In Séries

Insecure – temporada 1 / episódio 1 [review]

Pra alguns de nós, é realmente difícil se manter firme e consciente do próprio sucesso. Nossa mente tá tão abarrotada de pensamentos agressivos sobre inúmeros assuntos que se concentrar pra manter a postura é um esforço que demanda muita imposição emocional. Não tem a mínima importância de onde você esteja, pode estar bem certo de que, na hora que menos precisar, ela vai surgir: a secretária de Monstros S.A. – Dona Insegurança.

Vamos aos tópicos do dia:

>> Insegura pra caralho
>> Oi, sumido, rs
>> Miga, bora beber
>> Insegura e certeira

Sabe quando você tá no colégio, ou até na faculdade mesmo, e chega aquela nova professora ou professor que tem uma cara medonha de compulsividade intelectual? As aulas fluem muito bem, porque ela ou ele são descaradamente inteligentes. Até que chega o momento decisivo da disciplina em que você deve apresentar um trabalho na frente dessa nova forma física de Atenas. Isso aconteceu tanto comigo que perdi as contas da frequência (muito provavelmente, 2 vezes ao ano… no mínimo).

Pra entrar no clima do que vem a seguir, taca o play aqui:

Insecure é um seriado da HBO que estreou em 2016 e está caminhando para a sua segunda temporada. À parte da confiança construída de forma longa e gradativa de Hannah Horvath, em Girls, todo esse paradigma se quebra. Não somos rochas: nunca fomos, nunca seremos. Humanos estão mais pra cubinhos de gelo que se derretem ao menor contato com calor e endurecem depois de sofrer um bocadinho com as condições ideais de temperatura e pressão. É a confiança constantemente sendo abalada por motivações diferentes.

Insegura pra caralho

Issa Dee é a nossa protagonista de Insecure, interpretada por Issa Rae. Ela trabalha na “We Got Y’all” (Estamos Juntos) há 5 anos, uma entidade sem fins lucrativos que procura ajudar jovens de bairros social e economicamente desvalorizados. Acontece que essa entidade, por mais que tente abraçar esse discurso de “vamos te ajudar, mana”, é, aparentemente, desvirtuada de propósitos, a começar por não ter funcionários / colaboradores negros ou latinos. E quem é que se beneficia com a ação dessa entidade? Jovens negros e latinos, isso aí. Representatividade do cacete caramba, né?

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É um tanto foda complicado trabalhar com inclusão e não abrigar e aplicar o conceito básico de representatividade. Eu não tive professores abertamente gays até entrar na faculdade. Talvez, muito por isso, nunca me senti realmente conectado com boa parte dos que eram gays, e todos sabiam, mas faziam questão de vestir uma máscara e fazer a linha. Claro, depois eu entendi que o comportamento de cada um varia e ninguém é obrigado a assumir postura nenhuma, ainda que vá fazer outra pessoa se sentir bem.

No episódio piloto, chamado de Insecure as Fuck (Insegura pra caralho), Issa está trabalhando, explicando a uma turma de alunos sobre a proposta do We Got Y’all. Mas, como adolescente é uma peste e o principal motivo pra que aconteçam massacres, genocídios e guerras mundiais (exagerei?), não seria diferente por aqui.

Adolescente em escola e, ainda mais, junto do seu grupinho é o mais próximo que se pode chegar da pior espécie de seita no mundo. Você pode ser professor, coordenador, pai, funcionário ou só alguém passando por perto: pode ter o mínimo de suspeita da possibilidade de você ser humilhado. E isso se transpõe na forma de cochichos e risadinhas ou até em ofensas abertas – como se fosse realmente engraçado.

De um lado, temos Issa tentando se impor com todas as suas forças pra passar uma mensagem do projeto para o qual trabalha. Do outro, temos os estudantes percebendo a vulnerabilidade de Issa. Na menor abertura que Issa demonstra, eles atacam: falam do cabelo dela, da roupa, de ela ser uma mulher negra não-casada, da escolha profissional dela. Tudo no maior tom de deboche, e cada comentário é seguido de vários risinhos da turma.

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Mas vale refletir sobre uma coisa. Será que eles fariam a mesma coisa se estivessem sozinhos, isolados um do outro, recebendo a proposta do We Got Y’all individualmente? Já vi muito disso acontecer: é separando a matilha que o lobo vira filhotinho e se treme todo com o rabo entre as pernas. É aquela agressividade que esses jovens têm guardada dentro de si e devolvem o sentimento ao mundo na forma de humilhação. Tudo pra se sentir bem com a própria desgraça – ou pelo vício de sentir o ego inflar ao fazer outra pessoa se sentir menor do que realmente é.

