In Filmes

Monstros no armário de Patrick Ness

Jornalista, escritor e, agora, roteirista de cinema, Patrick Ness vem fazendo girar a cabeça de muita gente por aí. Foi em 2008 que Patrick se lançou pro mundo literário abertamente, com a série Mundo em Caos (Chaos Walking, no original), composta pelos títulos O Motivo, A Missão e A Guerra, títulos publicados no Brasil pela editora Pandorga. Ele também publicou Mais do que isso (More than this), mas isso foi só em 2013. O que importa é o que rolou lá em 2011.

Clique e vá direto para:

>> A caminho da grande tela
>> Falando no monstro
>> E o avô de Conor?
>> O veredito

Na verdade, começou 4 anos antes, em 2007. Siobhan Dowd foi uma escritora britânica que faleceu no ano de 2007, vítima do câncer de mama. Ela concebeu personagens, premissa e o início de uma história que jamais seria finalizada por ela. A editora de Siobhan, Denise Johnstone-Burt, da Walker Books, recebeu as ideias de Siobhan e, após o falecimento da escritora, contatou Patrick Ness para finalizar a obra idealizada por Siobhan.

O resultado foi a mistura da fantasia de Patrick e do realismo de Siobhan que surgiu sob o nome de A Monster Calls no ano de 2011, publicado pela Walker Books e trazido ao Brasil pela editora Novo Conceito sob o título Sete Minutos Depois da Meia-Noite, em 2016.

A caminho da grande tela

Em março de 2014, os direitos de adaptação cinematográfica do livro foram comprados pela produtora e distribuidora Focus Features. O espanhol Juan Antonio Bayona foi chamado para dirigir o filme, ele que se destacou lá em 2007 com um dos símbolos do horror espanhol, O Orfanato. Como não poderia haver alguém mais adequado para o cargo de roteirista do que o próprio autor-colaborador do livro, Patrick Ness foi convocado para reescrever a história para a linguagem do cinema.

No elenco, temos Lewis Macdougall (Pan, 2015) como o protagonista Conor O’Malley; Felicity Jones (Rogue One, 2016) entra como Lizzie Clayton, mãe de Conor; Sigourney Weaver, eternizada nos filmes da série Aliens, brilha nas cenas como a avó de Conor; e Toby Kebbell saiu direto de Black Mirror para dar rosto ao pai de Conor. Vale lembrar que Liam Neeson, o mestre Qui-Gon no episódio 1 de Star Wars, também faz parte do elenco, mas voltaremos a este ponto depois.

Falando no monstro

Conor é uma criança como muitos de nós fomos. Quieto, tímido, calado, sorrateiro. Criado na base da obediência aos mais velhos. Filho de pais jovens e separados. Conor tem todos os motivos para fugir de sua realidade. Ele desenha, pinta, cria e exercita a imaginação se questionando que mundos existem depois da janela do seu quarto.

A mãe de Conor, Lizzie, enfrenta uma doença terminal que, ao longo do enredo, percebemos com clareza que se trata de câncer. Após uma série de tratamentos, Lizzie fica em casa sob alguns cuidados do próprio filho, de quem admira a força e a resiliência em permanecer tão responsável em uma família quebrada.

Mrs. Clayton, mãe de Lizzie e avó de Conor, aparece de vez em quando pra ver como andam as coisas. O desejo que ela exprime em afastar Conor de sua filha é motivado na preocupação que ela tem em deixar o neto exposto à iminência da perda da mãe. Mas Conor, inocente, contradiz as evidências da realidade e toma sua avó por uma mulher egoísta, que não pensa no bem estar de Lizzie.

Na escola, todos olham para Conor de maneira triste. Todos sabem o que ele enfrenta em casa e nem os professores se atrevem a ser rígido com ele. É aí que percebemos a maneira como Conor vive o mundo: disperso e imaginativo, preso num ambiente à parte da razão. E todos percebem como ele se fecha, mas ninguém tem a coragem de quebrar esta barreira. Por isso mesmo é que Conor sofre bullying e é constantemente perseguido e espancado. O incompreendido, mais uma vez, se torna vítima dos incapazes de compreender a dor alheia.

É perdido no mundo fantástico que Conor começa a ter pesadelos envolvendo sua mãe. E, num disparate impossível de denominar como sonho ou realidade, Conor também começa a receber visitas de um monstro: uma árvore, à vista de sua janela, desprende suas raízes e cria rosto, braços, pernas e voz. O monstro diz que, a cada visita exatamente sete minutos depois da meia-noite, irá revelar a Conor 3 histórias, contanto que, ao final da terceira, Conor conte a ele a sua verdadeira história.

Os contos são pequenas lições de como a natureza humana é imprevisível. Um homem honrado nem sempre carregará a máscara da honestidade, e a mulher de estranha fama poderá ser confundida como vilã, quando na verdade se trata de vítima. A fé humana com o divino pode ser passada ao lado pela fé no desconhecido, quando há uma troca de valor rentável. A criança invisível, que só queria ser vista, irá ultrapassar qualquer limite para ser, enfim, notada.

A história de Conor para o monstro também revela a singularidade da natureza humana. Às vezes, temos tanta compaixão pelo outro que, pelo bem alheio, nos negamos e nos tornamos uma incógnita. Mas a incógnita é plenamente capaz de ver e sentir quando o simples ato de viver já machuca. Desejar o fim de alguém é um ato misericordioso ou seria o egoísmo enraivecido por anos de angústia acumulada? Só podemos saber que é normal. Que é humano.

E o avô de Conor?

Mr. Clayton, pai de Lizzie e avô de Conor, aparece em algumas cenas da película, ainda que mal percebamos. Ele está em fotografias nas estantes, nos álbuns fotográficos. A memória de sua presença continua ali, mesmo tantos anos depois de ter partido. Afinal, não deixamos pra trás quem amamos.

Contudo, se formos observar nas miudezas dos detalhes, nas fotos temos o ator Liam Neeson abraçando quem supomos ser Lizzie e também a Mrs Clayton. Seria bem capaz, então, de a gente assumir que Liam veio interpretar Mr Clayton, o avô de Conor.

Mas Neeson emprestou sua voz ao monstro, a árvore que fica no cemitério. A mesma árvore desenhada pela mãe de Conor. Alguém pode chutar um palpite do que isso pode significar? Eu nem arrisco, é Black Mirror demais… (Não foi uma percepção só minha. Inclusive, eu percebi isso bem depois de ter assistido ao filme. Depois de divulgar incansavelmente aos amigos, alguns poucos me retornaram com esse comentário, e daí partiu minha pesquisa pelos fóruns do Reddit. Fico me perguntando: como é no livro??)

O veredito

Sete Minutos Depois da Meia Noite é um filme extremamente delicado. As emoções estão todas à flor da pele na obra de Patrick, Bayona e Siobhan. São cenas de nostalgia sofrida, com muitas lembranças de perdas, agressões, acessos de fúria e angústia. Mas se torna impossível desgrudar os olhos da forma como as sensações negativas são tratadas: cheias de beleza, arestas afiadas e um alívio no peito.

A Monster Calls leva o meu primeiro 10. Todos os oclinhos a Patrick Ness.

 

COMENTE AQUI!

, , , ,

Comente aqui!