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It: A coisa que nos deixa de cabelo em pé [crítica]

“It: A Coisa” cativa o público pela nostalgia da estética e da cultura dos anos 1980. Mais que o palhaço assustador, It narra a perda da inocência.

Não vi trailer algum do remake de It: A Coisa. Também não tinha assistido ao telefilme de 1990. E menos ainda li o livro base disso tudo na autoria do Stephen King. Mas se teve algo que despertou meu encanto por esse projeto e esse mundo, foi a nostalgia na qual o It de 2017 se vestiu. E não precisava nem de palhaço sobrenatural pra isso.

Uma brevíssima sinopse – Georgie Denbrough é um menino que desapareceu num bueiro na cidade de Derry e ninguém jamais encontrou seu corpo. No verão de 1989, Will, o irmão de Georgie, junta seu grupo de amigos, o Clube dos Otários, pra vasculhar o esgoto à procura do corpo do menino. Mas existe uma entidade vigiando o passo deles: a Coisa, um ser que se alimenta do medo das vítimas ao se transformar no maior temor delas.

Chuva de referências

Stephen King e Steven Spielberg foram alguns dos grandes responsáveis por estabelecer e concretizar que amigos são mais fortes quando estão juntos. Foi de King que surgiu o clássico Conta Comigo, filme de 1986 repetido quase mensalmente na Sessão da Tarde que foi inspirado no conto O Outono da Inocência – O Corpo, presente na coletânea As Quatro Estações.

O círculo de amizade também se repete em outros livros do Stephen King, como O Apanhador de Sonhos e o próprio It. Em todos eles, amigos se unem por características que possuem em comum, passam por uma saga ou viagem misteriosa, entram em conflito entre si, mas conseguem alcançar seus objetivos e ultrapassar qualquer barreira. Basta que estejam juntos.

Essa premissa da importância da amizade também é base dos filmes E.T. – O Extraterrestre (1982) e Os Goonies (1985), que tiveram Spielberg envolvido na produção. Os amigos desses filmes compartilham um segredo ou uma aventura sobrenatural. E sabe por que isso soa tão familiar? Porque voltou à tona em Stranger Things, aquela série da Netflix cheia de referências às produções clássicas dos anos 1980 e 1990.

Stranger Things bebeu de todas essas fontes. Por isso, ao ver It, a sensação é de estar vendo a continuação da série da Netflix com uma galera diferente. Mas é essencial entender uma coisa: It, o livro de Stephen King, é base pra isso tudo, mas o filme de 2017 se beneficia de todas as produções já feitas com a premissa oitentista com foco em amizade e mistério sobrenatural. E, óbvio, Stranger Things entra nesse panorama de referências. Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things, não está no elenco de It à toa. É uma óbvia tentativa de chamar atenção dos fãs da série para o filme. Mas nem por isso é igual.

Melhor elenco mirim

A atuação de Finn como Richie é fenomenal e extremamente diferente do Mike de ST. O que é parecido é a química que todo o elenco tem entre si nas duas produções. Em It, a interação entre o elenco, as expressões e os sentimentos transmitidos por esses atores mirins dá um pau danado nas atuações de séries consagradas e que perderam a essência da boa atuação, como a magnânima Game of Thrones em sua sétima temporada.

O destaque do elenco fica pra Sophia Lillis, que interpreta Beverly, a crush de vários (ou todos) os boyzinhos do filme. Sophia assumiu a maior responsabilidade e o grande peso desse enredo. Ela mostrou que medos vestem outras roupas quando a inocência se perde. O maior medo dela não habita na pele de monstros, é bem mais um terrorismo psicológico que ela vive diariamente. Não é por acaso que ela incorpora a própria coragem no Clube dos Otários.

Infelizmente, a seriedade que a trama de Beverly transmite se perde ao introduzir Will e Mike. Will perdeu o irmão, mas o enredo exclui a reação dos pais a essa morte. Somente o pai de Will é introduzido. Depois de um ano após a morte de George, como o pai não consegue ser mais compreensivo com Will em luto? Não existe credibilidade do pai estressado pelo filho triste e depressivo. E a mãe de Will não é nem introduzida. É como se essa família não tivesse perdido uma criança de forma trágica.

 

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Em relação a Mike, o longa-metragem ignora um assunto importante e de merecida seriedade: o racismo. O telefilme de 1990 mostra Mike, um menino afroamericano, sendo espancado pelo grupo de bullies da trama e é chamado de “nigger” (um adjetivo pejorativo pra se referir a negros na cultura americana). A escolha do roteiro de It: A Coisa foi deixar isso de lado. Mas com qual motivo? Um discurso importantíssimo foi passado corretivo branco: uma manifestação política foi silenciada, e isso não é nada bonito de se ver.

