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Me Chame Pelo Seu Nome e eu te chamo pelo meu [crítica]

Me Chame Pelo Seu Nome é um dos retratos mais puros do cinema sobre viver o amor da forma mais intensa. Apesar dos erros, o encanto permanece.

Amar é sentimento que se anula sob qualquer possibilidade de preconceito. Quem ama de verdade, não despreza o que não conhece. Só aprende o que é o amor quem vive seus sentimentos, indiferente do que o mundo dita como regra. Me Chame Pelo Seu Nome é, antes de tudo, uma história sobre o amor na sua forma mais crua e intensa de existir. Ninguém sabe dizer ao certo quando o amor acontece. Para Elio, surge na base da surpresa. Mas antes de entrar nisso, é preciso contexto:

Uma família no norte da Itália nos anos 1980. Lá mora Elio (interpretado por Timothée Chalamet), um jovem de 17 anos todo culto que adora ler e tem um conhecimento apurado pra música, inclusive toca piano e violão, lê e escreve partituras. Todo ano, o pai de Elio, que é arqueólogo e professor, recebe um estagiário / trainee para trabalhar nas pesquisas. No ano em que se passa a história, é Oliver (Armie Hammer) o visitante da vez: um americano nos seus 24 anos de idade (de acordo com o livro do qual foi adaptado).

Ah, a trilha sonora tá uma belezinha, bem variada. Vale a pena o play:

Pra escrever essa review, não li nenhuma outra crítica, só conversei com amigos. Nem todos são LGBTQs, nem todos viveram o tipo de amor que o filme passa. Então, ficou difícil organizar os pensamentos sobre tudo que esse filme transmite. A história principal é linda e é capaz de emocionar qualquer pessoa sensível à mais pura forma de amor, despida de tarjas e preconceitos. Mas tem problemas, graves até, que são essenciais pra conversar sobre as camadas que essa história traz. Ainda assim, é um marco e, como todo marco, não vai agradar todo mundo.

E sim, TEM SPOILER. E sem rodeios, sem papas na língua, com possíveis palavrões.

Quase fantasia

A ambientação é totalmente proposital. Interior, muito campo, pouca gente, quase nada de vida social. E isso diz muito sobre o foco da história: a direção e o roteiro querem que você enfatize só o que é visto. Afinal, pra quê imaginar o que tá além das câmeras? De que serve mostrar a reação das pessoas ao ver um casal LGBTQ? É pra isso que serve a ambientação num lugar isolado, quase sem gente: pra que o público esqueça que existem problemas reais que todo casal LGBTQ enfrenta. Pelo menos os não-privilegiados.

Por isso que digo pra amigos que me perguntam o que achei do filme: parece fantasia. Porque de real, só tem o sentimento. E basta pra história, claro! Mas não tem dimensões palpáveis de realidade. Não tem gente pra apontar dedo, não tem quem fique olhando torto, não existe uma única referência a preconceito nessa história… A não ser a que parte dos próprios personagens.

A única preocupação em relação a preconceito que Oliver e Elio demonstram em “serem descobertos” parece despropositada, sem nexo e até absurda, porque todo mundo ali é extremamente de boas. Todo mundo feliz, sem olhos arregalados, sem cochichos. E não adianta dizer “Ah, mas é um casal como outro qualquer, é pra ser natural como outro qualquer.” Isso é papo heteronormativo de quem vive no meio de privilégios e é tratado de maneira justa e digna. A realidade da maioria não é assim. LGBTQs não são tratados a par de igualdade como qualquer pessoa heterossexual. Então, pra quê fingir?

E olha: tudo bem que é Itália, é Europa, galerinha pra frente, mas continua sendo anos 1980. E pode fazer sentido em alguns locais da Europa, mas é uma produção comercial de distribuição internacional: a mensagem muitas vezes não é compreendida no contexto da criação.

Assim como pega mal um moço de 17 anos com carinha de 15 transando com um homem com aparência de 20 anos mais velho. Não existe romantização quando o assunto beira a pedofilia. Se não era pra dar margem de passar a mensagem errada, que houvesse uma caracterização de personagens mais solidária com o público e mais responsável socialmente.

Se 17 já é “maioridade” na Itália, que isso fosse expresso. Ninguém é obrigado a saber de contexto não dito. A mensagem final sempre pode dar margem a interpretações que não foram intenção do roteiro. Mas elas existem. Oliver até comenta que sente ter molestado Elio quando ele tocou o rapaz na cena do vôlei. Será mesmo que ninguém pensou em como as idades poderiam ser problemáticas? Ou pedofilia é assunto passado e só serve pra debater quando se trata de Lolita?

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Tem mulher nesse filme?

A representatividade feminina me incomodou demais em Me Chame Pelo Seu Nome. Existem mulheres e elas estão presentes a todo momento: a mãe do Elio, Marzia (a peguete do Elio), Mafalda (a empregada ou governanta da casa). Mas… quem são essas mulheres?

Começa pelo fato de todas essas personagens circularem apenas ao redor de Elio, como se elas não existissem por si. Será que essas mulheres são tão vazias que até as câmeras desprezam a forma como elas reagem a determinadas situações? Será que vale tanto assim abordar a vida de dois homens em detrimento das mulheres que foram tão importantes na construção deles como pessoas?

