In Literatura

Golem e o Gênio na busca por tolerância e respeito

Pra quem foi criada para obedecer, a golem Chava deseja apenas se afastar de qualquer relação em que esteja subordinada a alguém. Trabalho? Tudo bem, ela tem prazer e satisfação em se sentir útil, instrumento de uma benfeitoria maior. Mas, casamento? Golens não existem pra imitar humanos, muito menos suas relações. Golens são ferramentas de força bruta, não fetiches pra homens infelizes. Mas foi exatamente o que aconteceu.

Helene Wecker nos leva ao fim do século XIX. A Golem veio do barro e das técnicas esotéricas do rabino Yehudah Schaalman. Otto Rotfeld, um judeu prussiano do tipo arrogante, fútil e solitário, encomendara uma golem a Schaalman para lhe servir de esposa, já que não conseguia sustentar nenhum relacionamento. O rabino atendeu ao pedido e cobrou alto pelo serviço de produzir uma criatura à maior semelhança humana em temperamento, liberdade, sapiência e consciência.

No translado do Oriente às Américas, entretanto, Rotfeld morre e a Golem, que nasce e vive para servir a um mestre, só tem tempo de ser despertada pelo seu dono antes de ser liberta. Estando livre do seu mestre, Golem se vê desamparada em terras desconhecidas, ouvindo as vontades de todas as pessoas ao seu redor e entrando em desespero por não ser capaz de atender a todas.

“Esta também é, pensou Golem, uma mulher que fora construída. Seja lá o que significasse para os outros, era amada e respeitada por isso. Pela primeira vez desde a morte de Rotfeld, a Golem sentiu algo como esperança.” (pp. 28)

Nessa passagem, Golem vislumbra a Estátua da Liberdade nas entradas do porto de Nova Iorque, nos Estados Unidos. A grande metáfora da obra de Helene Wecker é exatamente essa: a singela busca pela quebra das correntes que estão dentro de cada um de nós.

No caso da Golem, ela anseia em se impor contra a sua própria natureza de atender aos pedidos dos outros e poder exercer a sua liberdade de escolha. E esta perspectiva esperançosa também se expande para outros personagens, como Mahmoud Saleh e Sophia Winston.

“Não partira para a América com o objetivo de vencer, mas parecia que a América não o deixaria perder.” (pp. 96)

Ao mesmo tempo em que conhecemos a Golem, também somos apresentados ao Djim, um gênio que habitava terras sírias e foi desperto por um ferreiro em Nova Iorque. Djins são seres feitos de fogo, temem a água e o ferro, e são invisíveis aos olhos humanos até que se transformem em animais ou pessoas. A criatura despertada, contudo, está presa na forma humana e, apesar dos seus poderes metamorfose, não consegue assumir sua forma natural. A única memória que lhe vem à mente sobre o que aconteceu, é a imagem de um feiticeiro que, na sede pelo poder, aprisionou o Djim sob a forma humana dentro de uma garrafa de ferro ornamentado.

Golem e o Gênio são opostos. Enquanto a Golem, nomeada de Chava pelo seu novo protetor, se mostra cautelosa e temerosa, o Djim, apelidado de Ahmad, é aventureiro, expansivo e explorador. Mas as diferenças vão além dos aspectos psicológicos de cada personagem. Helene Wecker nos presenteou com a arte da mistura de elementos culturais extremamente distintos. A Golem é uma criatura de forte presença na mitologia judaica, enquanto o Djim tem suas lendas contadas na mitologia árabe.

Mix árabe e judeu

A mistura de culturas é um caso delicado a se falar. Já tem bastante tempo que vemos a rivalidade violenta entre judeus e muçulmanos no Oriente Médio. Helene não entra em méritos políticos e religiosos pra justificar uma atitude e outra de povos tão complexos, mas traz à tona a reflexão: podemos valorizar alguém, não pelo que ela é, mas por como ela age.

Chava temia Ahmad por ele ser diferente, desconhecido, descuidado, potencialmente perigoso. Foram inúmeros os momentos, durante os primeiros contatos entre a golem e o djim, em que Chava demonstrou ser extremamente reservada. Todos os anseios, por fim, foram postos de lado quando ambos perceberam a confiança que afirmavam um ao outro, resultando numa cumplicidade fraterna.