Enquanto Mike tem a menor participação da trama, Richie tem cenas demais como alívio cômico. Os palavrões, as sacadas escrotinhas, as expressões de duplo sentido ajudam a tornar o enredo mais orgânico e espontâneo. O que é positivo, claro. Mas é um recurso usado com tanta frequência que pensei: “Isso é um terror, por que eu tô rindo tanto?” É uma quebra de expectativa interessante e serve pra tornar Richie a pessoa caricata que ele é. Mesmo que comece a irritar da metade pro fim…

Cadê a cidade?

Nas obras do Stephen King, sempre chama atenção a relação do mistério com a cidade onde se passa a trama. Em It, existe uma certa ligação entre o Pennywise e a cidade de Derry. A primeira parte do filme demonstra um pouco disso, mas deixa a desejar. Pennywise está presente em várias ocasiões trágicas da cidade. Mesmo assim, a investigação não é aprofundada, fica ali, só boiando na superfície.

O telefilme de 1990 já vai um pouco mais fundo nessa explicação. Mas creio que seja algo reservado pra ser incluso na segunda parte da estória. Por que a cidade não sofre com a perda das crianças? Qual o motivo de as pessoas verem coisas ruins acontecendo e simplesmente ignorarem? Por que ninguém investiga o paradeiro de Pennywise? São questões que eu espero ver resolvidas no segundo filme que só estreia em 2019.

Oclinhos 3D

O filme tem 2h  e 15min de duração: um tempo longo até demais pra um filme de terror. Mas It não é terror ou horror puro. Apesar de ter sido apresentado como uma experiência assustadora e bizarra, essa é uma aventura de mistério sobrenatural. Por isso, tudo acaba casando muito bem: a contextualização histórica, o alívio cômico e o crescimento dos heróis.

A falta de abordagem de racismo no núcleo de Mike ainda me dói. É uma falha tosca e um ponto a menos no contexto das produções de hoje. Ainda assim, existe grande importância no enredo de Beverly, que devemos exaltar mais que qualquer palhaço macabro. Afinal, nem Pennywise vive só de medo. 4 oclinhos pra It: A Coisa.

Nota Rotten Tomatoes: 85%
Nota Filmow: 4.1
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6 Responses to It: A coisa que nos deixa de cabelo em pé [crítica]

  1. Jéssica Melo disse:

    Olá, eu também não tinha lido o livro e nem assistido o filme de 1990 quando fui assistir esse, ele conseguiu me conquistar pelo belo enredo e a forma como ele foi construído trazendo essa nostalgia *-*

  2. Roberta disse:

    Oi, Falkner. Tudo bem?
    Eu não assisti It: a coisa e, por mais curiosa que eu tenha ficado – nem pretendo assistir. Sou uma medrosa de carteirinha e o último filme “do estilo” que assisti foi A Órfã (de 2009), porque fui obrigada por amigos hehe
    Porém, lendo sua crítica, percebo que eu também teria ficado chateada com a falta de abordagem sobre o racismo…
    Abraços.

  3. Oie
    eu também acho muito legal essa coisa o king tem de mostrar a importância das amizades. Eu adorei sua critica e também adorei o filme apesar de ter gostado mais do antigo, vale muito a pena ver e não vejo a hora da continuação

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

  4. OI Falkner,
    Ainda não tive a oportunidade de ver nenhuma das duas versões do filme e nem de ler os livros. Gostei muito da sua resenha detalhadíssima e não vejo a hora de assistir e tirar minhas próprias conclusões. Adorei as referências e comparações à Stranger Things e fiquei chateadíssima com essa questão de não abordarem o racismo, que já foi abordado na outra versão. Errou feio, Errou rude!
    Beijos
    Blog Relicário de Papel

  5. Eu estava super entusiasmada para ver este filme, eu gostei mas acho que tinha as expectativas demasiado altas e estava à espera de melhor!

    Novo post: http://abpmartinsdreamwithme.blogspot.pt/2017/09/a-busca-pelas-calcas-perfeitas.html

    Beijinhos ♥

  6. Morgana Brunner disse:

    Nos deixa é louca de medo menino ahahahaha todos os filmes que assisti de King senti-me louca, com os livros também. Ele tem um dom de nos deixar com medo de coisas simples, coisas fora da realidade que não poderiamos saber se existe e se existe se iria nos fazer mal, It eu ainda não assisti, mas estou a pensar se assisto o antigo primeiro e depois o novo, morrerei duas vezes do coração ahahaha
    Beijinhos

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