sentem aquela pena aguda do menino. Conor só quer ser como qualquer outro garoto comum e não consegue escapar da maneira como as pessoas olham e falam com ele. Ainda assim, tem muito sobre Conor que ninguém sabe.

Começa pelo fato de Conor acordar toda madrugada após um pesadelo tão terrível que faz o garoto chorar, gritar e suar frio. Esse sonho, nem ele admite para si mesmo que tem acontecido, de tão terrível que o pesadelo é. E a isso é somado o fato de Conor ter de ser totalmente independente tão cedo. Ele cozinha, lava, limpa, tira o lixo, faz de tudo porque sua mãe está cansada e debilitada por conta do tratamento e dos remédios.

Mas aí você pode perguntar: cadê o pai dessa criança? Fugiu, né! Ou quase isso: se separou da mãe de Conor e casou novamente com uma americana, e é nos Estados Unidos que mora desde então. Conor já acostumou com essa ausência do pai de quem tanto gostava. Mas agora só sente amargura sempre que o pai faz uma ligação, porque ele nem se dá mais ao trabalho de visitar o filho.

Extravasando a dor

Ainda tem a profunda culpa que Conor sente quando algo dá errado. Ele segue uma rotina de pequenos atos diários, como um TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), na fé de que são eles que mantêm a saúde da sua mãe estável. Então, se ela se sente mal ou não melhora com um novo tratamento, logo ele procura se punir por isso. E, não conseguindo, vai somando mais e mais angústia numa bola dentro do estômago do menino.

A maneira que Conor encontra de se sentir punido é se pondo como vítima de bullying. Claro que existe um problema bem maior por trás do bullying, mas Conor vai atrás do contato de quem pode fazer mal a ele, para que ele possa, enfim, se sentir confortável na própria pele com os próprios problemas e a própria angústia.

Sempre que existe a oportunidade, então, Conor se permite levar algumas surras de Harry, o carinha perfeito da escola, rico, importante e influente, o canalha mais cínico de todos. Formou-se uma relação de simbiose entre os dois: Harry mantém o status de valentão batendo em Conor diante dos amigos e Conor anula um pouco da angústia que sente pela punição que ele acha merecer.

O Monstro

Deixei o Monstro pra falar por último pra provar o quanto essa história consegue ser profunda, independente da fantasia que carrega. Esse Monstro se trata de uma árvore de Teixo. Essa espécie de árvore pode viver por centenas de anos. Constantemente são associadas a elementos folclóricos de povos antigos da Europa, principalmente os druidas e os celtas.

Na mitologia irlandesa, o Teixo foi uma das 5 árvores trazidas do mundo sagrado. Para os druidas, assim como para os cristãos, o Teixo é simbolismo da vida eterna. Nas lendas celtas, a longevidade do Teixo é atribuída a propriedades mágicas da árvore em poder se regenerar, além da capacidade de renascer após morrer. Morte, inclusive, é um tema associado ao Teixo devido ao seu veneno, tendo sido retratada em peças como Macbeth, de Shakespeare.

O Teixo de Siobhan e Patrick em A Monster Calls é um pouco de tudo isso. Um monstro extremamente sábio que viveu várias vidas em uma só existência e viu povos nascerem, sociedades crescerem e guerras destruírem tudo. E, na sua própria existência mágica, o Monstro tomou liberdade para interferir na história da humanidade quando havia iminência de morte sobre injustiçados.

Sendo assim, o Teixo da colina próxima à casa de Conor ganha vida e desperta na forma de um monstro que impressiona, mas não assusta Conor. Seu objetivo é fazer com que Conor desperte a consciência de si e aprenda a lidar com a própria culpa de maneira sábia, concreta, saudável e definitiva.

Para isso, duas coisas devem acontecer. A primeira: o Monstro irá fazer algumas visitas a Conor, sempre aos sete minutos depois da meia noite, para contar histórias de alguns dos seus atos passados. A segunda: após contadas as 3 histórias do Monstro, Conor deve contar para o Monstro a maior verdade sobre si que esconde de todos.

Transformação

Lá fora, A Monster Calls é vendido como literatura infantil. Mas essa história é tão cheia de significados, tão profunda nos sentimentos que não vejo uma criança lendo e conseguindo entender o que se passa. Imagino que a impressão delas deva ser exatamente a mesma sensação do Conor ao ouvir as histórias do Monstro: “Que tipo de história é essa?”

