In Reflexões

Memória, realidade e ficção LGBTQ+

Era 1890 quando Oscar Wilde iniciou a primeira publicação de O Retrato de Dorian Gray. Mensalmente, a revista estadunidense Lippincott’s Monthly Magazine circulava com uma parte da novela de Wilde, exatamente como os romances de folhetins publicados em jornais e revistas no Brasil, que lançaram José de Alencar e Machado de Assis ao mundo. Porém, ao contrário de José de Alencar e Machado, Oscar Wilde foi censurado pelos editores da Lippincott’s, que cortaram palavras e frases as quais, segundo eles, eram indecentes.

J. M. Stoddart foi o editor da Lippincott’s responsável pela edição e publicação da novela escrita por Wilde. Entre os elementos excluídos do material, estavam alusões à homossexualidade e ao desejo homossexual. Vale lembrar que fim do século 19 e início do 20 era um momento bastante intenso de transformações sociais, políticas e econômicas. E, ainda assim, Dorian Gray foi recebido pela crítica britânica como um atentado aos bons costumes da comunidade e, segundo eles, Wilde merecia ser acusado legalmente por isso.

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Defender sua criação era apenas o que Wilde podia fazer. Uma edição revisada e ampliada de Dorian Gray foi, então, lançada em 1891, que compreende a versão mais popular do romance atualmente. Nessa edição, Wilde escreveu um prefácio no qual respondia às críticas e comentava sob qual perspectiva a estória poderia ser lida, argumentando acerca do papel do artista e do objetivo da arte na comunidade.

1895, entretanto, foi um ano derradeiro para Wilde. Após ser acusado de cometer atos imorais com outros homens, acabou sendo preso e ficou em reclusão por 2 anos, Nesse período, escreveu De Profundis, uma carta-resposta ao suposto amante de Wilde cujo pai teria colaborado para sua prisão. A carta ficou sob domínio de Robert Ross, jornalista e amigo de Wilde, que doou o material original da carta ao Brittish Museum em 1909, sob a condição de que tornassem o material público apenas em 50 anos.

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Mais de 100 anos depois, pessoas LGBTQ+ ainda são vitimadas pelo preconceito, pelo atentado aos “bons costumes”, pela impossibilidade em expressar o que sente e externar o que está preso dentro de si. Muitos tentam. Alguns falham, outros apanham, vários morrem. Mas também não são poucos os que conseguem.

LGBTQ+ na literatura

Já colocou os óculos de leitura????

Eu sempre tive muita dificuldade em me sentir representado por personagens e por situações na literatura. Geralmente, o bullying como circunstância geral é bem comum de encontrar, mas e o bullying homofóbico? Há uns anos não era fácil encontrar livros que falassem desse tema. Hoje, temos uma gama de livros mais voltados aos LGBTQs.

Aliás, bem mais voltados à sigla G, referente aos gays, que é a parcela com mais produções literárias de ficção que conheço. Simon vs A Agenda Homo Sapiens, de Becky Albertalli, é um desses livros que discorre exatamente sobre o bullying homofóbico, além de homossexualidade na adolescência e respeito do timing alheio pra “sair do armário”.

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Outro livro jovem-adulto que envolve a temática LGBTQ+ é Carry On – Ascenção e queda de Simon Snow, de Rainbow Rowell. Como já comentei no post A fantástica inspiração de Rainbow Rowell, essa estória inclui um personagem homossexual e um personagem bissexual, com um relacionamento homossexual. Com várias referências a Harry Potter, esse romance de Rainbow Rowell fez o que J. K. Rowling não teve coragem de fazer: abordou sexualidade numa literatura de fantasia para jovens.

George, de Alex Gino, é bem mais juvenil que os anteriores. Divulgado por aqui como “o primeiro livro juvenil com personagem trans no Brasil”, George aborda a vida de Melissa, uma criança trans conhecida por todos como George. E esse é um assunto que frequentemente ganha repercussão pelas redes sociais: transgeneridade na infância, uma temática que necessita ser mais conversada nas escolas e nas famílias.

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Por sinal, Alex Gino se considera genderqueer, termo que engloba várias identidades fora do padrão binário de masculino e feminino. (Por favor, se eu estiver cometendo algum erro de denominação, manda um comentário aqui e eu corrijo, ok?) E, falando em escritores LGBTQs, temos ainda o João W. Nery, o primeiro transgênero masculino no Brasil a realizar procedimentos cirúrgicos na transição entre gêneros. Com relatos autobiográficos, João Nery escreveu Erro de pessoa: Joana ou João e também Viagem Solitária: Memórias de um transexual trinta anos depois, que eu já comentei aqui neste post.

