In Literatura

Guerras da mulher soviética e uma questão ainda presente

Era aula de História na turma do 3º ano de um colégio relativamente grande em Fortaleza. O professor já tinha fama de explosivo e temperamental, ainda que a maioria simplesmente achasse que ele era espontâneo. Ele comentava a Segunda Guerra Mundial e o papel central de Adolf Hitler no ataque alemão. Eis que ele brada: “Adolf Hitler era um doido. Pense num bicho doido!”

Instantaneamente, levanto a mão e rebato: “Professor, Hitler não era doido.” Todos me olham, o professor faz cara feia e reafirma: “Claro que era doido, se não fosse doido não teria feito essa bagunça toda!” Complementei o pensamento: “Professor, Hitler foi um político maquiavélico, reergueu um país fracassado e em crise, alienou boa parte do povo alemão a lutar por uma causa de supremacia racial. Isso não é ser doido, é ser inteligente e usar disso pro mal. Por isso ele era tão perigoso.” Claro que fui ignorado…

O problema é que muita gente por aí tem mania de tirar a sanidade alheia pra justificar o mal caráter de alguém. Hitler era doido? Franco, Stalin, Mao Tsé-Tung, Kim Jong-Un, Donald Trump, Bolsonaro são doidos? Eu discordo. E lendo A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, de Svetlana Aleksiévitch, essa ideia ficou mais evidente e permaneceu ali, só na espreita.

Pela mulher soviética

A vencedora do Nobel de Literatura de 2015 me deu muito o que pensar com A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (2016, Companhia das Letras). Não é História, não é o tal romance de não-ficção do Truman Capote. É realidade, é perspectiva. Svetlana surge apenas como mediadora das histórias de inúmeras mulheres que lutaram pela União Soviética na Segunda Guerra.

Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…” – p. 32

Sendo assim, esse é um livro de relatos. Cada capítulo agrupa um determinado assunto contido nas falas dessas mulheres. Lembranças, morte, esperança, alegrias, expressão feminina (ou a falta dela), profissões, atuação na linha de frente e na retaguarda, abusos, família, patriotismo, perdas e amores: todos esses assuntos estão contidos no livro e cada um deles está repleto de dor e honestidade. Sem pano algum de ilusão.

Encontramos uma velhinha.
Eu disse a ela:
‘Nós vencemos.’
Ela começou a chorar:
‘Dois filhos meus morreram na Rússia.’
‘E de quem é a culpa? Quantos dos nossos morreram?!’
Ela respondeu:
‘De Hitler…’ “- Nina Pietróvna Sákova, tenente, enfermeira (p. 362)

Com essa leitura, percebe-se muito bem alguns mitos do que se fala do povo soviético daquelas eras. São fortes, sim, mas por conta de um senso incrivelmente aguçado de pertencimento a um cantinho de terra. Por mais que a Segunda Guerra por lá seja conhecida como Grande Guerra Patriótica, a maioria aparentemente não lutava pela nação ou pela ideologia nacionalista. Era pela sua família: pelos pais, pelos parceiros, pelo futuro dos filhos, por suas casas, pelos amigos e vizinhos.

Nos evacuaram para Stalingrado. Quando Stalingrado foi sitiada, fomos voluntariamente para o front. Todos juntos. Toda a família: minha mãe e as cinco filhas. Meu pai já estava combatendo nessa época…” – Antonina Maksímovna Kniázeva, terceiro-sargento, comunicações (p. 65)

Tem algo nesses relatos que pode passar despercebido, mas me pareceu extremamente relevante. Socialismo e comunismo não são romantizados em momento algum. Uns nutrem respeito por Tróstki, Lênin e Stálin. Outros, têm medo deles e sabem que qualquer discordância, implícita ou explícita, pode ser suficiente pra ser acusado de traição ao governo.

Desde a infância nos ensinara que a pátria é tudo e que é preciso defendê-la. Então, não hesitei: se eu não for, quem vai? Devo ir…” – Serafima Ivánovna Panássenko, sargento-tenente, enfermeira do batalhão de infantaria motorizada (p. 73)

Não íamos por Stálin, ia por seus filhos. Pela vida futura deles. Ela não queria viver de joelhos. Submeter-se ao inimigo… Talvez fôssemos cegos, nem vou negar isso, nós na época não sabíamos e não entendíamos muita coisa, mas éramos cegos e puros ao mesmo tempo. Éramos feitos de duas partes, de duas vidas. Você precisa entender isso…” – Vera Serguêievna Romanovskaia, enfermeira partisan (p. 94)

O poder de empatia dessas mulheres guerreiras era imenso. Por mais que fossem maltratadas e mutiladas, oprimidas e atacadas pelo seu gênero (algumas até violentadas por alemães e por soviéticos e se viam obrigadas a relacionar-se com militares superiores para não serem ameaçadas), essas mulheres lutaram várias guerras em uma só: contra o patriarcado, contra o comunismo utópico, contra nazistas. Tudo pela vida tranquila, pelo direito à moradia, pela vontade em tornar uma esperança possível.

