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Os legados de Tyra, Heidi e RuPaul

Três artistas, apresentadores e empresários. Tyra Banks, Heidi Klum e RuPaul Charles: cada um tem o seu programa e é bem interessante de ver como os três seguem exatamente o mesmo modelo de reality show e, ainda assim, se sobressaem na individualidade. E esses três tiveram muita estrada pra caminhar até chegar nesse patamar impecável de supermodelos do mundo.

Vamos aos tópicos:

>> Inspiração e moda na TV
>> America’s Next Top Model
>> Project Runway
>> RuPaul’s Drag Race
>> O legado

 

Inspiração e moda na TV

O mercado da moda é um dos que mais movimenta capital no mundo, dentro do nicho da indústria cultural. Se a gente for pensar bem, esse também é o mais acessível, levando em consideração que roupas são bens de consumo primário. Ter programas televisivos mostrando (ainda de que forma surreal) como funcionam esse mercado, representa uma importância significativa pela valorização da mão de obra que tantas pessoas dedicam a esse setor.

Há uns 7 anos, eu lembro de ver, bem por acaso, programas como America’s Next Top Model, Project Runway e RuPaul’s Drag Race pela primeira vez. Na boa: não entendi muito do que tava vendo, era só uma galera competindo entre si pra ver quem era o melhor em determinada coisa. Quando, enfim, pude acompanhar uma temporada de Top Model desde o início foi que comecei a perceber melhor o que tudo aquilo representa. E é instigante, ao mesmo tempo que intrigante, ver que, sim, existem pessoas por trás desse mercado e não são só máquinas pra servir o público e as empresas.

“Porran”

Modelos não são robôs nem objetos inanimados que respondem automaticamente quando um fotógrafo comanda uma ação, e o enquadramento no estigma do corpo perfeito é mais uma luta psicológica que elas têm de enfrentar. Designers sofrem com uma pressão insana de terem que criar seus nomes numa indústria extremamente competitiva, sujeita a críticas constantes de elementos que, muitas vezes, são tão subjetivos quanto arte.

E drag queens já são um nicho exclusivo por si só, mas não por opção. Uma forma de militância e resistência LGBTQ+, a arte drag eleva ao máximo a feminilidade e o rompimento entre gêneros. É nesse caminho que muita gente se encontra, depois de terem sido jogados pra margem da sociedade.

Esses três programas que citei, então, foram captando cada vez mais minha atenção, principalmente depois que eu escolhi uma carreira e uma profissão que tem de lidar constantemente com inspiração. E também com a resistência e a vontade em não se sujeitar à vontade de ninguém e permanecer intacto com a nossa integridade.

America’s Next Top Model

Primeiro, vamos de Tyra: nasceu na Califórnia, nos Estados Unidos, em 1973. A carreira de modelo teve início quando ela tinha 17 anos e, 7 anos mais tarde, ganhou o seu primeiro prêmio de reconhecimento: o Supermodelo do Ano, concedido pelo VH1. Ela foi a primeira mulher negra americana a estampar capas das revistas GQ e Sports Illustrated Swimsuit, e também a primeira negra americana a entrar para a Victoria’s Secret, sendo uma das angels da companhia. Em 1998, foi coautora do livro Tyra’s Beauty: Inside and out e lançou Modelland, um romance, o primeiro livro de uma trilogia com base na carreira de Tyra como modelo.

America’s Next Top Model foi o reality show que surgiu primeiro entre esses três. Criado e produzido por Tyra Banks, ANTM exibiu sua primeira temporada em 2003 e já deu origem a 30 versões de Top Model espalhadas pelo mundo. O reality já teve 23 temporadas exibidas na TV americana e deu origem a mais 2 ciclos de All Stars, com as modelos que não ganharam mas que tiveram apelo do público e em quem Tyra enxergou algo a mais. ANTM foi agraciada com dois Teen Choice Awards em 2007 e em 2008. O reality é produzido pela Bankable Productions, anteriormente chamada de Ty Ty Productions, fundada pela própria Tyra Banks, a CEO da empresa. O 20º ciclo do programa foi o primeiro a incluir modelos homens, além das modelos femininas.

Project Runway

Heidi Klum também nasceu em 1943, mas na cidade alemã de Bergisch Gladbach. Como modelo, ingressou no mundo da moda aos 19 anos e estampou capas e capas de revistas como Vogue, Elle e Marie Claire. Heidi foi a primeira alemã a integrar o catálogo de modelos da Victoria’s Secrets, permanecendo por 13 anos como uma das angels. Ela também ingressou no mercado de design de moda, elaborando linhas de roupas masculinas e femininas, jóias, sapatos e lingerie. Em 2014, Heidi recebeu o Prêmio Cruz Vermelha, concedido pela Cruz Vermelha Americana, por razão da contribuição de Heidi à ONG após o furacão Sandy, de 2012.

