In Literatura

O Sagrado Feminino de Avalon

Quando Marion Zimmer Bradley diz que Avalon está escondida entre as névoas, é bom acreditar. Demorei um bocado (muito, até) pra entender o que, enfim, representa o livro A Senhora da Magia, o primeiro de As Brumas de Avalon, e um de muitos em que Marion, a autora, faz um mix de ficção fantástica e história.

Preparei essa playlist com um clima bem celta, pagão, medieval e obscuro pra envolver o clima que senti lendo A Senhora da Magia.

Eu digo que demorei porque realmente foi uma pequena luta. Tenho os 4 livros de As Brumas de Avalon há mais ou menos 7 anos e, por 2 vezes, em momentos diferentes, tentei começar a leitura. E simplesmente não engatava! Não fluía, não conseguia avançar por nada, nem que eu tivesse passado meses sem ler absolutamente nada e tivesse numa secura daquelas.

“Bixa, o esforço é evidente, viu?”

Já pensei que isso poderia ser por causa da temática do livro. Histórias medievais nunca fizeram muito o meu estilo, então, começar a ler Avalon me parecia um pequeno sacrifício… ainda que um sacrifício que, eu sei, valeria a pena.

Um tempo mais tarde, começou a me bater a razão pela qual eu já havia batido de frente duas vezes com a obra de Marion. Logo no começo somos bombardeados de informações e pode chegar a ser um pouco difícil separar o que é relevante para a estória e o que é somente contextualização.

Eu poderia ter essa edição…

Nessa contextualização, temos bastante crítica às religiões cristãs e uma oposição severa ao homem (o ser masculino) como centro da família, da cultura e da religião. Absorver tudo isso, como um adolescente imaturo e cativado por tanto tempo pelo catolicismo me deixou bem cético e, de certa forma, incomodado. Até que…

Na aula de Sociologia

Glória Diógenes apareceu na minha vida. Ela é professora da área de Ciências Sociais, especificamente Sociologia, no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. Em 2011, tive aulas com ela em Sociologia II e, enquanto falávamos de O Capital, de Marx, ela estabeleceu um paralelo, do qual, infelizmente, não me recordo tão bem assim.

Ela falou da posição social da mulher enquanto fator preponderante na estrutura familiar e comunitária e a maneira como isso era negligenciado no marxismo, que puxava tanto pro lado da mão de obra masculina. Entre uma referência e outra, ela citou Marion Zimmer Bradley e As Brumas de Avalon. Contou que, nessa obra, as mulheres são essenciais a todo momento, são o centro da religião e do sistema social em Avalon; se entregam como sacerdotisas a uma deusa e, dessa forma, exaltam o Sagrado Feminino.

Ou essa…

Na hora eu fiquei extremamente encantado. Não esperava de forma alguma que um livro pudesse ser tão simbólico e representativo, que fosse ao mesmo tempo tão cheio de afronta e exaltação de uma religião antiga. Fiquei em êxtase, mas preferi deixar a informação assentar direito na mente. Lembro até de pensar “Caralho, achei meu tema de TCC”, mas eu não fiquei no curso de Ciências Sociais por muito mais tempo…

Impacto e absorção

Dessa vez, comecei a ler A Senhora da Magia com bastante calma. Me senti totalmente esgotado depois de meses estudando pra concursos e, depois, partindo da leitura de Millennium 3 – A Rainha do Castelo de Ar, que tem uma narração corrida e cheia de acontecimentos. Fui, então, lendo de forma bem pausada, tentando me sentir confortável na escrita de Marion.

Nada tenho contra o Cristo, apenas contra os seus sacerdotes, que chamam a Grande Deusa de demônio e negam o seu poder no mundo. – p. 9

É mais ou menos assim que o livro começa. Um pensamento de Morgana, uma das protagonistas que também tem grande importância na lenda-base de todo o conto: a lenda do Rei Artur da Bretanha. Muito provavelmente só conhecemos aquela versão boba da Disney, cheia de músicas e embates toscos e uma Morgana demonizada.

O livro é cheio de dualidades: feminino e masculino, Deusa e Deus, religião cristã e religião “pagã”, natureza e humanidade, Rainha e Rei, filha e filho, sacerdotisa e padre. A base religiosa pra construção do enredo é extremamente forte. Ainda que não seja a Deusa a protagonista do enredo, sentimos que é na profundidade dela que a estória ganha profundidade e incorpora credibilidade.

Todos os deuses são um Deus […] e todas as deusas são uma Deusa, e há apenas um iniciador. E a cada homem a sua verdade, e Deus com ela.– p. 11

O prólogo parece funcionar praticamente como uma profecia, ditando que tem algo por acontecer (e que podemos imaginar ser lá do final do 4º livro). Ainda assim, não dá pra não ficar minimamente empolgado. Principalmente quando damos de cara com outras personagens nos capítulos iniciais.

E essa edição aqui? Nossa!

