In Literatura

J.K. Rowling, Renata Ventura e a magia brasileira

Eu poderia chegar aqui e acabar falando só de uma grande autora. Mas, pra ser sincero (e honesto), J.K. Rowling não é só isso. Se essa mulher soube juntar tantas referências, imaginar uma saga inteira, desenvolver tramas, criar lugares com identidades bem particulares e gerir personagens tão memoráveis, é porque ela é, sim, bem mais que só uma grande autora.

Nesse artigo, comento os seguintes tópicos:

>> Magia no morro
>> Cotidiano e culturas indígena e africana
>> Mulheres escritoras são importantes

Não quero ser prepotente e botar Dona Rowling num pedestal e ignorar alguns problemas que as obras dela têm. Tendo lido Harry Potter desde criança, muitos detalhes passaram despercebidos, tanto nos livros quanto nos filmes, mas a autora tem o seu grande mérito em incluir um nome feminino nas listas de livros mais vendidos de todo o mundo. E ainda mais sendo fantasia, um gênero tão exclusivista de nomes masculinos (pelo menos pra época de lançamento de Harry Potter, com o retorno de O Senhor dos Anéis).

Minha suspeita é que Joanne pode até não ter dado início à literatura contemporânea de fantasia escrita por mulheres, mas há que se admitir sua importância na popularização desse nicho e na influência que ela teve na carreira de escritoras iniciantes. Ponderações à parte, a gente pode conversar aqui sobre uma escritora contemporânea que foi diretamente e assumidamente influenciada por Joanne Rowling. E ela é brasileira, viu?

Magia no morro

Essa mulher escreveu a história de um menino negro que mora na favela Santa Marta (ou Dona Marta) no Rio de Janeiro. Hugo Escarlate é o nome dele… Ou, pelo menos, o que ele escolheu pra si. Em meio aos problemas sociais envolvendo tráfico de drogas e truculência policial, e os percalços familiares, pai ausente, avó enferma, mãe distante – existe magia no Rio de Janeiro. Paisagens familiares do cotidiano carioca, como os Arcos da Lapa e o Cristo Redentor, ganham um olhar mais atento na escrita dessa autora. No mundo dela, o Corcovado não é só mais uma das curvas nas vistas da cidade, porque, debaixo do Cristo, está uma das 5 escolas de magia brasileiras.

Renata Ventura é o nome dela e A Arma Escarlate, a sua obra. Uma mulher pequenininha, simpática, dona de um sorriso que chama “Vem ler meu livro!” Conheci Renata na Bienal do Livro do Ceará em 2014, no estande da editora Novo Século. A Arma Escarlate tava lá entre os livros de destaque, junto de A Comissão Chapeleira, a continuação da saga de magia de Hugo Escarlate. Conversei um pouco com ela sobre a história e, mesmo já tendo conhecido a premissa do livro desde que lançou, é muito bonito ver um autor falando da sua própria criação. E foi assim que investi nesse livro (e ainda ganhei autógrafo!)

Renata é jornalista. Estudou na Universidade de Houston, nos Estados Unidos, e na PUC-Rio. “100% Off – O Manual do Colonizado” é o nome da dissertação de Renata que comenta a colonização cultural do brasileiro, um tema que é bastante predominante na obra dela.

A autora não mediu esforços pra incluir a cultura brasileira dentro de alguns parâmetros já estabelecidos por J.K. Rowling em Harry Potter. Assim como J.K. teve o seu momento de clique pra desenvolver o mundo mágico, Renata também o teve. Quando um potterhead norte-americano perguntou a Rowling se ela escreveria sobre uma escola de magia estadunidense, ela respondeu que não, mas que ele ficasse à vontade pra escrever a sua. E, dessa forma, Renata se sentiu super autorizada a desenvolver o seu próprio mundinho mágico.

Renata Ventura e as suas duas crias.

Cotidiano e culturas indígena e africana

A Arma Escarlate não é uma história bonita e fofa, com um final feliz aguardando a cada final do ciclo escolar. A vivência com o crime é angustiante, ainda mais pela forma como Renata se apropria da máxima “o homem é fruto do meio” pra justificar as atitudes do protagonista. Vez por outra, dá pra perceber ainda a quebra essa perspectiva, demandando que o leitor entenda que são nossas escolhas que nos fazem quem somos – um pouco muito Dumbledore, não?!

Nunca senti a imensidão brasileira com tanta força numa obra de ficção. Sabemos muito bem que temos ascendência indígena e africana internalizadas no cotidiano. Europeísmos, no Brasil, não fazem sentido, assim como não fizeram nem quando a Família Real lusitana chegou ao clima tupiniquim: por qual motivo, então, Renata Ventura haveria de desenhar essa história de outra forma?