O.K., como se não bastasse ter que passar por essa provação diante de adolescentes alvoroçados, a gente já sabe de cara que esse é o dia do aniversário de Issa. Em casa, ela escreve um rap sobre isso, se liga:

Go, shawty, it’s my birthday
But no one cares because I’m not having a party
‘Cause I’m feeling sorry for myself

(Tradução: Vai, gata, é meu aniversário / Mas ninguém liga porque eu não vou ter uma festa / Porque eu tô sentindo pena de mim mesma)

Oi, sumido, rs

Já bate uma vontade de abraçar ela, ou até de dar um sacode e dizer “Mulher, te apruma, bora beber”. Mas não é como se ela realmente precisasse desse sistema de apoio. Aparentemente, esse foi um sentimento bem passageiro e logo foi deixado pra trás. Até porque ela recebe uma mensagem de feliz aniversário por inbox de alguém bem inesperado. É o famigerado Sr. Sumido, ou simplesmente Daniel King. Mas, pra dar aquela rasteira na gente, logo aparece o namorado de Issa.

Lawrence Walker é um babacão. Bonitão, ok, mas escodaro. Tem um projeto guardado que, há 4 anos, diz que está desenvolvendo mas nada vinga. Vai a entrevistas de emprego, mas parece nunca se esforçar o suficiente. E, pra completar, não valoriza Issa como ela realmente deveria. Porra, cara, assim fica difícil de defender, né? Ele tem um tipo de insegurança que poderia ser facilmente trabalhada com uma remédio chamado: tira a porra da bunda do sofá e vai fazer alguma lavagem de roupa! Muitas vezes, o primeiro passo é só sair da inércia, sabe?

É por isso que não dá pra julgar Issa quando ela dá uma chegadinha lá na inbox e manda o toque pro Daniel King: OI SUMIDO RS. E ela tá certíssima. Se o namorado não tem valorizado ela o suficiente, nem tem demonstrado que se importa, nem que fosse só pra quebrar a rotina e fazer algo diferente no aniversário dela, ela tem mais é que buscar formas de sair desse ciclo vicioso do relacionamento falido.

Miga, bora beber

Issa pensa que, se ela fosse mais como sua melhor amiga Molly, talvez ela pudesse escapar de situações como essa com o Lawrence. Molly, nas palavras da própria Issa, “é o Will Smith do sistema corporativo”. Pessoas brancas amam Molly, pessoas negras amam Molly. Mas Molly é daquelas que incorporam uma máscara na frente dos reais sentimentos.

Yvonne Orij dá as caras à personagem Molly Carter. É bonita, popular e extremamente confiante. Mas não é bem assim… Ela tenta ver o melhor das situações pra si, como uma forma de tentar afastar os sentimentos ruins e até o overthinking. Se bem que algumas vezes é inevitável, né? Principalmente quando o sucesso de outras pessoas faz a gente ver que “dar o nosso melhor” não está sendo o suficiente. No emprego, Molly pode estar indo maravilhosamente bem. Já no lado emocional da vida, Molly se sente perdida no limbo da busca pelo relacionamento perfeito para, enfim, poder descansar e se sentir emocionalmente confortável.

Uma das cenas desse piloto mais simbólicas se dá entre Issa e Molly. As duas vão curtir a night numa balada, e isso me lembra de quando eu ia rebolar a bunda com meu melhor amigo. Não sei exatamente se Issa se sentiu assim, mas toda vez que eu saía com esse amigo, a sensação que eu tinha era que todos olhavam pra ele. Me incomodava? Um pouco, mas era suficiente estar ali e me divertir com ele.

O problema era quando algum cara começava a dar em cima dele. Eu ficava tipo “Viado, e eu? A noite não era pra ser da gente?” Issa logo foi deixada de lado e foi para o bar… o meu exato mesmo refúgio era passar uns bons minutos rodando na balada e parar no bar pra ver o menu de drinks e ficar imaginando quantos deles eu poderia beber sem estourar o cartão de crédito. Mas, como aqui é showbizz, Issa encontra o Famigerado Sumido Daniel King e eles começam a conversar.

Por mais que a noite termine com uma discussão boba entre as amigas, não dá pra deixar que uns caras otários se imponham. O final do episódio deixa claro que Issa e Molly são a dupla dinâmica que a gente precisava pra acreditar e reforçar que as boas amizades ficam, nos fortalecem, faz nos sentir mais bonitos e mais confiantes.

A insegurança não atinge só alguns. Ela bate na porta de todos. Ela envolve até quem se joga pro mundo de braços abertos e não tem filtros na hora de demonstrar que consegue tudo o que quer e que se alimenta de força emocional 24 horas ao dia. E isso é algo que definitivamente transparece às outras pessoas. Quando a gente aprende a administrar esse sentimento, então, é nesse momento em que as coisas parecem seguir um rumo agradável.

Insegura e certeira

Esse foi só o primeiro episódio, mas não vejo a hora de poder comentar os outros 7 dessa primeira temporada. Vale deixar bem claro que Issa Rae, a atriz por trás de Issa Dee, é a criadora da série e também roteirizou esse episódio piloto. A sinceridade dos diálogos me deixou de cara no chão: é Bitch pra cá e pra lá, e, muitas vezes, é um vocativo que ultrapassa os limites do carinho entre amigos. Eu quero é mais palavrão, mais insegurança crua e mais Issa Rae pra vir dizer coisas que eu não sei expressar. 5 oclinhos para Insecure.

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Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

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