Ainda assim, é impossível não classificar A Monster Calls como transformador, no mínimo. Perdi as contas de quantas vezes chorei lendo essa história pela primeira e pela segunda vez. São várias oportunidades que o texto dá para fazer o leitor pausar a leitura e sentir, com toda intensidade, o que aquilo significa.

A Monster Calls transcende os personagens do texto. É fácil associar os contextos com situações familiares da nossa própria vivência ou da vivência de pessoas próprias. Esse é um livro necessário. Não sou o mesmo depois de ter lido essa história e, sempre que precisar me lembrar do que importa na vida, é pra ele que eu vou retornar. Agradeço à memória de Siobhan por isso.

Sete Minutos Depois da Meia Noite
Título original: A Monster Calls
Edição lida: Candlewick Press, 2011
ISBN: 9781406311525
205 páginas
Nota Skoob – 4.4 | Nota Goodreads – 4.37
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9 Responses to [resenha] A Monster Calls: eterna luta contra a culpa

  1. Alice Martins disse:

    Olá Falkner, tudo bem?

    Já vi muitas pessoas falando bem tanto do livro como do filme, mas confesso que as resenhas que tinha lido não tinham instigado minha vontade, tanto quanto a sua. Seu post me fez ver as peculiaridades da história, como a culpa do personagem por não conseguir dar conta das coisas, coisas essas que ele nem deveria se preocupar. O sentimento de “pena” das pessoas deveria perturbá-lo, principalmente se ele estava desenvolvendo TOC. Eu amei a sua resenha, está maravilhosa!

    Beijos!

  2. Nilton Alves disse:

    Oi falkner , tudo bem? Ainda não livro esse livro só vir o filme e gostei muito. Parabéns pela sua resenha está perfeita e bem detalhada.

  3. Raíssa Zaneze disse:

    Oi Falkner! Tenho a impressão que já ouvi esse nome. Mas minha memória não esta me deixando lembrar. Gostei da premissa que você mostrou. Principalmente a parte da culpa. É um livro que me deixou com vontade de ler. E rápido rs.
    Adorei sua resenha e suas fotos. Tudo muito bonito! Parabéns. Beijos

    https://almde50tons.wordpress.com

  4. Oi Falkner!!
    Eu sou louca para ler esse livro, mas sempre esqueço de comprar. Acho que vou dar uma chance ao filme, pois ele sempre aparece para mim como indicação.
    Achei a diagramação do livro super bonita e sua resenha me deixou muito curiosa!!
    Bjs
    https://almde50tons.wordpress.com/

  5. Heey! Eu li esse livro ano passado – e que engraçado eu estava falando dele há algumas horas e de repente me deparo com o seu post -, e como eu amei esse livro. Eu nao espera receber tanto de um livro tao curtinho e uma estória que eu achei que seria bem bobinha, mas esse livro veio com os dois pés na minha cara. Muito bom mesmo. Adorei seu post.
    A B R A Ç O S.

  6. Narah disse:

    Olá!
    Que capa! Que edição! Que história! Que sinopse!
    Preciso desse livro (pra ontem!).

    Amei!
    Beijos,
    Narah – http://www.lerantesdedormir.com.br

  7. Olá!
    gostei muito de seu texto e fiquei interessado no livro e no filme. Durante a leitura de seu texto eu me lembrei do Labirinto do Fauno, pois os personagens passam por momentos difíceis em suas vidas, e há a presença do mítico nas duas narrativas.

    https://refletindoweb.wordpress.com/

  8. Robson Morais disse:

    Parabéns pelo blog…Devido a correria do dia a dia não sobra quase tempo para ler alguns livros literário que tenho vontade e ler…
    Mas vou fazendo uma lista para ler em seguida…
    http://www.robsondemorais.blogspot.com.br

  9. Bia Anjos disse:

    Tenho muita vontade de ver esse filme, especialmente depois de ter visto o trailler e de ter me identificado muito com o conteúdo.
    Talvez eu não tenha estômago pra ler o livro, já que as palavras me afetam mais do que informações visuais, mas pretendo ver o filme.

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