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Mulher, fantasia e inconformidade em The Kiss of Deception

Quando pensamos em cultura nerd e geek, logo nos vêm à mente artigos relacionados a Star Wars, Star Trek, Senhor dos Anéis, Marvel, videogames e a lista só cresce… Ficção científica e fantasia estão, por essência, inclusos nesse enorme aparato da indústria cultural. A questão que pouca gente ainda relaciona ao tal Dia do Orgulho Nerd ou Dia da Toalha, em 25 de maio, é a representatividade feminina, negra, religiosa e LGBTQ+ nessas produções. Por isso mesmo que vou exaltar aqui a produção de uma mulher: Mary E. Pearson, com o livro The Kiss of Deception.

Caindo de cabeça no mundo das Crônicas de Amor e Ódio, taca o play aqui:

Eu tinha tudo preparado pra postar hoje uma crítica de Abominação, do Gary Whitta, cedido com carinho pela DarkSide Books, fruto da nossa parceria. Mas tem outra coisa mais urgente: ontem, 25 de maio, foi esse Dia da Toalha no qual se consagra o Orgulho Nerd e a loja Amazon Brasil preparou uma lista quilométrica de ofertas de ficção científica, fantasia, RPG, além de promoções da editora DarkSide e da Aleph. Mas me assustou a quantidade mínima de livros escritos por mulheres ou com personagens femininas centrais.

>> Lia
>> O Assassino e o Príncipe
>> Narrativa
>> Plot Twist

Em março desse ano, participei do projeto Mulheres Para Ler idealizado pela Iara Picolo do canal Conto em Canto e vários foram os debates levantados acerca da importância em ler mais livros escritos por mulheres e/ou com personagens femininos na trama central. Isso na fantasia e na ficção científica acaba sendo mais crítico ainda, porque muito se produz (e poderia ser bem mais!), mas pouco se divulga do trabalho feminino. Afinal, Gandalf, Batman e Capitão América não conversam com o mundo inteiro, por mais que se tente afirmar o contrário.

Lia

Desde 2015 ouço falar em Mary E. Pearson. Foi com ânimo que soube da publicação do The Kiss of Deception no Brail pela DarkSide Books em março de 2016. Pela minha teimosia em querer ler em inglês, demorei séculos esperando um preço mais aceitável e nada desse valor cair (é de ouro, é?). Cansei de esperar e comprei, de muito bom grado, a edição da DarkSide, que ainda veio com um pôster com a capa do livro de um lado e, do outro lado, o mapa dos reinos.

Pensei em todos os momentos em que passara escondida quando criança, saindo sorrateiramente no meio da noite até a parte mais calma da cidadela: o telhado. Aquele era um lugar em que o ruído constante era silenciado, e eu me tornava um daqueles pontinhos calados conectados ao universo.” – p. 35-36; Lia.

Somos apresentados à Lia, ou Arabella Celestine Idris Jazelia, Primeira Filha da Casa de Morrighan. Sim, ela é princesa, mas não se sente à vontade com os privilégios que tem à sua disposição. Desde sempre, ela questiona o rei, seu pai, dos motivos de ele não sair do castelo e visitar aldeias e reinos vizinhos e ter contato com as pessoas simples. A fala afiada também fere possíveis inimigos, autoridades militares e religiosas que, por mais ameaçadoras que sejam, preocupa mais a Lia sobre o que eles podem fazer às pessoas próximas a ela.

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Na iminência de ser casada à força, num ato político em prol da paz entre os reinos de Morrighan e Dalbreck, Lia foge para Terravin, povoado a alguns dias de distância de Morrighan. Acompanhada pela melhor amiga Pauline, Lia abdica de todos seus direitos de realeza a fim de viver uma vida simples, sem luxos, executando trabalhos braçais diariamente.

O Assassino e o Príncipe

A notícia da fuga da princesa se espalhou pelos reinos e chegou ao reino de Venda, uma comunidade de bárbaros inimigos dos reinos de Morrighan e Dalbreck. Já no começo da trama, temos conhecimento de que um assassino de Venda foi chamado para matar Lia. Em nenhum momento sabemos o seu nome nem temos uma descrição de sua aparência. Apenas um detalhe fica claro: por motivos que não ficam evidentes, o assassino tem raiva de qualquer pessoa ligada à realeza.

