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Monstress: magia e guerra na terra de mulheres [resenha]

Monstress é uma HQ steampunk repleta de elementos fantásticos. Guerra, escravidão e vingança ganham outra dimensão na autoria de mulheres.

Como seria a Segunda Guerra Mundial liderada por mulheres? Será que a guerra sequer teria acontecido? Seria mais sangrenta e curta ou mais longa e menos devastadora? Toda a história da humanidade está repleta de homens liderando grandes batalhas. Mas em Monstress Volume 1: Awakening, graphic novel vencedora do Hugo Awards com roteiro de Marjorie Liu e ilustrações de Sana Takeda, tudo isso se inverte: são as mulheres que estão à frente de tudo.

Quantos livros você conhece que trazem o protagonismo feminino em guerras? No campo da não-ficção, o livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (que tem resenha aqui), Svetlana Aleksiévitch mostra a Segunda Guerra Mundial pela visão de mulheres soviéticas que participaram ativamente nas batalhas. Enfermeiras, padeiras, lavadeiras, mas também francoatiradoras, tanquistas e estrategistas contam como se sentiram na zona de confronto. Já na literatura fantástica, As Brumas de Avalon, Harry Potter e As Crônicas de Amor e Ódio trazem algumas outras facetas da figura feminina em momentos de combate.

Monstress, entretanto, não se prende a romantizar a força da mulher nem se apega a abrir caminho para o personagem masculino conquistar a vitória. A naturalidade como tudo ocorre mostra a real dimensão e a importância fundamental que o protagonismo feminino pode alcançar na literatura fantástica (ainda mais com foco em guerras).

Quem é quem no jogo do bicho

Antes de qualquer coisa, bora se situar nesse mundo, né?! Estamos numa realidade alternativa em torno de 1900 num lugar ali meio Europa e meio Ásia. A sociedade é matriarcal por essência: mulheres são quem detêm riquezas, propriedades, estão em posições de poder nos círculos sociais e no exército (e dá pra presumir que na política também). São as mulheres que lideram e elas também que lutam e morrem. Quase não existem homens, só uns poucos: o velho que perde no leilão, o soldado que é um dos primeiros a morrer e uns 2 com alguma relevância no enredo. Nessa realidade existem 5 grandes raças: gatos, humanos, anciões, arcanos e deuses antigos.

1. gatos:

A raça mais antiga é também a mais sábia. Entre os capítulos, o professor Tam Tam dá aula a uns filhotinhos sobre história e relação entre as raças (e nos ajuda a entender melhor o enredo, que não é lá tão didático).

2. humanos:

A segunda raça a surgir. Alguns humanos têm poderes e esses são os cumaea, que são como bruxas, mas estão mais pra alquimistas, já que trazem muito de ciência nas “magias” que fazem.

3. anciões (ancients, no original):

Raça imortal antropomórfica, ou seja, tem corpo de animais selvagens, mas agem e andam sobre 2 patas, como os humanos.

4. arcanos (arcanics):

Aparentemente, surgiram do cruzamento entre humanos e anciões e são exatamente o mix dos dois: metade humanos, metade anciões. Alguns aparentam mais a fisionomia humana e escondem certos poderes. Outros já têm a aparência anciã, mas nem por isso deixam de transparecer a fragilidade da emoção humana.

5. deuses antigos (old gods):

A maior incógnita de todas. Ninguém sabe quando surgiu ou qual o propósito deles. São criaturas de poder inimaginável e que tomaram chá de sumiço do mapa. São tão poderosas que, mesmo desaparecendo, ilusões físicas dessa raça continuam caminhando pela Terra.

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A Guerra de Mikeila MeiaLoba

Cumaea e arcanos entraram em conflito numa guerra que dizimou a cidade de Constantine. Desde então, humanos vivem separados das colônias de arcanos e anciões, divididos por um muro que percorre quilômetros do continente. Humanos cumaea começaram a escravizar arcanos para os mais diversos fins: serviço doméstico e diversão estão entre eles. Mas nada supera a mais cruel finalidade dessa escravidão. Cumaea torturam adultos e crianças, dissecam seus corpos e fazem estudos com reagentes que enfraquecem a espécie dos arcanos. Tudo com a finalidade de criar armas e dizimar de vez a espécie rival.

Leia também:

Maika Halfwolf é a protagonista de Monstress: o nome parece de drag mas ela se trata de uma anti-heroína impulsiva, egoísta e determinada a avançar sobre qualquer obstáculo. A mãe de Maika foi sacrificada por humanos cumaea. Escravizada, torturada e vendida como um trapo, Maika tem 17 anos e já passou fome, frio e outros maus bocados nas mãos de humanos. Mas ela é dona de uma força que ficou adormecida durante anos dentro dela. Contudo, Maika ainda vai precisar de muito treino até conseguir controlar o poder que tem e, por fim, vingar sua mãe e sua espécie.