Project Runway foi concebido em 2009 por Eli Golzman, também responsável por sucessos como Beauty and the Geek e Undercover Boss. Heidi Klum é quem apresenta o programa, introduzindo cada episódio, servindo de jurada e como hostess para os convidados. 15 temporadas do reality já foram ao ar e, assim como Top Model, também ganhou versões pelo mundo, inclusive no Brasil com o nome de Projeto Fashion e apresentado por Adriane Galisteu. Dá uma olhada:

A versão brasileira, entretanto, não vingou, e só teve uma temporada em 2011. Ainda assim, o sucesso de Project Runway é reconhecido tanto pelo público quanto pela crítica especializada, e já resultou na nomeação do programa a 7 prêmios Emmy, tendo ganho o de 2013, e ainda originou 7 spin-offs.

RuPaul’s Drag Race

RuPaul, ícone do cenário drag queen mundial, nasceu em 1960 na Califórnia, nos Estados Unidos. RuPaul iniciou a carreira como aspirante e entusiasta na música e no audiovisual, nos anos de 1980. No cinema underground, foi ganhando espaço, principalmente depois de integrar a produção de Starbooty!, já como drag queen. Em 1996, foi contratado pela MAC para ser porta-voz da marca de cosméticos, contribuindo para a arrecadação de fundos à MAC AIDS Fund (M·A·F), em benefício de organizações que trabalham em prol de pessoas acometidas pelo vírus do HIV. Foi como representante da MAC que RuPaul alcançou o reconhecimento de primeira supermodelo drag queen.

UH, GURL

Quando RuPaul’s Drag Race chegou na TV, foi evidente como esse programa não havia sido feito pra agradar as massas. Claramente cheio de referências da cultura pop, o reality foi todo concebido pra encarnar caricaturas de outros programas de competição. Em 2008, o programa começou a ser produzido por RuPaul para o canal Logo, indo ao ar nos EUA em fevereiro de 2009. Desde então, anualmente, Drag Race revela um talento da arte drag: pessoas que se entregam à performance como personagens femininas e dominam diversas habilidades diferentes, como costura, maquiagem, dança, humor, musicalidade, originalidade.

O legado

Para além das comparações entre cada programa e da postura de RuPaul sempre em semelhança com a de Tyra, essas produções construíram um legado de profissionais de peso. Assistimos e nos relacionamos com diversas histórias, sentimos o peso da bagagem que cada uma dessas pessoas carrega e torcemos por elas até o fim.

Esses podem não ser exatamente os programas nos quais os underdogs se sobressaem diante de todos os desafios propostos pela produção, mas são por eles que eu, por exemplo, me encanto e torço e compro discussão com os coleguinhas.

“Ninguém tem tempo pra merma coisa sempre.”

Em Top Model, eu torcia escandalosamente pra Ann Ward e pra Winnie Harlow. Ann era bem esquisitona: a altura dela, muitas vezes, a deixava com um aspecto desengonçado, mas ela sempre incorporava tudo que era pedido com muita excelência. Winnie foi uma das participantes do ciclo 21 e tem um visual extremamente marcante por conviver com vitiligo. Ela tinha uma postura terrível e extremamente defensiva, mas eu achava sensacional a maneira como ela abraçava o próprio visual e transmitia uma confiança tremenda. Uma lição de autoestima, com certeza. Inclusive, ela participou do Lemonade, da Beyoncé.

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Project Runway foi um dos poucos reality shows que me trouxeram uma emoção profunda. Um dos participantes da 8ª temporada, Mondo Guerra, dedicou um desafio à introspecção profunda. Gay, baixinho, tímido, calado (típico dos gênios, né?), ele fez peças de roupa que remetiam ao seu status de soropositivo. A maneira sutil e refinada com que ele trouxe esse detalhe da vida pessoal à tona foi extremamente inspiradora. Que fique claro: eu nunca chorei tanto vendo uma roupa, e revejo o episódio de vez em quando porque é simplesmente assustador como alguém consegue transformar dor e tristeza em elementos majestosos de moda.

