In Séries

Oh. My. Gaga! – RuPaul’s Drag Race [review] feat. Eric Pinheiro

A estreia da 9ª temporada de RuPaul’s Drag Race foi marcada pela participação inédita de Lady Gaga no programa. Sabe o que isso representa? Bem, o relato a seguir não é meu, é de Eric Pinheiro.

Não consigo começar a explicar a minha admiração por ela sem contar um pouco da minha história e de como ela me fortaleceu.

No começo da minha adolescência, enquanto eu tava naquela confusão de descoberta sexual e identitária, me questionando de quem eu era e o que eu queria pra vida, eu fui apresentado às músicas dela. Tudo que eu conseguia ver ali era uma mulher corajosa e com nenhuma vergonha de admitir seus desejos e ambições, uma mulher forte que não deixaria ninguém passar por cima dela. Estive com ela aí.

Quando comecei a compreender que muito provavelmente eu era LGBT, já me sentia assustado. Como seria a minha vida? Minha mãe estava decepcionada e a sociedade era intolerante (infelizmente ainda é). Eu tinha medo, mas principalmente vergonha de causar esse “mal” pra minha família.

Então a Mother tava lá com sua música me mandando uma mensagem de aceitação e amor, falando que eu era simplesmente lindo do meu jeito, não importava se eu era gay, hétero, lésbica ou transgênero que eu estava no caminho certo, e que eu tinha nascido pra ser corajoso. Essa mulher dizia isso pra mim, me pegava no colo e me falava que não tinha absolutamente nada de errado comigo, que eu era lindo da minha maneira.

Por toda sua carreira ela se mostrou defensora dos direitos da população LGBT, ela teve na minha vida um papel de mãe. A sua música me ajudou a ter dimensão de quão incrível eu sou. Enquanto toda uma sociedade era capaz de repudiar um jovem e fazer ele desacreditar no seu valor, uma única mulher com sua voz foi talentosa suficiente pra alcançar meu coração e reconhecer meu valor enquanto pessoa. Ela me tornou forte, ela foi carinhosa e atenciosa, foi cuidadosa. Não é à toa que chamamos ela de Mother Monster e nos chamamos de little monsters.

E o que é mais incrível e óbvio em tudo isso é que a carreira dela mandou mensagens positivas e fortalecedoras para um mundo de pessoas. Quando assisti o primeiro episódio da 9ª temporada de RuPaul’s e a Eureka se emocionou ao falar pra Gaga como ela a ajudou e inspira as pessoas. Nesse momento eu já tava assistindo e chorando porque é exatamente o que eu farei quando vê-la, vou agradecer por tudo. Ela me deu uma segunda chance de existir, me fez ser orgulhoso de quem eu sou. Enquanto a Mother estiver comigo eu sei que ninguém vai conseguir me derrubar.

Eric Pinheiro, 21 anos

 

Quantos de nós não tivemos a vida impactada por outra pessoa? Lady Gaga é uma grande artista com uma bela mensagem de força, amor e aceitação. Não é por acaso que ela atinge em cheio o peito as novas integrantes da dinastia queen em RuPaul’s Drag Race. Mais do que nunca, a participação dela no programa reforça aquela cutucada no olho do conservadorismo. É a afirmação de que, sim!, a gente não precisa ser algo para defender e conceder espaço de destaque para uma parcela da comunidade.

Nos olhos de cada uma das 13 participantes, podemos enxergar a confusão, a surpresa e a extrema alegria de encontrar Lady Gaga. No fim das contas, o episódio fluiu como uma homenagem a essa mulher que tanto batalha pelos direitos da comunidade LGBTQ+. Pra você se dar conta do quanto ela é respeitada nesse contexto, nem o próprio RuPaul entrou na sua drag durante todos os 40 minutos de exibição: um sinal de que, naquele momento, era Gaga quem deveria receber a atenção.

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Mas o piloto dessa temporada não foi atípico somente por isso. A quebra no roteiro se torna evidente já no comecinho, quando RuPaul afirma que nenhuma delas seria eliminada naquele dia. Naquele dia, né? Mas a surpresa já não é mais tão forte, principalmente depois das mudanças apresentadas no All Stars 2. Bateria um medo se, por um mero acaso, fosse exatamente no mesmo estilo: participantes eliminando concorrência.

