In Críticas

A representatividade ausente na Bienal do Livro do Ceará

Eu poderia muito bem apontar a falta de representatividade LGBTQ+ na cultura Geek/Nerd, já que amanhã, 25 de maio, será o tal Dia do Orgulho Nerd, também chamado de Dia da Toalha pelos fãs da literatura de Douglas Adams. Mas esse, aqui, não é o propósito. Eu ainda tô na semana passada, 7 dias atrás, quando falei do Dia Internacional Contra a LGBTfobia no post Memória, realidade e ficção LGBTQ+.

Há 1 mês, terminava a Bienal do Livro do Ceará, aqui em Fortaleza. Quando compareci, qual foi a minha surpresa, então, de ver que o evento, normalmente grandioso e extremamente movimentado todos os dias, assumiu um perfil diferente. Comparado a outros eventos nacionais em cidades do mesmo porte de Fortaleza, essa Bienal foi pequena, apressada e desorganizada.

Foi ótimo ver a presença ostensiva de mulheres e negros no evento. Painéis dedicados à conversa entre escritoras, ao debate da literatura produzida por mulheres, à presença africana na cultura e na literatura brasileira; esses espaços foram aplaudidos com vigor e mereciam, sim, bem mais destaque. A própria editora Nandyala, com foco na publicação de autores africanos lusófonos, estava lá, um tanto tímida, apontando sua existência apenas quando Paulina Chiziane estava presente.

Apostando na representatividade

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Destaque às editoras independentes? Nem pensar. Com exceção da editora Nandyala, não haviam stands de editoras independentes. Panini, Companhia das Letras, Senac, Senado: essas estava lá e tinham espaços consideravelmente grandes e com destaque. Talvez conheçam, então, editoras novas e pequenas como a Carambaia, a Rádio Londres e a Ubu, né? Mas editoras independentes, com propósito econômico diferenciado, como a Wish, e com política editorial de representatividade LGBTQ+, como a Hoo, estavam ausentes.

Nossos autores são porta-vozes de uma literatura que, finalmente, saiu do armário.

É assim que a Editora Hoo se apresenta no seu site. Criada em 2015 por Marcio Coelho e Juliana Albuquerque, um casal cis-hetero, a Hoo enverga a bandeira da edição e publicação da literatura LGBTQ no Brasil com o posicionamento de publicar literatura com temática LGBT para todo o mundo e acabar com a heteronormatividade na literatura”.

Como noticiado pelo portal PublishNews no fim de abril, a Hoo foi adquirida pela Universo dos Livros e podemos esperar daí que os títulos LGBTQs tenham um pouco mais de força no mercado editorial brasileiro.

Acompanhamos o trabalho que a hoo desenvolveu na publicação de livros com temática LGBT e acreditamos que seja o momento certo para investir na empresa e ampliar significativamente o número de livros no segmento.” – Luis Matos, sócio-diretor da Universo

E sabemos que tudo é um círculo mega vicioso. Se não tem demanda de público, as editoras nacionais não vão atrás de títulos estrangeiros para publicar. Sem novos títulos a publicar, o nicho LGBTQ+ se encolhe e regride e menos pessoas conhecem. É por isso que continuam desconhecidos títulos de excepcional sucesso da literatura estrangeira com personagens lésbicas como Girl Mans Up, de M-E Girard, Goergia Peaches and Other Forbidden Fruits, de Jaye Robin Brown, e Queens of Geek, de Jen Wilde. Ou, se já tiveram os direitos de publicação adquiridos por alguma editora nacional, ainda não deram nenhum sinal de vida.

 

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Ausência LGBTQ+

Nos ambientes do evento dedicado ao público geek e nerd, senti falta de uma personagem extremamente simbólica: Lisbeth Salander, da trilogia Millennium escrita pelo sueco Stieg Larsson. Bissexual e com relacionamento lésbico, Lisbeth foge de vários padrões. Suas características conflitantes pela suspeita de conviver com algum nível de autismo são motivos para levar levar a personagem de Lisbeth ao debate. Mais que isso: o problema envolvido na continuação póstuma da saga Millennium, após a morte de Stieg, deveria ser motivo de conversa a ser aproveitado numa discussão de universos expandidos nos ambientes geeks da bienal. E foi oportunidade perdida.

