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O verdadeiro sonho dos androides: Lágrimas na Chuva, de Rosa Montero

Em livro de Rosa Montero, Bruna Husky é uma androide e vai lutar contra conspirações políticas, memórias falsas e terrorismo para manter sua espécie viva.

4 anos, 3 meses e 29 dias: o que você faria se soubesse que só lhe resta esse tempo de vida? Ficaria contando os dias? Controlaria tudo o que faz, como faz e com quem, como forma de tentar aproveitar todos os momentos da melhor forma? É difícil afirmar qualquer atitude numa realidade que não é nossa. Não sabemos nosso tempo de vida, só temos uma leve perspectiva. Mas os replicantes de Lágrimas na Chuva sabem: todos morrem com 10 anos.

Bora entrar em mais um futuro distópico? Trouxe a playlist perfeita pra viagem:

Replicantes, lágrimas na chuva… Se você é fã de ficção científica, já deve ter notado a referência. São fragmentos que a escritora e jornalista hispânica Rosa Montero pegou de Philip K. Dick. Essa é a primeira ficção científica da autora e não deixa nada a desejar em comparação a outros gigantes como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke.

Mas então, sabe de onde vêm essas referências de Rosa Montero? Do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (que tem resenha aqui no Desfalk!), Rosa se inspirou na construção de mundo: os avanços tecnológicos, a poluição extrema, a colonização humana em outros planetas. E do filme Blade Runner, inspirado no livro de K. Dick, Rosa pegou os replicantes, androides criados para fazer as tarefas que oferecem risco às pessoas, e o próprio título do livro, vindo do monólogo improvisado do replicante Roy Batty, interpretado por Rutger Rauer:

Vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de ataque ardendo no cinturão de Órion. Observei raios gama brilharem na escuridão próxima ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer.

Por mais referências que Rosa tenha pego de uma figuração clássica da ficção científica, ela adapta e acaba por criar algo inédito. Mas, no lugar de homens vitimizados e mulheres vilanizadas sob o olhar do caçador de recompensas humano Rick Deckard em Ovelhas Elétricas, uma nova perspectiva surge na voz de Bruna Husky, uma replicante de combate e detetive particular.

Careca e tatuada

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Essa é Bruna Husky: careca e tatuada. Não é à toa que na capa do livro vem a imagem de um manequim. Assim como todos os replicantes (reps ou ainda tecno-humanos), ela é uma androide orgânica criada em laboratório à imagem e semelhança de humanos. A função que é designada para ela é de combate, ou seja, ela foi feita geneticamente adaptada para lutar em guerras e atuar na segurança. Sendo assim, Bruna enxerga no escuro, corre mais rápido, tem força espantosa, mira aguçada e outras características que fazem dela uma arma letal.

Acho que tanto os humanos quanto os reps somos criaturas doentes; sempre nos parece que nossa realidade é insuficiente.” – p. 48

Porém, depois da guerra entre humanos e replicantes, as funções originais dos reps foram um tanto diluídas. Agora, assim como todos os humanos, os reps têm direitos básicos e, aqueles que têm condições suficientes, conseguem viver bem, têm acesso à água e podem respirar o ar despoluído. O preconceito e o medo que humanos têm de replicantes, porém, permanece, e olhares tortos, banimentos e protestos para extermínio dos reps chegam a ser considerados normais.

Morte aos replicantes

Logo no início, Bruna sofre uma tentativa de assassinato por outra tecno-humana enlouquecida que se mata logo após o ataque. Por toda Madri dos Estados Unidos da Terra, a mesma cena se repete: replicantes sem histórico de instabilidade acabam enlouquecendo do nada e matam qualquer rep que estiver por perto. Teorias conspiratórias surgem por parte de políticos e da mídia, acusando os replicantes de tentarem reacender os conflitos de guerras passadas entre as duas espécies, humanos e reps. Se já era difícil ser androide, todos passam a ser perseguidos.