Na prova, relembrando o início da 7ª temporada, as bunitas devem competir no Miss Charisma, Uniqueness, Nerve and Talent Pageant, onde irão desfilar 2 looks diferentes: o primeiro deve representar o lugar de onde vieram e o segundo (BUM!) é uma montação inspirada nos looks de Gaga. Vou citar aqui 3 destaques pessoais durante o todo o episódio, numa espécie de Top 3, ok? Lezgo!

3º lugar – Eureka

Essa queen chegou toda quietinha, toda fofis, toda simpática com uma brusinha que simula uma falsa silhueta em combinação com a saia. Linda, gorda e com cintura acentuada… Não é isso que precisa pra ganhar a competição, Violet Chachki? Moving on…

No primeiro look da prova, Eureka representou Johnson City, no Tennesee, com um sotaque beeeeem carregado de garota country e alguns estereótipos que levaram a performance dela para o lado do humor. Cheia dos birimbelo pendurados, carregando uma criança nos braços, maquiagem derrubada e os cigarros pregados no cabelo, foi extremamente divertido ver Eureka ir do glamour a algo assim.

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Completando a performance nesse primeiro episódio, ela ainda levou o look de Telephone, de Gaga sendo presa. Essa é uma peça bem icônica em que não dá pra dissociar aquela composição de imagem com outra pessoa, a não ser a própria Gaga. Foi uma bela homenagem e, mais uma vez, a gata tava no ponto de bala.

2º lugar – Nina Bo’Nina Banana Fofana Osama bin Laden Brown

Com um nome desses, não tem como deixar de reparar nela, né? E a bixa chegou no programa já mostrando a força performática que guarda no bolso. Entrou na workroom bem Minnie Mouse, bem garota, orelinhas de papel, numa maquiagem super bem elaborada e os contornos do enchimento bem exagerados e redondinhos.

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Mas o melhor ainda veio depois! Não satisfeita, para o famigerado chalenge ela preparou uma cabeça de pêssego, também com papel, e incorporou a peça com uma make super intensa, e um virtido simples pra não pesar nos olhos do público. No look inspirado em Gaga, ela tacou a renda rosinha e acertou direto na peça que Gaga usou no VMA de 2009. Arrasou: nada simples, mas bela, bem ratinha, bem pêssega, bem Bad Romance.

1º – Charlie Hides

Quem é a bixa mais velha do programa? Não vale dizer que é RuPaul, o dinheiro não deixa ela ter uma ruga. É a Charlie Hides, com 52 anos e um senso absurdo de cultura pop atual. Charlie chegou toda toda, encorpada no humor, uma brusinha simples com um rosto desenhado e um colar em formato de óculos bem discreto.

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Não dá pra subestimar alguém por ser mais velho: essa galera tem muita bagagem e experiência dentro e fora da drag. De Boston, em Massachusetts, Charlie levou um traje típico dos puritanos que fundaram a comunidade que se estabeleceu ali em 1620. Também é onde fica Salém, e onde várias mulheres foram perseguidas e mortas queimadas acusadas de bruxaria. Charlie revelar o look por baixo daquele traje (por mais travado que o movimento fosse), revelou que a gata é bem estratégica e consolida bem um conceito.

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Charlie já fez algumas montações inspiradas na Gaga no seu canal no Youtube, então era de se esperar que ela tirasse de letra. Brit Awards, de 2010, foi o que ela levou para o programa, algo que é, por si, bem enigmático. Mas também carrega muita simblogia dos primeiros sucessos de Gaga.

SPOILER on the runway

No fim das contas, quem acabou ganhando foi Nina, e merecidíssima. Foi criativa pra caralho, mostrou que pode ir de um extremo a outro em pouquíssimo tempo e ainda executar tudo com uma perfeição eu poucas pessoas conseguiriam. O que me deixou com uma pulga atrás da orelha foi RuPaul’s, mais uma vez, usando de cliffhanger pra todo mundo ficar ligado no episódio que sai hoje à noite (31/03). Como se precisasse, né?

Não são mais 13, são 14 sim! Quem é a 14ª? Vai saber, né…

Não ter eliminação e não ter um bottom two foi meio cagado. O ponto alto da maioria dos episódios é justamente o lipsync for your life e acabou faltando. Mesmo em um episódio totalmente dedicado à Lady Gaga, um tributo poderia ter sido feito, fosse individualmente, fosse em grupo. Na minha percepção, foi como se só metade do episódio tivesse funcionado bem, levando em conta que a marca Drag Race tá estampada ali.