Eu estava com raiva porque ela teve a coragem de fazer o que eu não tive coragem de fazer! Quem era essa menina que metia o nariz entre dois reinos e fazia o que desejava?” – p. 41; Príncipe

O príncipe de Dalbreck, com quem Lia se casaria, também decide ir ao encontro de Lia. A motivação dele, contudo, é uma e somente uma: a sina do menino mimado, o famigerado orgulho ferido. Em nenhum momento o príncipe consegue admitir e superar que foi abandonado pela “noiva” e quer conhecê-la justamente para saber quem é essa menina que se acha tão superior a ponto de quebrar tratados entre reinos e esnobar um casamento e uma posição de nobreza. Arrogante pouco, né? E, mais uma vez, não temos descrições físicas nem nomes são citados.

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Antes de encontrar Lia em Terravin, os capítulos com a perspectiva deles são apresentados apenas como “O Assassino” e “O Príncipe”. Depois que eles encontram Lia, eles recebem nomes e, ainda assim, não sabemos quem é quem, ou até com quem Lia corre mais perigo: com Kaden ou com Rafe? A única vontade que bate no leitor é gritar “É cilada, Lia!”, mas ela nem desconfia e trata ambos como simples comerciantes de passagem por Terravin.

Narrativa

Há alguns anos, tenho alimentado um certo pavor de narrativas em primeira pessoa. Infelizmente, é uma tendência fácil e rápida que autores têm de demonstrar a perspectiva de um personagem, mas isso não é fácil de fazer com maestria. Narrar em 1ª pessoa é um risco e pouca gente se toca disso: se o leitor não simpatiza com o personagem, adeus! A sensação é de estar preso atrás dos olhos do personagem, numa jaula cheia de espinhos nas grades.

Era uma vez, criança
Há muito, muito tempo,
Sete estrelas pendiam no céu.
Uma para chacoalhar as montanhas,
Uma para revirar os oceanos,
Uma para afogar o ar,
E quatro para testar os corações dos homens.
– p. 135; Os Últimos Testamentos de Gaudrel

Mary E. Pearson narra em 1ª pessoa com extremo domínio. Não cansa nem desequilibra, por mais que ela traga 3 ou mais personagens para serem descritos através da “perspectiva da câmera”. A delicadeza das palavras nos mostra uma beleza no olhar de cada personagem, por mais antagônicos que sejam. Lia tem seus momentos de chatice e não deixa de encorajar a curiosidade por suas decisões, e isso é muito mais importante que um cliffhanger fácil ou um deus ex machina barato (aquelas soluções que caem do céu, sabe?).

Kaden e Rafe são excepcionais. Temos raiva de ambos pelos seus trabalhos e motivações mesquinhas, mas as diferenças entre ambos quase não aparecem. Um príncipe preocupado em recuperar sua reputação e um assassino sempre a usar a desculpa de “sou um soldado, devo fazer o meu trabalho”: nada importa, porque ambos perseguem, oprimem e confundem Lia. Dona Pearson moldou bem as doses de bonzinho e vilão em cada um. No final, as nuances são tão simbólicas que ficamos nos perguntando: “como não percebi antes?

Plot twist

O momento mais aguardado desse primeiro volume de Crônicas de Amor e Ódio é justamente a revelação: quem é mocinho, quem é vilão. E não vou contar nada, não é justo que até os mais interessados na estória tenham essa quebra de expectativa. O que vale aqui é a surpresa de conferir se o seu palpite foi certeiro ou se passou longe.

A estrutura que a sra. Pearson propõe divide os acontecimentos e as revelações milimetricamente. Não dá pra sentir que existe algo fora do lugar, porque é isso: cada elemento assume o lugar que lhe cabe. Com uma mitologia fantástica suavemente medieval e, arrisco a dizer, um leve toque em distopia futurística, é o típico livro pra reler e ter uma experiência diferente justamente por saber do final.

A cada passada que ele dava, todos os meus pensamentos sobre ele se desenrolavam e formavam algo novo, como uma tapeçaria sendo virada do avesso, revelando um emaranhado de nós e feiura.” – p. 270; Lia

E o final em si não é surpreendente e isso é algo a ser apontado: estamos acostumados a séries de livros com volumes acabando em cliffhangers absurdos, baratos e até covardes, bem no estilo “episódio de The Walking Dead”, só pra pessoa continuar fisgada pela curiosidade. Pearson não fez isso e eu agradeço que ela fuja à tendência. Justo, sincero e coerente, The Kiss of Deception entrega surpresas incríveis durante todas as páginas e, com certeza, não necessita de cliffhanger arrebatador.

Eu quero mais e necessito ler o volume 2, The Heart of Betrayal, o quanto antes. 4 oclinhos e meio pela nobre honra de Lia.

