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Memória de uma Fortaleza soterrada [diário de leitura #1]

Diário de Leitura de Rachel de Queiroz e Buchi Emecheta: seus livros despertam lembranças de uma Fortaleza que periga a cair no esquecimento do povo.

Nos últimos dias venho lendo As Três Marias, da Rachel de Queiroz, livro que foi quase um presente da TAG Experiências Literárias em novembro. Na verdade, caiu mais como uma gratificação de um Falkner que já tava sentindo o peso e a complicação de 2017. A literatura sempre me bota no Norte que eu preciso e, dessa vez, não foi diferente.

Bota o play, é pra ouvir sim! Artistas cearenses e africanos, misturinha boa que só.

Num ano em que tanto li produção estrangeira, faz bem terminar o ciclo com alguém que fale com tanta propriedade sobre uma cidade tímida nas beiradas do Brasil. Fortaleza cresceu tanto de 10 anos pra cá que mal reconheço os lugares e os costumes. Acaba sendo bonito até demais ver a conterrânea Rachel falar com gosto pela terra natal.

De uma Fortaleza de bondes, conventos e escolas normais. Das Marias descobrindo o poder do blush, das pernas à mostra, da amizade que dura e da distância que cura. Do tempo de uma Aldeota longe pra cacete, de uma fé nos papéis com pedidos e simpatias embaixo dos pés de santas. Afinal, todo o encanto da gente simples, mas cabreira, fuleragem e espilicute.

Foi nessa Fortaleza que cresceram meus avós, e é dessa Fortaleza que me contaram quando eu era criança. E foi lendo esse diário de uma Fortaleza soterrada que quase me afoguei numa memória que veio de ruma. Mas não foi duma vez só. Muito eu já vinha sentindo depois de ler As Alegrias da Maternidade, da nigeriana Buchi Emecheta. O resultado marcou mais que chuva na manhã de domingo com feriado na segunda no meio do calor de novembro.

História de vó

Eu tinha uns 5 anos ou até menos que isso… No calor de Fortaleza, ou liga-se o ventilador no 3 ou arma-se a rede na varanda pra aproveitar a brisa boa. Minha avó me embalava onde fosse fazendo uns carinhos no meu rosto até eu pegar no sono. Se eu teimava em ficar acordado, ela contava uma história. A contação sempre se repetia, com mudança de detalhes até atingir o que parecia a perfeição. Era uma estória sobre gratidão.

Um menino órfão de pai e mãe morava com os avós. O avô ainda era obrigado a trabalhar como podia, mesmo cheio de dor nos ossos, e a avó cuidava da casa. Eram pobres, tão pobres que, tal dia, a avó disse ao menino:

“Não vamos conseguir pagar sua farda, sua merenda nem seu caderno do colégio. Mas não fique triste, meu netinho vai sempre ter o mingau que tanto gosta.”

Vindos de família grande, a situação daquela gente chegou aos ouvidos de parentes distantes. Um casal bem chique chegou de carro na casinha humilde pelas bandas do Jacarecanga de Fortaleza e conversou com os avós em particular. O menino tentava ouvir, mas só soube depois pela boca da vó:

“Meu menino, tu vai morar com nossos parentes que são de bem longe. Mas não esquece da tua avó nem do teu avô. A gente te ama e não vai se esquecer de ti. Se tiver saudade, pode chegar, que vai sempre ter o mingau que meu neto tanto gosta.”

O menino foi e anos decorreram desde a despedida. O tempo, generoso com a criança, castigou os velhinhos. O avô, quase cego, não podia trabalhar. A avó tinha arranjado uma máquina de costura pra poder sustentar a casa. Mas o menino voltou. Estudou, cresceu, fez faculdade e voltou pra, enfim, poder dizer aos avós:

“Pode deixar que, agora, sou eu quem prepara aquele mingau que vocês tanto gostam.”

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Mulher que faz memória

Esse foi um tempo em que eu dormia e sonhava que, num belo dia, seria minha vez de retribuir, de ser grato à criação que tive. Porque, de fato, não é fácil dar cria, educar e alimentar gente que, talvez, possa não aprender a ser grata. As Alegrias da Maternidade me lembrou que eu tenho essas memórias e que é necessário manter a coisa viva e ser grato por quem me passou tudo isso.

Pego como exemplo as mulheres que sempre vi na vizinhança e até na família. Mulheres que trabalhavam de manhã, voltavam pra casa, faziam almoço para os filhos que chegam do colégio. De tarde, arranjavam outro turno de trabalho. Ou ainda estudavam, entrando pela noite pra conseguir completar o Ensino Fundamental e Médio. Fora que, em casa, ainda tinham marido pra adular.

Tudo isso na perspectiva de, um dia, poderem sossegar e se entregar aos cuidados das crias que botou no mundo. Talvez até, quem sabe, deitar numa rede e acalentar-se na voz de um filho que voltou só pra contar uma história e, enfim, ser grato pela vida que lhe foi dada.

Seria ótimo se a gente conseguisse ter mais desses insights de memória. Pra ver se a gente aprende a ter mais consciência do passado. Pra notar que a gente não precisa viver apontando o dedo pra cidade que cresce, se expande, incorpora, se transforma e fica cinza, cheia do concreto. Que, às vezes, a memória se basta de viver na mente. E no museu, que não se basta pra Fortaleza.

Lembrete

Duvido que alguém tenha o atrevimento de esquecer da Fortaleza que existiu há umas décadas. Do Jacarecanga que se vestia de bairro nobre, da gente que vivia pelos bancos da Praça do Liceu. Das Festas Juninas que fechavam as ruas pra ver as quadrilhas “dos grandes” e “dos pequenos” dançar até o chão arder. Do varejão que sempre gritou e chamou pra dançar um forró, tomar uma casquinha de sorvete e comprar uma canga nova.

É da nossa responsabilidade perpetuar os relatos da Rachel de Queiroz, por exemplo, instigando a galera nova a conhecer. Mas do jeitinho certo, chamando gente nova pra falar e debater: tanto blogueiro e youtuber em Fortaleza, pra quê diabos fazer uma Bienal do Livro do Ceará convidando só a galera batida pra conversar só com jornalista, professor, estudante e gente rica?

E tá no nosso controle estabelecer os limites do esquecer e do lembrar. E também do ser grato, uma das maiores lições da Buchi Emecheta. É chegar nos mais velhos (com olho aberto, orelha em pé, mão no queixo, bunda na cadeira) e perguntar como era a vida antes.

Como era quando a Leste Oeste cheia de casinhas e de mar bem afastado? Como era fazer uma viagem pra casa dos parentes de Caucaia, Maranguape e Aquiraz? Por fim, tem que partir da gente a vontade pra chegar nos mais novos e contar da vida dessa gente simples, mas cabreira, fuleragem e espilicute. Igual minha vó fez. Porque só esquece mesmo é quem não faz questão de lembrar.

***

Sei nem se posso mesmo chamar isso aqui de “diário de leitura”. Quando a gente tá lendo, vem tanta coisa na mente que não dá pra conter o fluxo de pensamento. Comigo, pelo menos, é sempre assim: leio um assunto ou uma fala de alguém e pronto, começo a viajar. E foi essa sensação que tentei trazer pra cá. Aquele devaneio que dá, sabe?

Doido, eu?

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