Depois ela levantou a cabeça e viu que não era só o filho dela que tinha morrido, havia muitos jovens ali, e ela começou a chorar pelos filhos dos outros: ‘Meus filhinhos queridos! Suas mãezinhas não viram vocês, não sabem que estão debaixo da terra! E a terra é tão fria. É um inverno tão gelado. Então vou chorar no lugar delas, vou lamentar por todos vocês. Meus queridinhos… Adorados…’ ” – Larissa Leôntievna Korótkaia, partisan (p. 345)

Nem os alemães, os principais (e únicos) inimigos da URSS, eram vistos de maneira totalmente maléfica por essas mulheres. A carga de empatia delas era capaz de superar ordens militares e até a própria moral. Algumas enfermeiras cuidavam tanto soldados soviéticos quando nazistas. Algumas soldados dividiam comida com alemães feridos, consolavam os mais jovens, choravam pelos alemães mortos por uma guerra fomentada pelo egoísmo.

Os outros feridos sabiam que havia um alemão ferido na enfermaria. Ele ficava separado. Quando eu passava, eles se indignavam:
‘Você está levando água para o inimigo?
‘Ele está morrendo… Tenho que ajudá-lo…’ ” – Lília Mikháilovna Butkó, enfermeira cirúrgica (p. 368)

Quando viram que fizemos curativos neles, que demos uma aguinha e mandamos se esconderem na trincheira que tinham cavado, eles não conseguiram se controlar, ficaram aturdidos… Um alemão chorou… Era um homem mais velho, chorava e não escondia as lágrimas de ninguém.” – Nina Vassílievna Ilínskaia, enfermeira (p. 369)

A Vitória chegou em 1945 aos soviéticos, junto com a eterna lembrança dos dias de devastação, morte e tristeza. Entre os vivos da época, é bem certo que ninguém tenha superado, que ninguém tenha se curado dessa guerra. Pais morreram, mães foram estupradas, crianças lutaram, velhos se sacrificaram, terras ficaram inabitáveis. Como esquecer disso?

Memória

Dessa leitura também vale lembrar (e manter em mente) que nem todo alemão era nazista. Na invasão à URSS, haviam homens jovens demais e velhos demais, todos forçados pelas autoridades nazistas a obedecerem sob influência do medo. A propaganda nazista alienava, mas também forçava a submissão.

Hoje, o nazismo é lembrado pelos alemães, mas como uma lição. Tanto é que saudações nazistas em solo alemão é ofensivo e vergonhoso. Não é à toa que tem turista americano neonazista levando porrada na cara por fazer gesto hitlerista. As manifestações em Charlottesville, nos Estados Unidos, que ocorreram entre 11 e 12 de agosto, são a mais pura afronta à memória de tantos que lutaram e morreram por um tipo de paz. Mas nem por isso essas pessoas são loucas.

Todos lembram. Essas pessoas leram, estudaram, ouviram falar. Ninguém ali é clinicamente insano. Assim como não é insano quem apoia ditadura em terras brasileiras ou qualquer tipo de extermínio massivo, de cunho político ou religioso. Não tem nenhum louco nessa história. Diminuir a sanidade dessas pessoas só vai esconder o problema e apelidar com outros nomes a verdade: que são, simplesmente, pessoas ruins.

Dizem que o instinto materno é mais forte do que tudo. Não, uma ideia é mais forte! E a fé também é mais forte!” – Aleksandra Ivánovna Khrámova, secretária do Comitê do Partido Regional Clandestino Antopolski (p. 313)

É doloroso admitir que pessoas comuns, nossos semelhantes, podem ser ruins. Mas pior que isso é propagar ideologia maldosa. É pensamento bom que a gente tem que passar pra frente, não ideia torta, opressora, segregadora, manipuladora e assassina. Leiam A Guerra Não Tem Rosto de Mulher. Entendam e lembrem. Vocês precisam lembrar.

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher
Edição de 2016 da Companhia das Letras
ISBN: 9788535927436
392 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR
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