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Em Drag Race podemos esperar mais e mais quebras de padrão. O programa estreia a sua 9º temporada hoje, nos EUA, sendo transmitido pelo canal VH1. Enquanto outras drags trans estavam em processo de transição ou entraram nessa fase após o programa, como Monica Beverly Hillz e Jiggly Caliente (Bianca Castro), Peppermint será a primeira drag a entrar na competição abertamente como mulher transgênero. Veja o vídeo da Cosmopolitan com a Peppermint:

Depois de 100 drags e mais duas versões All Stars, o reality revelou inúmeros talentos que romperam barreiras de gênero. E, após a premiação de RuPaul com o Emmy de melhor apresentador de reality show em 2016, é de se esperar que haja mais e mais repercussão do programa no ciclo mainstream. Assuntos como transgeneridade, então, podem se tornar bem mais explorados nos próximos meses.

Essas drags são pessoas comuns, apenas com detalhes que fogem à normatividade, sejam por assumirem estéticas andróginas, se declararem bígamas e polígamas, gênero fluido e trans. Desta vez, por fim, seremos espectadores de mais um rompimento no qual Peppermint será a protagonista. Ganhando ou não a competição, ela tem a nossa admiração pela coragem que possui e a torcida pra que sua carreira seja tão grande que possa inspirar e ajudar mais pessoas como ela.

Nas próximas semanas irei acompanhar a 9ª temporada de Drag Race. Podem esperar uma ruma de comentários por aqui, meus e de alguns colegas convidados. Feshow?

 

***

Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

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14 Responses to Os legados de Tyra, Heidi e RuPaul

  1. eu era viciada em american next top model, preciso assistir as temporadas que nao vi.
    Nunca vou esquecer delas desembarcando no brasil de biquini, e chegando em sao paulo surpresas com a falta de praia hahaahah

  2. stefhanief disse:

    Não acompanho esses reality, mas cara, que post mais incrível! Muito completinho e cheio de informações legais até pra quem não se interessa por isso. Achei muito legal conhecer e me deixou com super vontade de acompanhar, sabe?

    Beijo <3

  3. Meninaaaaa, nunca assisti nenhum dos três, mas escuto tanto falar de todos eles! Ultimamente meu feed no facebook tem sido tomado por RuPauls e minhas amigas que assistem também comentam bastante sobre. Uma hora vou sentar pra conhecer cada um deles 😀

  4. Bia Lourenço disse:

    ADORO America’s Next Top Model e Project Runway, principalmente quando a Tyra dava lição de moral nas modelos (RAINHA, né mores?).

  5. Nossa! Não conhecia tanta informação sobre estes reality’s e também não conhecia essas mulheres, mas só por falta de curiosidade mesmo pelo ramo da moda.
    Achei que foi bem explicadinho e me mostrou um outro lado que não imaginava!

  6. Estou órfã de Project Runway 🙁 Há todo um pré-julgamento contra quem vê reality shows, mas esses três em particular me parecem ser de uma categoria diferente porque, a despeito da crueldade e do desespero de alguns desafios, os participantes competem por um sonho. Há talento, estudo e muito esforço envolvido! São histórias que encantam, que te fazem torcer e sofrer junto (oi, Mondo!). Se souber onde baixar as outras temporadas de PR me avisa!

  7. Lud disse:

    Confesso que não assisto muito esse tipo de reality, mas dos que você citou, amo RuPaul’s ♥ Beijoo

    http://www.coisadalud.com.br

  8. Geisy Almeida disse:

    Acompanhei algumas temporadas do ANTM principalmente por causa das fotos finais (sou formada em Fotografia, então ver as megaproduções para as fotos foi o chamariz pra essa série) e também já vi alguns episódios de Project Runaway – embora não tenha visto nenhuma temporada completa. Gosto muito das duas, embora prefira acompanhar com afinco as séries dramáticas. 😉 Ainda não vi RuPaul’s Drag Race, mas depois do seu texto, fiquei com vontade de assistir pra ontem!

  9. Já ouvi falar dos três programas, mas ainda não assisti nenhum. Achei legal saber um pouco mais sobre cada um e o que cada um trouxe de novo.

  10. Vickawaii disse:

    Que postagem completa! Eu não conhecia quase nada sobre esses programas (acho que sou a única pessoa do meu facebook que nunca viu Ru Paul x.x) e confesso que fiquei bem interessada por cada um e suas peculiaridades. Algumas pessoas tendem a ver a moda como algo fútil, mas na verdade, é uma das formas mais fortes de se expressar para o mundo, porque tem a ver com a nossa identidade.

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

  11. Eu gosto muito desse tipo de programa, mas só acompanhei mesmo o America’s Next Top Model, os outros vi um ou outro episódio só.
    Beijos
    Mari
    www,pequenosretalhos.com

  12. Que post mais maravilhoso <3

  13. P disse:

    Shantay you stay.

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