Anella, mãe de Élio (Amira Casar), é até bem presente. Mas senti uma desconexão absurda entre ela e Elio, principalmente por ser tão evidente que ela se preocupa com o filho. Ela, a todo momento, está de olho no Elio e no Oliver, ela sabe o que se passa entre os dois. Mas não existe diálogo relevante sobre isso, a não ser os que valem pro Elio tomar alguma decisão. Às vezes, ela chega a ser apática com Elio, o que é bem contrastante com a mulher que queria ser tão envolvida na construção de caráter do filho.

Marzia (Esther Garrel), coitada, comeu o pão que o diabo amassou. No início, foi absurdamente mal apresentada: ela tá na casa do Elio e parece que os dois são irmãos. Elio até comenta algo sobre a chegada do Oliver, dizendo “Ele parece bem confiante”, e Marzia dá um olhar tipo “Aham, confiança grande e grossa você quer dizer né?” Ali parecia que os dois eram bastante amigos, bem próximos, sem conotação sexual. Até assustei com o primeiro beijo dos dois, pensei logo “Eita, eles são irmãos e tão se pegando?”

Sem contar que a pobre da Marzia foi totalmente ludibriada por Elio. Um cara que se mostra tão sensível, tão culto, poderia ao menos demonstrar um pouco mais de simpatia do que simplesmente usar de Marzia pra acabar com o tesão doido que ele sente. O que seria tranquilo se também fosse a intenção dela. Mas claramente não era o caso… Se era pra mostrar mulher sendo usada só pra sexo, era melhor nem ter criado essa personagem. E o que falar da mulher que o Oliver tava pegando? Aparentemente, nem nome ela tem.

E a parte que a gente chora?

À parte desses problemas, eu me emocionei pra caralho. No começo, falei que se tratava de um marco, e ele é. Me Chame Pelo Seu Nome é o primeiro filme que vi retratar um romance homossexual com a maior honestidade possível. O foco, é claro, se trata apenas dos aspectos românticos de conhecer alguém, se encantar, se relacionar, construir um amor e guardar isso pela vida. Com a diferença que são dois homens. E dois homens bissexuais birromânticos, diga-se de passagem (birromântico, homorromântico e heterorromântico são termos usados pra dizer com qual ou quais gêneros a pessoa se relaciona romanticamente.)

A história não apresenta um problema a ser solucionado e, talvez, tenha sido essa falta de tensão que fez algumas pessoas (que não viram os problemas que apontei) não gostarem do filme. A falta de um ponto de partida e uma recompensa final, misturados com a calma e a tranquilidade da narração, torna o desenvolvimento lento. Nem por isso chega a ser cansativo. Só é cansativo a quem não tá empenhado suficiente em ver uma história sobre esse casal.

No mais, considero esse um filme dentro das fórmulas pra agradar vários públicos. Não é filme só pra LGBTQ, porque não aborda os problemas que 95% dos casais dessa parcela da população passam. E também não é filme romântico só pra casal heterossexual ver de mãos dadas. Acaba sendo um pouco de ambos, e vai seguindo na intenção de provocar uma reação íntima sobre o que é o amor e como as pessoas sentem o amor.

Sendo bem básico: é um filme que aborda o amor entre pessoas. E amor é sentimento, não depende de gêneros e orientações. A produção toda se apega na emoção pelos detalhes: a forma como o casal se conhece, as barreiras que o orgulho causa, os desentendimentos, a aspereza dos primeiros contatos, a fluidez dos beijos que se seguem, a maneira como o adeus é dito. E esse é o elemento que faz chorar: a familiaridade. Só se emociona e só reage ao que o filme mostra quem já viveu um pouco dessa história.

Posso até ir mais fundo nisso. Não é um simples filme de amor entre pessoas. Se trata da história de um casal com prazo de validade. A rapidez como Elio e Oliver se conectam é prova disso. Eles ansiam pela presença um do outro a todo momento. Eles querem estar por perto, querem aproveitar tudo que têm direito. Porque existe um limite pra aquilo. Logo logo, Oliver volta pros Estados Unidos e Elio pra rotina comum dele. E tudo não vai passar de lembrança, saudade e marcas.

E é esse o maior sinal de urgência do filme: viver os amores na sua intensidade sem medo de joguinhos e mediocridades. Sem essa regra de pegar e não se apegar. Se entregar não é um dom, todos passam pelas dúvidas e pelo medo de se machucar, assim como Marzia falou pro Elio. É necessário algum esforço pra se permitir viver um pouco de intensidade emocional. E, por fim, ter responsabilidade afetiva: ter honestidade consigo e com o outro, permitindo que todos possam ter sua parcela de memória daquele momento. Afinal, ninguém precisa sair de vilão de relação alguma.

Dica do coração

Veja só. No cinema ou em casa, veja na sua santa solidão, sem ninguém por perto que vá desfazer sua conexão com a tela. Você não precisa de cochichos do seu lado. Você não precisa segurar o choro pra passar a impressão de que tá tudo bem. Você nem precisa escorar a cabeça no ombro de fulano nenhum.

Permita-se ver Me Chame Pelo Seu Nome sentindo tudo do começo ao fim, ouvindo a trilha sonora, tentando captar a beleza dos cenários e a sinceridade das emoções. Você não vai se arrepender disso. É experiência que vale e, se você se permitir, pode provocar alguma mudança bem lá dentro do teu peito. 

Me Chame Pelo Seu Nome
Título original: Call Me By Your Name
Adaptado do livro de André Aciman
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory
Gênero: Drama / Romance
Duração: 2h12min (132min)
Nota Filmow – 4.2
Nota Rotten Tomatoes – 96%

PS: aquelas moscas tinham algum significado louco que eu não peguei?

PS.2: demorei 10 dias pra concluir esse review.

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