In Reflexões

A Greve dos Roteiristas e o futuro das séries

Semana passada, o Brasil parou. 28 de abril foi dia de paralisação nacional em protesto contra várias decisões dos 3 poderes no País. O estopim de tudo foram as mudanças aprovadas na Previdência e nas leis trabalhistas por Michel Temer e seus facilitadores. Ainda que tanto se fale do aproveitamento político da Força Sindical e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), há que se entender a força de uma Greve Geral.

Pra incitar o clima, uma playlist:

Nesses dias, por conta do foco midiático na Greve do dia 28/04 e no falecimento de Belchior no dia 30/04, um assunto acabou passando despercebido pelo brasileiro. Claro que não é nada tão abrangente que mereça noticiação massiva por aqui, mas foi por pouco que Hollywood também não ganhou uma greve pra chamar de sua.

Lembra daquela greve que parou as produções de cinema e TV nos Estados Unidos em 2007? Aqui no Brasil a gente nem sentiu uma pontinha disso. A cultura de entretenimento televisivo estadunidense estava engatinhando pelas terras tupiniquins. A difusão de séries por aqui só foi encabeçada em boa parte pela Globo, com Lost, e pelo SBT, com Smallville.

A Greve dos 100 dias

Esses seriados tiveram os direitos de exibição comprados pelas emissoras nacionais. Temporadas de 24 Horas, por exemplo, demoravam até 2 anos pra chegar ao público brasileiro pela TV aberta. Por isso mesmo que não deu pra gente sentir a tensão presente nos bastidores dessas produções há 10 anos. Isso porque, em 7 de novembro de 2007, o Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos (Writers Guild of America – WGA) deu início à Greve dos 100 dias, que durou até 12 de fevereiro de 2008.

Culpa de quem…

O Sindicato mantinha diálogo para negociações com a Aliança de Produções Televisivas e Cinematográficas (Alliance of Motion Pictures and Television Producers – AMPTP), que defende os interesses dos estúdios e das produtoras de audiovisual massivos. Os roteiristas queriam (e mereciam) ganhar pela veiculação alternativa das produções (streaming pela internet, exibição mobile e programação on demand – ou sob demanda), além de receber uma justa parcela dos honorários sobre produtos de merchandising, como os DVDs dos filmes e séries.

Os primeiros atingidos foram os programas diários. Tonight show with Jay Leno e Late Show with David Letterman, por exemplo, passaram a exibir apenas reprises. Séries de grande apelo do público também foram impactadas: Lost, The OC e Desperate Housewives e várias outras fecharam temporadas com menos de 17 episódios, enquanto o padrão seria de 22 episódios. A greve acabou com acordo de aumento dos honorários gerais aos roteiristas, desconsiderando as reivindicações de base.

A falta desses profissionais foi sentida no bolso dos patrões: Hollywood fechou prejuízo por volta dos US$ 2.5 bilhões de dólares. A causa dos roteiristas acabou sendo adotada por outras categorias: sem histórias a contar, não existem novos trabalhos aos diretores, cinegrafistas, editores e todo o staff de apoio: figurinistas, maquiadores, faxineiros, cabelereiros e por aí segue…

Haja dinheiro mia gente

De ontem pra hoje

A quantidade de seriados e filmes em produção atualmente é absurda. O Adoro Cinema mencionou algo em torno de 400. Quatrocentas produções! Imagina o tanto de gente trabalhando nisso… Em 2007, a greve afetou quase 38 mil empregos e os números de audiência caíram e, até hoje, não se recuperaram. E tudo porque os patrões não abrem mão de uns poucos dígitos em dinheiro em prol da valorização de uma categoria profissional de base no setor criativo.

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Agora em 2017, no dia 24/04, a WGA votou novamente para o indicativo de greve, aprovado por 96% dos profissionais sindicalizados. Os diálogos, dessa vez, ocorrem acerca do novo modelo de trabalho dos roteiristas, que passaram a produzir, em sua maioria, séries com até 13 episódios, em contraste com os 22 episódios padrão em 10 anos atrás, o que gera menos lucro ao trabalho dedicado. Isso tudo levando em consideração que são obrigados a serem contratados como roteiristas exclusivos de apenas uma série por vez.

QUE

O acordo de 3 anos que se fixou entre o Sindicato e a AMPTP adere à reivindicação do aumento de ganho por temporadas reduzidas, além de atender a melhorias nos planos de saúde e licença parental, 15% de aumento em ganhos residuais de TV por assinatura e pagamento extra para horas extras trabalhadas. Dessa forma, a greve agendada para ontem, 2 de maio, acabou entrando em extinção.

Quanto a Game of Thrones, The Walking Dead, Twin Peaks, Jessica Jones, Star Trek: Discovery e Orphan Black, podem ficar tranquilos. Tá tudo intacto, pelo bem da sua maratona dominical!

Viado tu num fala mal da minha maratona!

As transformações

As mudanças têm chegado de jatinho. A coisa dos 13 episódios por temporada, contudo, não é invenção da Netflix. Canais por assinatura como a HBO vêm produzindo com base nesse modelo desde que me entendo por gente (mais de 10 anos, das produções que acompanhei). Entretanto, foi com o apelo da Netflix que voltaram à tona os diálogos sobre a programação da TV Digital.

Se engana quem acha que TV Digital é apenas melhor definição de som e imagem. Esse aí é papo de Globo e companhia que andaram espalhando. TV Digital é a programação inteira de um canal à disposição da escolha e vontade do espectador. É ver um programa de auditório da câmera que eu escolher; é ver o noticiário falando do jogo de futebol e poder selecionar a câmera que exibe o jogo enquanto o noticiário segue com outras informações; é poder escolher um filme no catálogo sem ter de pagar pra ver (pay per view).

Culpa do Boninho

O debate da TV Digital vai muito longe, mais além que um simples sinal digital, e o modelo da Netflix (programação paga por streaming online) é apenas o início disso. Podem ter certeza de que veremos outras crises no modelo de entretenimento de Hollywood. Por um lado, as grandes empresas não querem mudar as formas de produção já estabelecidas e uma nova adaptação levaria bastante tempo e investimento financeiro. Do outro lado, os profissionais de criação, principalmente os roteiristas, temem a mudança e não se sentem preparados para lidar com um ritmo de produção desconhecido.

O contrato estabelecido nessa greve interrompida vence em 2020. Até lá, ficamos na nossa conchinha feliz, comendo pipoca e tomando Coca Cola, rindo e chorando com remakes meia boca, e prequels e sequências sem pé nem cabeça. Pois que fique na lembrança os 38 mil empregos que custaram para nos trazer, hoje, algumas horas de lazer. Teremos Star Wars até dar uma dor, Animais Fantásticos até povoar a Amazônia inteira e American Horror Story todos os anos pra dizer que é ruim e não faz sentido e ainda ver até o fim. Tá de bom tamanho, por enquanto.

QUEIMA QUENGARAL
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