Tudo o que está acontecendo foi preparado, está sendo dirigido, tem um roteiro.” – p. 222

No Arquivo Central, entidade governamental que cataloga toda a história da Terra envolvendo tanto humanos quanto replicantes, trabalha um amigo de Bruna, Yannis Liberopoulos. Lendo os relatos históricos restritos, que dão uma base mais sólida ao leitor do panorama desse futuro, Yannis detecta manipulações da história. Datas alteradas, fatos inconsistentes e mentiras estão espalhadas nos documentos. Toda alteração criminaliza os replicantes de maneira categórica.

Bruna Husky acaba sendo contratada pra desvendar o que está acontecendo aos replicantes. Aos poucos, a androide percebe que os acontecimentos são um emaranhado intenso de manipulações para exterminar a espécie dos reps. Políticos conservadores, máfia e religiões vão, aos poucos, revelando o que a humanidade tem de mais podre: o egoísmo.

Contagem regressiva

Todo replicante só consegue viver até os 10 anos. Ao atingir o limite máximo da vida, os reps desenvolvem um tipo de câncer que deteriora todo o organismo. Várias terapias e empresas farmacêuticas tentam retardar o surgimento e a degradação pela doença, mas sem sucesso.

A única eternidade possível estava entre suas pernas. Como a maioria dos humanos e tecno-humanos, Bruna era mais ou menos bissexual: só uns poucos indivíduos eram exclusivamente hétero ou homossexuais.” – p. 92

Seus prazos de validade impedem que consigam viver de maneira confortável e desenvolver propriamente uma família. Vivendo menos, os reps aparentemente tendem a gastar mais em conforto, festas, drogas, bens materiais e bens de necessidade básica, como água e ar. Como já são criados como adultos, os reps nascem para trabalhar, consumir, produzir e servir nas profissões mais perigosas e “menos dignas” para os seres humanos.

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Bruna é uma das poucas reps que ganham realmente bem. A urgência da vida como rep reflete em Bruna como uma extrema ansiedade em fazer tudo o mais rápido possível e da maneira mais eficiente. Ela tem acesso a tudo que o dinheiro pode comprar, mas lhe falta a paz de espírito para viver bem o que lhe resta da vida. 4 anos, 3 meses e 29 dias: é isso que resta a Bruna no início do livro. Ela chega a contar seus dias restantes como um mantra para se acalmar, mas sempre cai no limbo de torturar a si mesma com a lembrança de que a morte está chegando.

Vírgula ou ponto final?

O desenvolvimento acaba travando por ser uma chuva de informações ao leitor. Não deixa de ser curioso, mas conceitos se perdem, como o do memorista (profissional que cria memórias artificiais para reps) e a filosofia labárica que relaciona tatuagens como representações do real poder da humano, rep ou alien. Ainda assim, Rosa Montero criou uma trama magnífica que abriga vários temas da ficção científica. Futurismo, androides, distopia, humanos colonizando outros planetas, vida alienígena, novas religiões e filosofias, cataclisma terrestre: tudo está presente e bem colocado.

A conclusão não é das melhores. Nas últimas 50 páginas, a pressa pra fechar todas as aspas é evidente. Foi lindo ver Rosa se aventurar na escrita imaginativa, mas os detalhes não podem ser deixados de lado, principalmente num gênero literário que pede um enredo fechado e soluções que soem críveis. O encerramento de vários dos ciclos apresentados não foram satisfatórios: esse é o problema em abrir tantas possibilidades conspiratórias.

O consolo foi ter descoberto que esse não foi o desfecho da saga de Bruna Husky. Tem mais por aí com El Peso Del Corazón, segundo livro de Rosa Montero dedicado a explorar as possibilidades futurísticas nessa realidade adaptada. Foi por muito pouco que não fechei esse livro como a melhor ficção científica policial que eu leria na vida. Discorrer sobre política, sociedade, filosofia, colonização, preconceito, luta e sobrevivência da espécie pede que o encerramento seja mais lento e encorpado. Por isso, Lágrimas na Chuva perdeu um oclinho, e ficou com 4.

Lágrimas na Chuva
Edição de 2014 da Nova Fronteira
ISBN: 9788520935989
368 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR
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