As Crônicas de Amor e Ódio, volume 1:
The Kiss of Deception
Edição de 2016 da DarkSide Books
ISBN: 9788566636864
406páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

***

Se Star Trek era famoso por quebrar padrões e hoje nem passa no Teste Bechdel (a grosso modo, um teste que avalia o bom aproveitamento de personagens femininas), temos aí, sim, um sério problema de representatividade nesse nicho que eu, pelo menos, não fecharei os olhos. Nessa promoção da Amazon foi difícil achar trabalho feminino no mar de nomes masculinos, e depois de algum tempo procurando, descobri e vou enaltecer a graphic novel Monstress ilustrada pela artista Sana Takeda e roteirizada pela Marjorie Liu.

Além delas, temos aí Mary E. Pearson, Helene Whecker (já comentada aqui no Desfalk), Mary Shelley, Ursula K. Le Guin, Marie Lu, Victoria E. Schwab: elas e várias outras escrevem ficção fantástica e científica e merecem nossa atenção, pra muito além de qualquer Marvel e DC que tente se politizar porcamente no intuito de vender.

Darklove é o selo da DarkSide Books dedicado à publicação de trabalhos de mulheres.
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16 Responses to Mulher, fantasia e inconformidade em The Kiss of Deception

  1. Tua resenha tá incrível, melhor que o livro.
    Já li muitos livros de autoras femininas, com personagens femininas como protagonistas e esse foi uma grande DECEPÇÃO para mim. Por conta de tantas resenhas positivas acabei comprando 2 volumes e confesso que lutei muito para terminar o primeiro. Fiquei esperando uma história acontecer e na verdade tudo não passou de um triângulo amoroso. Clichê e muito sem graça. Não tenho a menor vontade de ler o segundo livro, e por conta dessa experiência horrível de um gênero literário que eu amo fiquei até com receito de comprar outros livros do mesmo gênero.
    Até perguntei num grupo de blogueiros literários para saber se só eu achei esse livro uma estrema porcaria, – tirando a edição maravilhosa da darkside – E realmente outras pessoas acharam um triangulo amoroso sem história.

    Talvez quem sabe num futuro distante não tento ler novamente e encontrar a fabulosidade que muitos viram nesse livro.

    • Falkner disse:

      Poxa, sério? Eu tinha um receio danado desse livro acabar me desagradando, tinha altas expectativas sobre ele. Vi um monte de críticas, tanto positivas quanto negativas, e essa questão do triângulo é sempre uma polêmica que divide opiniões. Eu fico no grupo de quem achou bem moderado, porque não teve “instalove” e a relação, de fato, acontece só com um deles e, com o outro, é uma coisa mais amistosa. Pareceu bem natural, até porque tem um pano de fundo político bem estruturado e um aspecto fantasioso que gera curiosidade. De toda forma, acredito que é a coisa do timing: se eu tivesse lido em outro momento, muito provavelmente teria detestado…

  2. Nati Rabelo disse:

    Oie
    Post redondinho e completinho pra fã nenhum dessa história botar defeito hehe.
    Legal ver um ponto de vista de um leitor masculino sobre esse livro, pois geralmente só vemos mulheres falando dele. Gostei da playlist também.
    Beijo

  3. Como a Clay mesmo disse, é demais ver personagens femininos ganhando destaque. Não vou dizer que vou colocar o livro na minha lista, porque ela já esta enorme hehe e esse genero, é um genero que ainda preciso desbravar mais =)

  4. Oie, tudo bem? Tenho visto a indicação da obra pela internet mas confesso que não sabia qual era o enredo. Pela proposta o livro parece valer a pena a leitura. É sempre importante dar destaque às mulheres seja como autoras ou sendo personagens. A figura de pessoa frágil que sempre precisa ser salva, ou que é delicada demais para lutar pelos seus sonhos, ou mesmo aquela criada apenas para ser submissa, acredito que são papéis que devem ser substituídos por mulheres fortes, que sabem o que quer e faz a história ser diferente. Gostei muito da resenha, ótima indicação. Beijos, Érika =^.^=

  5. Eu já tentei começar a leitura da trilogia mas to enrolando, acho que a autora é incrível, mas não sei, ainda falta alguma coisa para me fazer ler tudo.Gostei muito da tua resenha!

  6. Jessica Ujiie disse:

    Uau, que resenha de tirar o fôlego! Se a resenha me deixou tão vidrada, parabéns ao autor do blog, imagina o livro. Resenha instigante, mas não reveladora, são as minhas favoritas, muito feliz em conhecer esse blog. 😚
    Jeh

    http://www.descoladamente.com.br

  7. sagaliteraria disse:

    Olá, Falkner, tudo bem?
    Eu já li a trilogia e gostei bem. Acho legal que em alguns livros as personagens femininas sejam destaque. Gosto dessa pegada de fantasia, ficção, romance em um ambiente que lembra um ambiente medieval.