Ficção e realidade

Voltando um pouquinho pra Dorian Gray, ele também é personagem no seriado Penny Dreadful e, ao que fica claro para o público, tem uma sexualidade aberta: tem relações afetivas e sexuais com homens, mulheres e pessoas trans. Tudo se passa na Inglaterra do século 19 e, dessa forma, podemos sentir todo o peso do preconceito da sociedade sobre Angelique, mulher transgênero amante de Dorian interpretada por Jonny Beauchamp.

A intenção da série parece ser mostrar o limiar da sociedade que não aceita ter alguém como Angelique inseridos no seu “grupo” de homens ou de mulheres. Por isso, Angelique recebe olhares tortos de ambos os gêneros, é desprezada e marginalizada à força pelos padrões sociais, por mais que tente exibir um fenótipo feminino. Se envolver com Dorian, então, se torna um perigo para ela, porque ela passa a ter mais visibilidade no meio social e sofre as consequências dessa exposição.

Angelique me lembra bastante Dandara dos Santos. Espancada, torturada e morta na cidade de Fortaleza em fevereiro de 2017. Transfobia não é lenda ou conto de ficção, minha gente. Essa é a mais dura realidade que assusta pessoas trans e espalham o medo e a insegurança de manifestar ao mundo a personalidade interior.

O vídeo acima é uma declaração do ator cearense Silvero Pereira sobre o violento extermínio de Dandara. A indignação é palpável, porque aqui em Fortaleza, Ceará, estamos submetidos a políticas passageiras e traiçoeiras em defesa de todas as pessoas inclusas na sigla LGBTQ+. Temos um André Costa, secretário de Segurança e Defesa Social do Ceará, que instiga a vingança como resposta à violência, e um Roberto Cláudio, prefeito, e um Camilo Santana, governador, que ignoram o papel da educação sobre assuntos LGBTQ+, o papel da preparação de todos os funcionários públicos para atender pessoas LGBTQ+ e o papel da inclusão social, política e trabalhística das pessoas LGBTQ+.

Representatividade no horário nobre

Mas (respirando fundo), falando em Silvero, esse ator do Coletivo As Travestidas que levou BR-TRANS pra passear pelos teatros do Brasil todo e que transformou essa peça em livro, também ganhou cena em horário nobre na TV. A convite de Glória Perez, Silvero está em destaque na novela A Força do Querer como Nonato, um motorista com uma forte veia artística e que se traveste para personificar Elis Miranda.

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Também nessa novela, a atriz cisgênero Carol Duarte interpreta Ivana, uma personagem cheia de cenas delicadas e detalhistas, com bastante intensidade nos olhares da atriz, dando pequenos indícios do desconforto de Ivana ao ser influenciada e coagida a assumir o fenótipo feminino. Desde a divulgação da novela, Ivana é apresentada como sendo uma pessoa trans e, aos poucos, a narrativa vai seguindo para a descoberta da sua identidade de gênero (lembrar que identidade de gênero é diferente de orientação sexual, tá bem?)

Ainda que, há alguns anos, a Globo fizesse tanta chacota com os ex-BBBs Dicésar e Serginho, essa postura parece estar mudando na ficção. Na ficção pelo menos, porque já não tenho tanta certeza disso no núcleo jornalístico, como já comentei por aqui no post Jornalista padrãozinho, o dia não é só teu.

***

A luta pela liberdade de expressão e pelos direitos vai mais longe que o Oscar Wilde. Há séculos somos assassinados, queimados, esquartejados. Há eras que somos taxados de abominações, de aberrações e de anormalidades. E nada disso mudou. Mudaram, talvez, as formas de opressão, mas em nada mudaram as maneiras de compreensão. E não adianta dizer que é palavra divina: deus nenhum, de religião alguma, vai exaltar preconceitos de forma otimista. E, se a realidade não educa nem através do fato histórico, que pelo menos a ficção tente cumprir esse dever.

Eu termino esse artigo com o peito lotado de emoções. Se passei 4 horas escrevendo esse texto, não foi por acaso. Nós, LGBTQs, não nos escondemos na sombra da nuvem de medo. Dentro de nós temos alegria e tristeza, vamos da euforia à depressão, caminhamos do limbo ao topo, entre as cores e os tons de cinza. Nem sempre temos força, mas temos um abraço que conforta, um grupo que nos acolhe e a luz que canta: nós sobrevivemos, nós existimos, nós vivemos.

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