Viviane, Igraine e Morgause são três irmãs: Morgause é a mais nova, Igraine é a do meio e Viviane é a mais velha, que cuidou e amamentou Morgause após a mãe delas falecer ao parir a filha mais nova. Viviane vive na ilha de Avalon e é a Senhora do Lago, a sacerdotisa mais importante da religião antiga que serve à deusa Ceridwen, e Viviane representa essa divindade no plano físico.

Igraine foi entregue ao marido Gorlois, Duque em Tintagel, na Cornualha, e aprendeu a amar este homem durante os anos que se seguiram. Mas isso não impediu que, no começo, tivesse medo e se sentisse abandonada pela irmã Viviane, que afirmara sempre que age em nome da Deusa e que todos devem seguir o destino que essa divindade traça. E é seguindo o seu destino que Igraine tem uma filha, Morgana, criada em Tintagel como uma dama, mas que, ao crescer, vai ser sacerdotisa em Avalon.

Não permitiria que sua filha fosse criada para ter vergonha da sua condição de mulher.– p. 93

Viviane, entretanto, tem o dom da Visão e, constantemente, vê soluções para os conflitos e as guerras que ocorrem nas terras da Bretanha. Com a morte do Grande Rei, um dos reis menores deve substituí-lo, mas não é este rei que deve unificar todos os povos e acabar, de vez, com as guerras. Esse homem profético será o filho de Igraine com Uther Pendragon.

Quem procura evitar seu destino ou retardar o sofrimento apenas se condena a sofrer duplamente, em outra vida. – p. 28

Ao saber disso, Igraine se sente traída novamente pela irmã. Primeiro ela é jogada para um homem desconhecido e tem de se adaptar à religião cristã do marido e assumir o seu passado pagão como pecado. E, agora, deve cometer outro pecado e trair a confiança do esposo pra que uma profecia seja cumprida.

E até essa edição, que, inclusive, é a da Tatiana Feltrin.

Não é somente Igraine que se sente ultrajada pelo destino reservado a cada um. Morgana também se vê afetada pelo destino da própria mãe, além das tarefas que tem de cumprir como sacerdotisa da Deusa. E é exatamente nesse drama familiar que somos inseridos nesse mundo de Avalon, entre muita névoa e mistérios de como os atos de cada pessoa pode alterar o destino da Bretanha.

Viverá ela toda a sua vida como eu vivi, com um coração morto dentro do corpo?– p. 210

A lenda de Artur, Excalibur, Lancelote e os cavaleiros da Távola Redonda estão todos presentes: mas de corpo, apenas, e não de essência. Nessa fantasia mitológica da imaginação de Marion Zimmer Bradley, é perceptível o quanto a autora se empenhou num trabalho profundo e profano de pesquisa sobre essa grande religião antiga. Cada embate é bem pensado, os diálogos são extremamente ricos, nada se perde ou é esquecido: todos os detalhes confluem para o mesmo ponto.

Ao terminar essa leitura, me pergunto, mais do que nunca, que deus é esse que servimos que tem cara e corpo de homem (no sentido masculino da coisa, não da espécie). Jesus personifica o poder divino na Terra, então, por qual motivo não haveria a Deusa de ter, também a sua personificação mundana?

Todos os deuses são um só, e todas as deusas também são uma só deusa. A Grande Deusa não ficará zangada se você a chamar pelo nome de Maria, que foi boa e amou a humanidade.– p. 126

Explorando temas extremos da religião do Sagrado Feminino, a imposição do cristianismo sobre a Bretanha, preconceito e demonização das culturas pagãs, sexualidade, submissão, estigmas sociais sobre a mulher e relações abusivas com pretextos religiosos, Marion Zimmer Bradley merece uma edição foda, e não a tragédia dessa edição da Imago, de 2008.

Os problemas da edição

A diagramação feita pela editora Imago é terrível, principalmente pra quem tem astigmatismo alto, como eu – foi difícil não sentir incômodo na visão enquanto lia, mas o enredo fala mais alto. E eu tenho o costume de ler sem os óculos quando vou dormir, mas com essa edição, isso se tornou uma tarefa simplesmente impossível. E olha que eu tenho menos de 3 graus de miopia.

Percebe, Ivair, a petulância da editora?

Diagramação ruim, letras miúdas, espaçamento apertadíssimo, margens super estreitas e, pra completar: papel branco tão fino que chega a ser transparente na luz de um dia nublado. Assim não dá pra te defender, né, Imago?

A dica que eu deixo é: vamos cobrar editoras como Aleph, Rocco e Darkside para adquirirem os direitos de publicação de TODOS livros da Marion, porque, pelo jeito, só assim pra obra dela ser tratada com o devido respeito. Uma das escritoras mulheres com maior reputação na literatura fantástica não merece, de forma alguma, ter um trabalho porco desses.

No mais, a estória é espetacular. O negócio é abrir a mente e mergulhar de cabeça e aceitar que, sim, o cristianismo aniquilou a beleza das religiões antigas. O único defeito que senti foi o início bem carregado e impactante. Fora isso, A Senhora da Magia merece, sim, 4 oclinhos míopes.

Título original: The Mists of Avalon – Mistress of Magic
Publicação original: 1979
ISBN: 9788531210372
248 páginas
Skoob | Goodreads

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Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

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