Se estavam presentes autores LGBTQs nessa Bienal, simplesmente não tiveram palco. E, sim, isso é bastante grave. É bacana ceder espaço às mulheres e às pessoas negras. Mas cadê as pessoas transgênero, as travestis poetas e rappers, as lésbicas escritoras? Lorelay Fox é a drag-persona de Danilo Darbague, e essa artista participou da publicação de Over The Rainbow: Um livro de contos de fadxs, voltado ao público jovem LGBTQ+. À parte de ter aparecido no programa Amor e Sexo, ela é bem acessível e faria um trabalho fenomenal compondo um painel no tema da diversidade na literatura.

Não só Lorelai, mas também Rosa Luz, mulher trans, negra, periférica e artista. Aos 21 anos, ela manifesta sua arte em poemas, monólogos, projetos audiovisuais e está com proposta em financiamento coletivo no Kickante para gravação do EP Clandestina. Estudante de Teoria, Crítica e História da Arte pela Universidade de Brasília, ela tem o canal Barraco da Rosa e já participou do evento TEDxBrasília, como mostra o vídeo a seguir:

Rosa Luz é uma mulher da vida” – descrição da artista em sua página no Facebook

E temos também escritores iniciantes que percebem a importância de se produzir literatura LGBTQ. Alex Lopes tem a plena consciência de que é difícil produzir diante da conjuntura atual do mercado editorial, e o desafio ainda é maior quando se propõe um livro com protagonismo trans. O seu livro As Transições retrata uma história de ficção envolvendo realismo mágico, tão em voga na literatura jovem adulto que chega de fora do Brasil.

Na estória, Ícaro é um garoto trans envolto num contexto de melancolia e opressão e, no seu caminho, encontra uma mulher que irá ajudá-lo a perceber nuances diferentes na sua existência. O livro de Alex Lopes está à venda no Clube de Autores em versão de ebook e exemplar físico, neste link.

Fazendo direito

Imagina como seria incrível ter mesas de discussão com essas pessoas. Bienal não é estandarte pra militância nenhuma, justamente porque é o melhor palco para todas. Se nesse evento tivemos mulheres, negros e índios, também temos, ali do lado, uma galera cheia de intensidade e vontade pra discutir e debater cultura, literatura e ativismo artístico nesses ambientes. Porque arte não tem gênero nem orientação sexual, muito menos obedece estigmas de classe e cor. A arte só existe, e vai continuar existindo mesmo sem que chegue Secretário de Cultura pra apontar o dedo e dizer pros jornais: “Isso aqui pode”.

A Bienal passou e foi sucesso, claro. Mas poderia ser melhor? Definitivamente sim. Nomes mais condizentes com nosso contexto, mais próximos da nossa realidade e mais assertivos com a proposta da própria Bienal, que é democratizar a literatura. Teve jovem no evento, mas não teve programação pra jovens — jovens mistos, plurais e antagônicos que são. Claramente, foi um evento para agradar essencialmente a filatropos, acadêmicos, professores e jornalistas, e não pra atingir um propósito democrático.

Eventos como a Bienal do Livro não são aparato político pra seu ninguém e deveria cumprir o seu devido papel em servir de vitrine da produção local, que está na nova proposta do evento. Entregar ao povo um evento mal arranjado é puro desrespeito, principalmente se levarmos em conta que recebeu financiamento pela Lei Rouanet. Se é pra pregar na testa o adesivo da representatividade, vamos fazer tudo nos conformes, né? A Bienal do Livro é evento de calendário e nós temos mão de obra, temos produto, temos a vitrine e temos público: organizando direitinho, todo mundo se pega.

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