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Música e Storytelling: quando sons narram mais que livros

Beyoncé, Muse, Michael Jackson e Janelle Monáe têm algo em comum. Todos usaram o mesmo recurso em suas carreiras musicais: o storytelling

Todo casal costuma ter uma música que é símbolo do relacionamento. Acho até que seja impossível contar quantos casais se reconhecem na música Eduardo e Mônica, do Legião Urbana. Pelo desenrolar da estória na música, tem algo especial que faz milhares de Eduardos e Mônicas por aí se sentirem contemplados. É o storytelling.

Sabe onde mais tem músicas com histórias? Nessa playlist aqui. Várias músicas citadas neste artigo estão nela. Bó ouvir?

Contar histórias, narrar acontecimentos, fabular, inventar, relatar. Storytelling é isso: compartilhar uma história real ou fictícia. Livros, teatro e cinema são os mais típicos de serem associados ao storytelling porque nascem pela necessidade em narrar algo. Mas outras formas de expressão também podem contar algo, como a pintura Guernica, do Picasso, que retrata o bombardeio nazi-fascista do ditador Franco à cidade de Guernica, em 1937, durante a Guerra Civil Espanhola.

Mais sobre Guernica neste artigo do portal Obvious

Músicas narradas

É fácil encontrar canções que contem histórias. Queen tem Bohemian Rhapsody, Chico Buarque (ou Maria Gadú, ou Maria Rita) tem A História de Lily Braun, Amy Winehouse tem Rehab e I Heard Love is Blind. Até Rouge conta a noite de balada do Diego, que vem virando a esquina com toda alegria, festejando e cantando Rappers Delight todo errado num inglês embromado.

Há quem prefira, por exemplo, já ter a segurança de um roteiro a ser seguido. O livro Admirável Mundo Novo, clássico de Aldous Huxley na literatura distópica, inspirou músicas como Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, que até foi trilha sonora principal da novela global O Rei do Gado. E a cantora Pitty também bebeu na fonte de Huxley ao compor Admirável Chip Novo.

A banda inglesa Muse foi outra que leu um bocado antes de chegar ao estúdio. O álbum The Resistance foi baseado no universo de 1984, livro de George Orwell que casa direitinho com as músicas de base política que Muse toca. O destaque fica pra música United States of Eurasia, uma referência direta ao livro sobre o império de Eurásia (um mix de parte da Europa e parte da Ásia). A música, inclusive, sintetiza boa parte das ideias do livro.

Ainda diria que o álbum The 2nd Law (2012), também de Muse, carrega um bocado de Eu, Robô (Isaac Asimov) e Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Philip K. Dick). Mas nem só de livros vive a música. Janelle Monáe foi buscar no cinema a referência para os trabalhos que definiram sua carreira. Conhece o filme Metropolis? Ficção científica alemã de 1927, a produção se tornou um clássico do cinema mudo como uma distopia futurística cheia de simbolismos.

Janelle Monáe estourou pro mundo com a música Tightrope, do álbum The ArchAndroid, lançado em 2010. Mas The ArchAndroid não é o início da narrativa que ela compôs. Metropolis: Suite I (The Chase) é o nome do trabalho de 2007 que iniciou a narrativa de Cindi Maywheather. Janelle é a própria Cindi, uma unidade robô que é produzida em massa no ano de 2719, mas uma das unidades se apaixona por um humano e é condenada à desmontagem. O “Suite I” do título, se refere ao capítulo 1 dessa série. O segundo álbum, The ArchAndroid, contempla os capítulos 2 e 3, e o álbum The Electric Lady (2013) traz os capítulos 4 e 5. Seu próximo álbum deve concluir a saga iniciada 10 anos atrás.

The Walking Dead?

Thriller, de Michael Jackson, foi revolucionário quanto a narrar em vídeo. O cara rompeu barreiras ao inserir música e dança num produto em vídeo e ainda sustentado por um enredo coeso. Thriller é um dos mais clássicos exemplos de como as narrativas podem ser poderosas. Uma simples música ganhou outra dimensão ao se atribuir de valores narrativos que eram restritos ao cinema.

Por vezes, o storytelling chega a ser mais ousado. Começa num livro, continua nas músicas e prossegue na internet, num filme ou em algum canto offline. Aí já vira transmedia storytelling (ou narrativa transmídia). Sabe quem faz isso muito bem? Beyoncé.

Queen B

A narrativa transmídia na música é o detalhe que eleva a simplicidade do som ao patamar de espetáculo de entretenimento. São álbuns, vídeos, documentários, shows, e todos têm a música como elemento central e definidor de todas as outras. Cada parte transforma o todo num projeto megalomaníaco ao qual alguns críticos de música e os fãs se referem como eras.

Com o álbum I Am… Sasha Fierce, Beyoncé trabalhou uma identidade que ficou presente de 2008 até 2010. O álbum físico de Sasha Fierce traz algumas ilustrações do storyboard de uma história em quadrinhos envolvendo uma super heroína. E a versão de luxo do álbum ainda tem a faixa Save the Hero (em português, “salve o herói”), que tem no refrão os versos:

Who’s there to save the hero after she saves the world?

(Tradução: Quem está lá pra salvar a heroína depois que ela salvar o mundo?)

Tudo que foi lançado na era Sasha Fierce passava a mensagem de dualidade: uma Beyoncé vulnerável, ao mesmo tempo que robótica. A cantora encarna uma super heroína nos vídeos. Tem a luva metálica de Single Ladies, pistola à laser em Video Phone, roupa metalizada em Sweet Dreams. E essa é a mesma Beyoncé que discute com o namorado em If I Were a Boy, desconfia dos próprios sentimentos em Broken-Hearted Girl, sente a autoconfiança abalada em Ave Maria.

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Nos shows da turnê I Am… World Tour (2009-2010), Beyoncé estruturou a setlist de músicas como forma de narrar a própria vida. Na apresentação, vídeos pessoais intercalam as performances, algo que se tornou frquente nos shows da artista. Os DVDs de I Am… Yours (2009), I Am… World Tour (2010) e Live at Roseland: Elements of 4 (2011) trouxeram os shows com vídeos pessoais e com a artista narrando parte da própria carreira, além de documentários de bastidores.

Tudo conversa num mesmo universo. Inclusive, os clipes de Video Phone, de Beyoncé, e Telephone, de Lady Gaga, têm muito em comum. As duas artistas participam como duas heroínas (ou assassinas, dependendo do ponto de vista). Se foi planejado ou não, me leva a crer que Video Phone e Telephone fazem parte de uma mesma narrativa. E tudo indica que essa trama começou em Paparazzi, de Lady Gaga. Se vai ter continuação? Esse é o mistério que nenhum beyhive ou little monster se arrisca a responder.

***

Se vamos atrás de todas as referências que fizeram parte dessas narrativas, vários dias vão se passar… Mas o incrível é que esses artistas e suas equipes pensaram e planejaram projetos que vão além do que esperamos. E isso não fica só no mundo Pop. Green Day, My Chemical Romance, Pink Floyd e David Bowie também entraram nessa e até ingressaram no que chamam de ópera rock. Mas isso já é conversa de outro artigo…

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