In Literatura

Quando a não-ficção caminha ao lado da ciência e da história

Qual a credibilidade do fato contado? O gênero da “não-ficção” reforça a relação de confiança entre autor e leitor capaz de provocar curiosidade e emoção.

Recentemente, trabalhei numa empresa onde jornalistas criam todo tipo de conteúdo. Roteiro de vídeos, artigos para site, ebooks, cursos, apostilas e até livros. Nunca tinha me passado pela cabeça que eu pudesse trabalhar dessa forma sendo jornalista. Já tinha ouvido de profissionais de Letras que trabalham como ghostwriters. Mas, nos livros dessa empresa, estavam lá os nomes dos jornalistas que participaram da escrita, por mais que o nome da capa fosse outro.

Dias depois dessa descoberta, olhei pra minha estante e encontrei ali alguns exemplos disso. Já tava rebolando na minha cara e eu não enxerguei! Livros de não-ficção escritos por jornalistas que não necessariamente eram livros-reportagem no sentido bruto da palavra. São biografias, estudos históricos e até “traduções” do que profissionais de outras áreas não sabem dizer com palavras acessíveis. Vai uns exemplos aí?

O Segredo dos Corpos
de Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell

Um dos grandes lançamentos da DarkSide Books desse ano foi justamente um livro de não-ficção. Integrante da coleção Crime Scene, este livro relata os principais casos vivenciados pelo patologista Vincent Di Maio. Ele, um dos grandes nomes da medicina-legal nos Estados Unidos, trabalhou em conjunto com Ron Franscell (jornalista e romancista) para escrever O Segredo dos Corpos.

O papel deste livro é saciar ao mesmo tempo que nutrir a curiosidade pela medicina forense americana, incansavelmente apresentada em séries como CSI e Dexter. A diagramação do livro acompanha destaques de texto típicos de jornais e revistas, além de fotos e documentos antigos, que são recursos comumente usados pelos jornalistas para reforçar algumas informações. Ilustrando outros trechos, o leitor ainda é presenteado com desenhos de anatomia bastante detalhados.

Entre os casos que a dupla apresenta, alguns são um tanto famosos pela repercussão que causaram na época em que ocorreram. O assassinato de Trayvon Martin em 2012 é um deles: um jovem de Miami que, por ser negro, acaba sendo morto por um policial. O crime ocasionou comoção e houve posicionamento até por parte do então presidente Barack Obama.

Outro caso marcante é o da assassina em série Genene Jones, ocorrido na década de 1980. Enfermeira, trabalhou em hospitais e clínicas onde, coincidentemente, várias crianças, especialmente recém-nascidos, vieram a óbito. Fechei essa leitura com um pouco de choque, não pelas revelações da medicina forense, mas pela natureza dos crimes. Mas nada pior do que o desfecho da história de Genene, que ainda está para acontecer (ou prosseguir) no ano de 2018.

Além de O Segredo dos Corpos, também vale citar A Sexta Extinção, de Elizabeth Kolbert, que caminha pela mesma linha entre relato jornalístico e ciência. Com este livro, Elizabeth ganhou o prêmio Pulitzer de 2015, que serviu pra repercutir a importância fundamental do seu trabalho em alerta para a Ecologia e os problemas da poluição.

Perpétua, de Maggie Paiva

Colega de faculdade e de profissão, Maggie Paiva é jornalista e se empenhou em criar o livro Perpétua, uma jornada que atravessa o Brasil do Ceará ao Pará em busca de recontar acontecimentos do passado. Perpétua foi apresentado por Maggie como Trabalho de Conclusão de Curso em 2016 e já ganhou 2 prêmios de destaque como produção universitária: Expocom Nordeste 2017 e Expocom Nacional 2017.

O destaque não vem ao acaso. Perpétua informa sobre um Pará diferente, que não crescia apenas pela produção seringueira, mas também pela exploração mineira. Quanta gente não se dirigiu ao Norte em busca da sonhada riqueza fácil, da mudança e prosperidade? Famílias nordestinas, em fuga da terra árida que castiga gregos e troianos, tentaram a sorte. Entre elas, Perpétua e seu marido Gedeão.

Ao acompanhar a construção da Transamazônica e o crescimento de cidades como Campo Verde e Itaituba, é difícil imaginar que a tragédia tem ponto certo nessa história. Se decidir ir já não é fácil, imagine então conseguir sobreviver num ambiente selvagem? Existem terras onde nem todo cidadão é bem-vindo e a natureza demonstra seu ressentimento sem distinguir idade ou gênero.

Perpétua não só transmite fatos. O trabalho de Maggie emociona, cativa e ressalta a importância de dramatizar alguns fatos para melhor informar. As palavras de Maggie Paiva evocam o melhor de Truman Capote e Gay Talese, ficcionando fatos quando necessário, preenchendo as lacunas em branco pela imaginação e conhecimento evocado por entrevistas, estudos, análises e simples conversas num trajeto de barco.

O financiamento coletivo para a publicação de Perpétua está em andamento pelo Catarse e é possível contribuir com quantias a partir de R$ 10,00. Bora contribuir? Tive acesso ao livro pela autora e me encantei, tanto que meu apoio à campanha já foi feito! Torço demais pra que mais pessoas possam conhecer Perpétua nessa saga verdadeira que tanto intriga e envolve o leitor no suspense da realidade.

Apoie Perpétua aqui

Ah, e nesta segunda (06/11) tem início o I Encontro de Jornalismo, Literatura e Mídias Sociais, realizado pela agência Lírou (responsável por Perpétua) e o Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará! Maggie Paiva participa da programação falando sobre livro-reportagem e euzinho, Falkner Moreira, estarei lá no dia 8, quarta-feira, pra falar de produção de conteúdo sobre literatura na internet. Vamo dar um abraço e conversar sobre coisa boa?!

Dias: 6, 7 e 8 de novembro
Horário: 18h30min
Onde: Auditório Rachel de Queiroz – Centro de Humanidades 2 – Universidade Federal do Ceará, bairro Benfica – Fortaleza, Ceará.
Programação completa no evento do Facebook.

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