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Guillermo del Toro: o lado oculto da fantasia

Guillermo del Toro já demonstrou diversas facetas no cinema, na televisão e na literatura. Com maestria, ele repassa toda essência do suspense e do horror.

O que um mexicano é capaz de fazer com elementos fantásticos? Guillermo del Toro tem a resposta. Responsável pelo sucesso de O Labirinto do Fauno, del Toro tem uma visão bastante única sobre o sentimento do medo pelo desconhecido. Sua estética é tão marcante que é possível sentir as nuances que se assemelham entre seus trabalhos no cinema, na TV e na literatura.

O que tem por aqui:

Del Toro cresceu sob a influência dos projetos de Alfred Hitchcock, Mario Bava e George A. Romero. Hitchcock pelos clássicos como Psicose (1960) e Pássaros (1963). Bava foi o maior exportador do cinema italiano dentro do gênero de terror, principalmente com temas sobrenaturais. E George A. Romero definiu a estética e a filosofia usada até hoje em filmes de mortos que voltam à vida, sendo responsável pelos filmes A Noite dos Mortos Vivos (1968) e Creepshow – Show de Horrores (1982), feito em parceria com Stephen King.

E é fácil notar essas influências hoje. Ao beber direto das principais fontes de terror, suspense e horror no cinema internacional, Guillermo acabou desenvolvendo a própria estética e estilo de criação. Na telona, preparou o início da saga de Hellboy em 2004, assinando direção e roteiro. Em 2006, dirigiu, roteirizou e produziu o filme mexicano-espanhol O Labirinto do Fauno e, através dele, foi premiado e reconhecido pelo domínio de elementos de suspense, terror e horror.

Cautela

À primeira vista, qualquer trabalho de Guillermo del Toro é recebido com estranheza e a aproximação é com extrema cautela. Meu primeiro contado com projetos dele foi através de O Labirinto do Fauno em 2008. Tal dia, passei em frente a uma locadora e tinha o pôster do tal filme. No centro, uma menina com feições de quem está ansiosa e amedrontada com algo que por trás de mim. A curiosidade já surge, mas a aproximação foi com extrema cautela, e o mesmo sentimento bateu depois com Hellboy, Não Tenha Medo do Escuro (Don’t Be Afraid of the Dark, 2011) e A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015).

Por duvidar do poder do filme, me surpreendi. Devo ter assistido 3, 4 vezes no mesmo fim de semana. El labirinto del fauno (Pan’s Labyrinth) traz criaturas demoníacas, um universo fantástico cheio de simbologias e uma narração metalinguística de emocionar até os mais frígidos. A genialidade do projeto, entretanto, fica por conta da união do fantástico ao histórico. Com uma trama que se passa na Espanha de 1944, a estória acontece após a Guerra Civil Espanhola e durante a ditadura de Franco. Ofelia, a protagonista, passa pela convivência opressora do padrasto militarista e também encara os temores da fantasia que só ela enxerga.

Mas essa fantasia não é cheia de estrelas e arco-íris. Fadas até existem, mas é impossível saber quando confiar nelas. Um fauno com mais de 2 metros de altura guarda o portal para o mundo mágico e só passa a sensação de que vai armar alguma trapaça. Um demônio com olhos nas mãos brinca com a gula humana e só se alimenta da carne de crianças. Sangue, abortos, mortes e tímidas doses de política dão o tom de macabro da estória que evolui a cada nova cena e abre inúmeras possibilidades para o enredo.

Reinvenção de Drácula

2009 foi o momento de Guillermo invadir os lados da literatura. Tendo Chuck Hogan como parceiro, escreveram a Trilogia da Escuridão, uma série de livros formada por NoturnoA Queda Noite Eterna, todos lançados pela editora Rocco no Brasil. Na estória, um Boeing 777 se desliga no meio da pista de pouso do aeroporto JFK em Nova Iorque. Todos os passageiros estão mortos e logo é considerada a possibilidade de terrorismo biológico. O bagageiro, uma caixa gigante cheia de terra desaparece e tudo está conectado.