Mas foi lindo? Foi! Foi intenso? Foi! Extremamente marcante é a mensagem que se transmite ao unir RuPaul e Gaga: aceitação, amor, energia e luta. Mais do que nunca, a máxima da corrida das drags caiu como uma luva:“If you can’t love yourself, how the hell you gonna love somebody else?” São esses artistas que nos inspiram e nos instigam a seguir cada dia na batalha pelas pequenas alegrias da vida. Relembrando o que o Eric disse no começo desse post:

Enquanto a Mother estiver comigo eu sei que ninguém vai conseguir me derrubar.

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***

Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.
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17 Responses to Oh. My. Gaga! – RuPaul’s Drag Race [review] feat. Eric Pinheiro

  1. dressasouzaa disse:

    Que coisa linda esse depoimento! Admiro muito o trabalho da Lady Gaga, apesar de não acompanhar, porque ela é muito leal a ela mesma e ao público a que ela se dedica. Isso é muito importante num artista! E preciso CRIAR VERGONHA NA CARA e ver RuPaul’s!

  2. jadeafranco disse:

    Obrigada por marcar onde tinha spoiler porque olha, eu ainda não assisti e Mama Ru é minha deusa e eu tenho que checar ainda hoje o episódio!
    Adorei a homenagem, adorei a gaga aparecendo, porque ela é maravilhosa mesmo!

    Beijos
    http://www.jadeamorim.com.br

  3. Gislaine disse:

    Nunca assisti o reality, mas já me recomendaram muito! Com essa postagem, senti realmente bastante vontade de ver.
    Literalize-se

  4. Bia Lourenço disse:

    Nunca assisti RuPaul’s Drag Race, mas conheço TODOS os memes do show que estão na internet HAHAHA

    Desde o anuncio da Gaga fiquei mais interessada no programa, assisti inclusive o trecho em que ela fala da importância do movimento LGBT na sua vida, muito emocionante!

    Muito obrigada por compartilhar sua experiência conosco, me deixou igualmente emocionada. <3

    Beijos

  5. Nati Rabelo disse:

    Nada mais justo ter participação dela no programa! Acho até que demorou um pouco rs.
    Sou louca pra assistir, vi uns pedaços outro dia que me deixou com muita vontade de ver.
    Beijos

  6. meioassimetrica disse:

    Olá, tudo bem? Faz um certo tempo que não assisto RuPaul’s Drag Race, mas adoro esse reality e fiquei com vontade de voltar assistir agora. Sabe, embora não seja fã da musica da Gaga, passei a admira-la como pessoa, tanto pela sua mensagem de aceitação quanto pelas suas atitudes. Adorei o post. ^-^

  7. Cara, ainda não vi nada dessa temporada. Estou com muitas coisas acumuladas, assim que eu assistir volto aqui e comento!

    Prometo 🙂

  8. Oieee! Adoroo a Lady Gaga, já gostava das canções dela em 2009, mas hj eu tenho outra visão sobre ela ainda mais de admiração pela artista que ela se tornou, ainda mais pq adoro Joanne. A história da carreira dela é incrível. Amo. Artista completa. Bjooos

  9. Nunca assisti RuPaul’s, acredita? Tenho vontade, acho que deve ser muito legal. Vi que a Lady Gaga ia participar, mesmo. Que legal esse impacto que ela teve na sua vida!
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

  10. Vickawaii disse:

    A Lady Gaga é realmente uma pessoa inspiradora, é muito bonito ver a mensagem de aceitação e empoderamento que a cantora carrega. Obrigada por compartilhar sua história, eu não tenho costume de ver Rupaul’s Drag Queen Race, mas é bacana ver como esse programa é emocionante para algumas pessoas.

    Beijos, Vickawaii
    http://www.neverland.com.br

  11. Embora tenha sido um episódio meio morno, a Gaga salvou tudo.
    O Untucked foi melhor ainda!

    Enfim, essa temporada ainda tem de tudo pra ser uma das melhores.

    • Falkner disse:

      Cara, o Untucked foi lindo! Achei de uma humildade sensacional o que a Gaga fez, mostra o quanto ela se importa. Me incomodou só aquele “ataque” das drags à Jaymes Mansfield, é muita barra ser julgado desse jeito 😛

  12. É emocionante ler seu relato de quanto Gaga foi e é importante na sua vida. Na maioria das vezes os artistas não têm consciência do papel social e político que exercem. Não é o cado de Gaga. Eu também admiro muito ela. Nunca vi RuPaul’s Drag Race, mas já li vários comentário elogiando. Adorei conhecer mais do programa por meio da sua review.

    Beijos

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