O projeto de Marjorie Liu e Sana Takeda é de cair o queixo. Nunca li algo dessa dimensão e profundidade em quadrinhos, tanto pela estória quanto pelas ilustrações que fazem uma cosquinha gostosa na alma. A relevância dessa HQ vai bem além do entretenimento. São 2 mulheres criando uma estória cheia de simbolismos e referências, extremamente inteligente e envolvente, que ressalta a importância da liberdade feminina em trabalhar com o que motiva e apaixona, em agir com a mais forte convicção, em ter referências de mulheres fortes pra crescer.

Por que ler?

Tem vários anos que deixei de ler quadrinhos e mangás. Hoje eu percebo que os quadrinhos que eu lia nunca traziam mulheres. 99% dos personagens eram homens e, se havia alguma mulher, era a moça em perigo ou era uma participação especial de 2 páginas, tipo Mulher-Gato em Batman e Mulher Maravilha na Liga da Justiça.

Em Monstress, homens não fazem falta. Não existe explicação pra ausência masculina (embora minha mente condicionada no patriarcalismo me fez ir atrás de uma explicação, tipo: os homens foram exterminados na guerra de Constantine). Por que isso? Mulheres são parte da nossa sociedade. Por que homens fazem falta na hora de naturalizar um enredo, mas mulheres não?

O primeiro volume de Monstress venceu o Hugo Awards de 2017 na categoria Melhor história gráfica e dá pra entender o motivo disso! Monstress só tem 2 volumes lançados e ainda não tem edição no Brasil. Mas já deixei a dica pra DarkSide Books, porque seria o início ideal pra linha de graphic novel do selo DarkLove. Poxa, DarkSide, vê se me nota e traz essa HQ pra gente!

Monstress foi a primeira HQ que li a entrar pra lista das obras favoritas da vida! E foi só o volume 1, imagina o resto?! 5 oclinhos merecidos pra Monstress.

Monstress Volume 1: Awakening
Edição de 2016 da Image
ISBN: 9781632157096
192 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR
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5 Responses to Monstress: magia e guerra na terra de mulheres [resenha]

  1. Cesar Rezende disse:

    “Maika Halfwolf é a protagonista de Monstress: o nome parece de drag”

    Que bom que não fui só eu quem pensou essa!

    Eu tenho preguiça de HQ’s porque sou L E R D O. Não consigo entender o que está acontecendo. Só forcei a barra para ler o mangá de Saint Seiya Next Dimension e Lost Canvas, porque gosto muito, mas até que essa história tá bem original, então acho que eu arriscaria ler.

    Mas não vou mentir, queria muito ver essa adaptada logo para animação!

  2. TaryBelmont disse:

    Adorei o plot dessa hq, é algo realmente diferente de tudo já apresentado até hoje e imagino que logo logo alguma editora irá querer os direitos para tê-la, talvez até já esteja rolando. Quado lançar aqui, com toda certeza irei querer.

    Bites!

  3. Yuri S disse:

    Caraca, que história sensacional! Apaixonei de cara lendo a review! Já vou colocar na minha lista do Skoob pra ler e eu espero que a Darkside lance aqui no Brasil, acho que vou pedir também, viu ahahaha
    Eu amo ver protagonismo feminino e meus personagens favoritos são mulheres fortes <3

    http://www.sextadimensao.com/

  4. meioassimetrica disse:

    Primeiro de tudo, necessito dessa HQ…. Oii, tudo bem? Adorei a resenha, depois que li parei para pensar um pouco e percebi que nunca tinha lido nada no qual a sociedade fosse matriarcal e as mulheres tivessem mais destaques. Vai ser uma coisa bem diferente para mim e só pela resenha já sei que irei gostar muuito. Tinha dado um tempo nas HQ’s e nos Mangás, tá na hora de voltar, né não? (rsrs)

  5. Vickawaii disse:

    Achei bacana a proposta da graphic novel e, pelas fotos da postagem, gostei bastante da arte. Acho que o mais válido de tudo é a reflexão que traz. Na vida real, óbvio que são os homens que vão mais para os campos de batalha e tal, mas o problema dessa “obviedade” é que o papel das mulheres é quase invisível, o que não é verdade. Gostei de ver uma história de ficção trazendo uma sociedade matriarcal

    Beijos, Vickawaii
    http://www.neverland.com.br

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