  8. Eu já finalizei a leitura da trilogia e posso dizer que a Lia é uma personagem fenomenal. Acho que a autora trabalha o feminino, bem como o direito que as mulheres tem de escolher seus próprios destinos, muito bem. Foi uma série que eu amei acompanhar. Principalmente o desenvolvimento da personagem principal. Gostei muito mesmo.
    Beijos
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

  9. TaryBelmont disse:

    Fiquei sabendo do livro na época em que um amigo realizava um evento literário que promoveu o lançamento, mas na época eu realmente pouco me interessei, só agora que esto vendo omo essa obra é significativa e trabalhada e o quanto vale a pena.

    Bites!

  10. cesarfrezende disse:

    Gostei que esse post foi longo, mas por bons motivos! Tenho lido muitos posts com resenhas, e geralmente são superficiais e desinteressantes, o que felizmente não é o caso aqui! Realmente fiquei interessado no livro.

    Também gostei que você evidenciou a falta de nomes femininos na ficção. São selos como esse da Darkside que podem começar aos poucos uma mudança e termos obras de origens mais diversas. Nem todos homens (você também deve ver isso por aqui) reconhece seus privilégios e chama tudo de “mimimi”.

  11. Thai Santos disse:

    Oiee!!

    Não conhecia esse livro, e gostei do seu post e do fato do livro mostrar uma personagem feminina desse jeito. Só espero que ela não seja daquelas que fa zum monte de coisa mas não tem motivação nenhuma, só ta fazendo porque a autora quis e não convenceu.

    Abraçõs

  12. Tá aí um livro que não me chama nenhuma atenção, mesmo com esse hype todo. Achei a sua discussão fundamental, porque precisamos sim dar mais valor aos escritos de mulheres e se aventurar em tantas histórias maravilhosas que estão escondidas por aí. Eu sou uma dessas pessoas que tenta colocar mais autoras na wishlist, porém, às vezes acaba sendo difícil, sabe? Meu autor preferido é um homem e minha autora preferida só publicou um livro em vida, e eu vejo que ainda tenho dificuldade em “confiar” em certas histórias. Acho que estou falando bem confuso, hahaha, mas o que quero dizer é que na maioria das vezes preferimos ler/comprar um livro de um autor já conhecido e renomado, ta aí a zona de conforto, do que conhecer autoras que precisam ser conhecidas. Ai, admito que adoro debater sobre isso, então, vou me policiar até aqui.
    Gostei muito da sua resenha e de como abordou a importância de mais personagens femininas. Acredito que isso seja de suma importância e que devemos dar mais valor a isso.

  13. Histórias medievais me animam, mas, essa pequenos pontos estão me lembrando GOT. Iso me dá um receio de se for encarar, minha cabeça ficar fazendo comparativo desnecessário..

    Curti a arte do livro e ele realmente parece ter recebido belos cuidados para sua versão final impressa.

  14. Eu tive sérios problemas com esse livro, achei bem clichê o trio romântico e tals mas meu maior problema foi a motivação de Lia pra fugir, que sinceramente ao meu ver foi o ”medo” do príncipe ser um velho. Lia tinha tudo pra ser incrível mas acho que a autora tanto tentou que criou uma personagem meio fraca e extremamente mimada. Faz um tempo que li então não lembro ao certo o nome da personagem, mas é a outra guria que trabalha na taberna, ela eu achei super foda e gostei mais dela do que de Lia.

    Blog Barda Literária

  15. Clayci disse:

    Falkner eu amei sua publicação! É muito bom ver personagens femininos ganhando o seu devido destaque. Ainda não li The Kiss of Deception , mas já está na minha listinha de desejados já faz um tempo. Engraçado que na fantasia (gênero que amo) é muito fácil encontrarmos machismo, né? Ainda tem um autor ou outro que tenta mudar a postura, mas sempre em alguma parte da história a mulher precisa ser salva, precisa ficar no castelo, precisam explicar pra ela alguma coisa e isso me irrita muito. Só que já me acostumei, afinal leio bastante fantasia.
    Na ficção eu tenho sido mais otimista porque tenho encontrado várias personagens se destacando, assim como na distopia.
    Mas PRECISAMOS DE MAIS! Quanto mais melhor..
    mais mulheres não só nas histórias, mas criando e ganhando espaço na mídia na criação das histórias.

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