In Jornalismo

Jornalista padrãozinho, o dia não é só teu

Sou formado em Jornalismo. O que isso quer dizer? Que carrego um “graduado em Jornalismo” no currículo. Quer dizer que sou jornalista. Diz o bastante sobre uma área que decidi me dedicar a estudar, aprender as técnicas e usar de maneira saudável e sustentável. Mas não diz nada sobre a pessoa que eu sou.

Ser jornalista não é sinônimo para agir de determinada maneira. Vou citar um exemplo: nas novelas e filmes, todo jornalista é inconveniente, enxerido, chato, um pé no saco desgraçado e intrometido. Essa é a essência da profissão, certo? ERRADO. Já pode ter sido, mas tudo mudou: o mercado é diferente, as empresas são diferentes e o profissional também é diferente… ainda que a maioria insista em seguir um determinado padrão de comportamento.

Digo isso porque já ouvi demais de várias pessoas diferentes: “Nossa, você faz Jornalismo? Nem parece, tão calado.” Ou então “Mas você é tão tímido, não deveria estar fazendo outra coisa?” Ou ainda “Você não deveria nem estar aqui, querido, vai pra Psicologia ou pra Literatura que é lugar de introspecção”. Eu ouvi isso e tenho certeza absoluta de que não fui o único: nem na minha área, tampouco em qualquer outra.

Importante pro Jornalismo é entender os fatos e transmitir a informação, é saber comunicar a públicos diferentes, é entender como esses públicos vão receber a informação dita daquela forma. Talvez, mais importante que tudo isso, seja a capacidade de ouvir. Porque eu fui educado assim: a gente tem 2 ouvidos e uma boca, então a gente ouve mais e fala menos. Se o jornalista não sabe ouvir, como que tem a audácia de querer falar direito? Isso que é importante. Essa é a essência do Jornalismo e de outras tantas áreas da Comunicação.

Não sou o tipo de pessoa que fala alto pra chamar atenção e tenta preencher uma sala inteira com a própria personalidade. Isso nem compreende meu perfil profissional. Sou quieto, ouço mais do que abro a boca, sou atencioso e detalhista. Planejamento e estratégias são minhas máximas, e eu sei muito bem usar isso ao meu favor dentro do Jornalismo, porque esse campo profissional não compreende apenas uma forma de atividade.

“Absolutamente, carai”

Somos todos pessoas tão diferentes entre si e, dos poucos interesses que nos unem, somos obrigados a agir de jeitinhos específicos. E a quem eu vou agradar com isso, meu chefe? Pior: um CNPJ? Precisamos mesmo nos sentir acuados e indefesos e termos nossa personalidade arrancada pra impregnar em si uma autoridade profissional? Que ótimo lugar pra se trabalhar, show, massa! Mas dá licença, não é o que eu quero.

Pra começar, não é fácil o tanto de sapo que jornalista tem que engolir se necessita ganhar dinheiro. Tem assédio em sala de aula e no trabalho. Tem a má remuneração. Tem as empresas que teimam em não seguir o piso salarial e ainda exigem pós-graduação, experiência mínima de 20 anos… Além disso, tem a humilhação entre os colegas porque “escolheu” trabalhar pra grande mídia. Tem também deboche dos outros colegas se for trabalhar em ONG, pelo suposto pouco trabalho de meio período. E mais deboche ainda se surgir a oportunidade pra integrar a equipe de assessores de um político. Boleto? Quem precisa pagar conta, né?

“Tá, kirida.”

Mas é isso, Jornalismo não é o País das Maravilhas. Está cheio de problemas, e é desde o comecinho da formação desses profissionais. Começamos a faculdade engolindo que Fulana e Beltrano são nomes importantes da Comunicação local. O endeusamento de profissionais antigos reflete na matriz curricular das graduações: disciplinas clássicas e retrógradas que jamais irão acompanhar a velocidade da transformação do mercado. Como estagiários, acabamos entrando num mercado de trabalho extremamente saturado e competimos, de igual para igual, com profissionais de 15 anos de carteira assinada.