Aqui nessa entrevista, Renata fala da inspiração, dos personagens e das mensagens que ela quer passar como escritora:

Hugo Escarlate tem 13 anos e é o nosso protagonista. Mas a todo momento ele soa como o grande anti-herói, e um dos mais marcantes que já tive o prazer (ou desprazer) de conhecer. Ele não é simpático, não emite carisma, não sabe se expressar e se deixa dominar pelo orgulho.

Pra começar, Hugo nem é o seu nome verdadeiro. Idá Aláàfin é o seu nome, e ele falta à escola quando o convém, julga que sabe de tudo, que tem noção de como todas as coisas funcionam. Renata Ventura não deixa margens pra gente ter alguma empatia por Idá (ou Hugo), mas é exatamente o que acontece. Quanto mais do seu passado sabemos, mais entendemos que esse menino de 13 anos tem muita angústia, muita raiva e muita mágoa guardadas dentro de si.

Imagem do primeiro capítulo de A Arma Escarlate.

Quando Idá descobre que é um bruxo, é um pombo que vai entregar o seu recado. O mundo bruxo fica escondido em meio ao centro histórico da cidade do Rio de Janeiro e, como turista apaixonado por esse lugar, não tem como não ficar com os olhos brilhando! Temos nosso próprio Beco Diagonal, nossas próprias escolas em cada região do país focadas em um tipo específico de magia, e temos os feitiços…

Feitiços em latim? Isso não funciona por aqui. O jeitinho brasileiro tá mais pra feitiços em variantes do tupi e do iorubá. Inclusive, indianismos e africanidades estão presentes com tanta força n’A Arma Escarlate que é de cair o queixo a quantidade de detalhes aos quais somos apresentados. Porque não, eu não conhecia uma infinidade de termos ali usados, e isso só tornou a leitura mais instigante.

Referências ao folclore brasileiro estão espalhadas pela obra, da mesma forma que elementos religiosos se apresentam ao leitor. E garanto a você: não são apenas elementos cristãos, mas as religiões africanas também tem a sua parcela de protagonismo.

A Arma Escarlate é um livro denso. Mas a densidade é de temáticas, e não da forma como Renata escolheu expressar sua mensagem. A escola de magia, Notre Dame do Korkovado, sofre tanto quanto qualquer escola pública no nosso país. Falta verba, professores são mal pagos ou são muito negligentes com a educação dos alunos, e alguns até assumem responsabilidades mais abrangentes que apenas a do ensino, assumindo características de pais também.

Rejeição, abandono, preconceito, corrupção. Idá, ou Hugo, me deixou encantado. Ele pode nunca despertar simpatia de alguém, mas, em certos momentos, dá pra se entender o motivo disso. Renata tem seu mérito e não deve nada à J.K. Rowling, porque essa magia brasileira é totalmente familiar.

Em 2012, Renata gravou esse vídeo falando um pouco do seu livro. Confere aqui:

 

***

Mulheres escritoras são importantes

Nesse 8 de março, Dia Internacional da Mulher, eu queria poder conhecer o trabalho de um monte de mulheres talentosas e inteligentes com seus trabalhos ricos e promissores, assim como pude conhecer os trabalhos de Joanne Rowling e de Renata Ventura. O mercado editorial, infelizmente, não vai sempre ofertar nomes femininos sem que haja demanda. É aquela velha lei, né? E não dá pra culpar só a inconsistência do mercado.

A gente, como leitor e consumidor, tem que levantar e procurar mais mulheres escritoras. Vamos recomendar mais autoras às amigas e aos amigos. Vamos atrás de mais pesquisadoras na hora de fazer um trabalho acadêmico. Vamos conhecer mais repórteres mulheres e seus livros-reportagem, pra que a gente não tenha que esperar outra mulher ganhar um Nobel pra, só então, conhecermos uma voz feminina que chegou a assumir a importância de falar por tantas outras.

Joanne Rowling e Renata Ventura são só algumas das milhares de escritoras talentosas espalhadas pelo mundo.

Particularmente, eu tive a sorte de ingressar no mundo da literatura através da J.K. Rowling e, só hoje, eu consigo entender como isso foi importante, transformador e libertador, tanto pra mim quanto pra inúmeras artistas pelo mundo. Foi, sim, através dela que conheci o trabalho de outras mulheres, como o da Renata. E de todas, carrego um pouco de cada: das histórias, dos personagens, das tramas, das lições.

A gente nunca é o mesmo depois de ler um livro. Eu sei que eu não sou, nunca. No fundo do meu coração, eu desejo e creio que o mundo não será o mesmo depois que a gente começar a ler mais mulheres, conhecer mais trabalhos delas, valorizar o conhecimento de cada uma e, por fim, aprender mais através das palavras de mulheres.

 

***

Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

Compartilhe:

, , , , ,

Deixe uma resposta