Noturno evoca a criatura maligna de Drácula, romance gótico de 1897 assinado por Bram Stoker, e de Nosferatu, filme alemão de 1922. Não por acaso, o grande vilão da estória remete à memória das bestas sugadoras de sangue consagradas nos contos de terror. A urgência da estória em dias atuais torna todo o contexto bastante crível, tratando a sobrenaturalidade do vampiro como uma doença epidêmica. Ainda assim, o vampiro de Guillermo e Chuck ainda recebe a base das lendas e da magia obscura.

The Strain

2014 foi o ano em que o desgaste da figura vampiresca no cinema e na televisão chegou ao máximo. Os filmes da saga Crepúsculo e as séries The Vampire Diaries (CW) e True Blood (HBO) elevaram ao máximo a carga romântica ao reimaginar o vampiro como criatura emotiva. Não por acaso, o encerramento de Crepúsculo e de True Blood foram criticados por tentarem demonstrar a selvageria desses vampiros apenas nos últimos minutos de existência.

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As portas estavam escancaradas para preencher a sala com uma outra estética. As possibilidades narrativas da Trilogia da Escuridão deram abertura para a inserção de um novo vampiro na televisão. E foi o que aconteceu também em 2014. Sem dar espaço a um encerramento digno de True Blood, estreou The Strain pelo canal FX. O horror vampiresco estava de volta à sua naturalidade sangrenta.

Com intensa participação de Guillermo del Toro e Chuck Hogan na produção executiva da série, The Strain agradou público e crítica. No Rotten Tomatoes, a temporada final da série está sendo avaliada a 100%, enquanto a primeira conta com 87%, a segunda tem 79% e a terceira que havia caído para 50%. Em 4 temporadas, num total de 46 episódios, The Strain quebrou o fetiche batido de romance com essas criaturas macabras.

Mergulhando fundo

Guillermo del Toro está trabalhando atualmente na finalização do filme A Forma da Água, com estreia prevista para 11 de janeiro de 2018. Veja o trailer:

The Shape of Water conta a história de Elisa (Sally Hawkins), uma zeladora muda que é relocada para trabalhar em uma instalação científica. Lá, ela descobre um anfíbio humanoide mantido em cativeiro para estudos e estabelece uma comunicação com ele. A trama se passa nos anos 1960 e terá contextualização com a Guerra Fria.

Del Toro está envolvido na direção, no roteiro e na produção do filme. É de se esperar que o seu melhor venha à tona, assim como todo esse potencial foi despertado em O Labirinto do Fauno e A Colina Escarlate. Quem sabe, até janeiro, não surgem outros projetos dele pra encantar esse povão, né?

***

Este artigo faz parte do Outubro Macabro de 2017, um ciclo de postagens especiais para o Halloween / Dia das Bruxas nos temas de terror, horror e fantasia dark. Quer mais? Clica aqui!

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4 Responses to Guillermo del Toro: o lado oculto da fantasia

  1. Muito bom, adorei A Colina Escarlate. Recomendo. História cheia de reviravoltas e cenas de gelar a alma. Literalmente, kkk

  2. Alice Martins disse:

    Olá, tudo bem?

    Confesso que não conhecia o trabalho do Del Toro, isso se deve ao fato de não ser muito fã do gênero de terror. No entanto, fiquei bem curiosa a cerca das obras que você citou, pois elas parecem ter elementos muito bem trabalhados e de forte impacto. Fiquei aqui querendo saber mais a respeito. Com certeza, uma excelente obra!

    Beijos!

  3. Não conhecia o escritor mexicano, mas gosto do gênero e essa postagem me deixou bem animado para conferir o trabalho dele.

    Abraço!

  4. Oiii, adorei seu post, parabéns pelo trabalho. Confesso que não curto muito terror, por isso não conheço os trabalhos do autor, mas já ouvi falar do labirinto do fauno.

    Beijos

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