No Jornalismo, temos que lidar com o machismo descarado e, ainda assim, surrupiado pra debaixo do tapete como se fossem caracteres excedentes numa notícia de página interna. Mas é bonito, né? Afinal, no Jornalismo, não pode ser gay e dar pinta. Menos ainda pode se sentir à vontade pra falar do namorado sem sentir vergonha e medo de ser mais acuado pelos “colegas” de trabalho. Porque gay afeminado só serve se for pra escrever e não aparecer, ou tem que ser tão afeminado a nível de ser tratado nos corredores da empresa como piada e limitado editorialmente a falar só de moda.

ACORDA PRA REALIDADE. AMORE.

No Jornalismo, se você é mulher, rola a tensão com uns e outros homens mais velho e mais importante na empresa, porque alguns até querem se aproveitar afetivamente… OK, vamos ser sinceros: se aproveitar de você sexualmente. Você também não pode ser mulher gorda baixinha e querer ser repórter de TV.  Você não pode engravidar e cumprir o seu direito de afastamento sem perder o seu espaço editorial. Você não pode ser lésbica, assumir uma estética masculinizada e querer apresentar telejornal. Negra? Tudo bem, mas tem que ser magra, feminina e vaidosa. Mas o Jornalismo é bonito, né? É romântico.

Diálogo: algo que é essencial no exercício do Jornalismo, também é um direito privado somente a quem detém o poder organizacional. É nesse Jornalismo que temos um medo profundo em não falar verdades. Se temos um questionamento sobre a companhia ou os chefes, ele fica engasgado. Se existe um problema com o editor, chefe de redação, com o chefe do marketing: engole que dói menos. É pelo medo de sermos demitidos que ficamos só na boquinha de siri: caladinhos. E o medo é perpetuado no mercado:

“Tá ruim? Se você não quer fazer, tem uma fila lá fora que prefere estar no seu lugar. Basta dizer o que você prefere: trabalhar nas piores condições possíveis ou ser fonte na matéria de amanhã sobre o índice nacional de desemprego.”

Nesse Jornalismo, bonito que só, estagiário de redação tem que trabalhar feito corno espancado: não tem diferença com o empregado que ganha o triplo e trabalha só um pouquinho a mais. Estagiário de Jornalismo tem que ter experiência de berço: estágio pra aprender só se for de graça. Só sai do trabalho se terminar a matéria, e não escapa do plantão no fim de semana. Mas é bonito, é normal, é da profissão, né? Chegar atrasado em aula por causa de estágio acadêmico é normal. Faltar aula pra repor horas de trabalho é bem normal. Trabalhar tanto quanto um profissional contratado e sem ganhar a mais por isso é super normal e tá tudo bem, ninguém vai questionar. Nem seu professor.

Às vezes, fazemos tanta questão de sermos aceitos que pendemos pro lado dessas “exigências”. Eu pendi e me perdi, não valeu a pena vestir uma máscara que simplesmente não sou eu. Jornalismo e Comunicação são áreas amplas de atuação e eu não vou agir da maneira como querem, porque eu já sei onde me encaixo. Depois de tantos séculos de evolução e tantas décadas de profissionalização, ainda tem criatura que chega pra dizer como a gente deve ser e agir…

De jornalista padrãozinho, eu nem quero saber. Mas pra quem resiste, pra quem não baixa a cabeça, pra quem abraça a novidade sem esquecer do antigo, pra quem experimenta as diversas nuances que o Jornalismo oferece, pra quem não se contenta com o que professor diz, pra quem questiona pauta tendenciosa, pra quem mobiliza na categoria alheia e também mobiliza no próprio campo, pra quem não corrompe os princípios pessoais em prol da empresa, pra quem tem força e fé de que, sim!, podemos transformar essa área falida: essa mensagem é pra você.

“Todos amam um rebelde, Harry.”

Somos diversos. Somos plurais.

Não devemos ser padronizados. Não somos máquinas. Não somos gado.

Somos vozes. E cada voz grita, num único som de vários timbres:

Feliz dia pra quem é verdadeiramente jornalista.

7 de abril – Dia do Jornalista

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