A golem Chava não precisou de nenhuma habilidade especial pra ser educada com o Djim. Ele, com toda sua arrogância e petulância, soube dosar os níveis aventureiros dos passeios noturnos dos dois para que Chava se sentisse confortável.

Eles se importaram um com o outro antes mesmo de se conhecerem, apenas pelo fato de serem diferentes da maioria. Não expuseram um ao outro porque as divergências os uniram. Os detalhes que os destacam da multidão fizeram surgir uma relação de confiança entre dois seres. Bastou que um deles cedesse o benefício da dúvida. Sem a possibilidade de deixar ser conhecido por outro alguém, Ahmad jamais teria conseguido se aproximar de Chava.

Quase sempre, podemos tirar alguma lição da ficção. E esse é um caso assim, ainda que a ficção não seja o espelho da realidade. Mas bem que poderia ser. Baixar a guarda e tentar enxergar além das diferenças é uma solução bem vaga para conflitos religiosos e políticos em Jerusalém. Mas, e a gente, com aquele familiar não muito chegado? Ou com o colega de trabalho ou de faculdade com quem não suportamos trabalhar junto? Tolerância e respeito urgem para serem aflorados na nossa comunidade, mas botar isso pra fora, pra 90% das pessoas, é o mesmo que enfiar uma faca nas costas do próprio ego.

“Qualquer desrespeito ou bate-boca, por menor que fosse, servia como desculpa, e centenas de djins conclamavam os ventos, cavalgando-os na batalha, clã contra clã.” (pp. 36)

Quer dizer, então, que você se sente bem enquanto joga desprezo a outras pessoas? Todo santo dia tem conflito por aí causado pela discórdia do deboche, da arrogância, da ignorância que não podemos engolir. E isso pra que possamos nos inserir num patamar superior a uma penca de gente a quem não temos simpatia.

Não é pra viver soltando meias verdades ou explorando um falso coleguismo. É questão de saber priorizar o ambiente pacífico pelo bem-estar coletivo e, também, o próprio. Chava conflitou pensamentos sobre estes pontos, mas isso não transformou-a num animal desprovido de pensamento e sentimentos. Ela, mais do que ninguém, era capaz de enxergar e sentir as diferenças e, com todo o seu altruísmo, buscava a harmonia entre servir e se sentir em paz consigo.

As diferenças são capazes de cegar a vista de qualquer um. Mas são também elas, as características únicas, que nos tornam essenciais e de valor inestimável a um determinado propósito. Ninguém é tão dispensável que não mereça a sua compaixão de, no mínimo, ser conhecido além do véu das diferenças.

A sentença final

Golem e o Gênio – Uma fábula eterna, de Helene Wecker, é uma obra estranha. Mas é estranha pelos motivos certos: temos o vislumbre de culturas pouco exploradas na literatura mainstream e um formato narrativo lento e detalhado. Escolhas inusitadas para uma obra atual e que se propõe a ser uma série (que eu descobri vendo o Goodreads), mas que não deixa de apresentar uma fantasia realística, com personagens sensacionais, tramas excepcionais e uma boa dose de história, magia e drama.

A edição da Darkside Books é simplesmente linda. Capa dura, detalhes em dourado, acabamento fosco na capa com aquele toque maravilhoso do soft touch. A diagramação é impecável pra uma leitura rápida e agradável, além dos detalhes das imagens no começo e fim do livro, e das marcações no início de cada capítulo. Tudo deixa a experiência bem rica e as mais de 500 páginas do livro passam rapidinho.

The caveira is here!

Resta saber se a Darkside também trará a continuação da série Golem e o Gênio. O segundo livro recebeu o título de The Iron Season (A estação do ferro, em tradução livre), e terá espaço durante a 1ª Guerra Mundial. O segundo volume da saga tem previsão de lançamento internacional apenas para 2018. Até lá, a escrita de Helene vai deixar saudades nos corações de reles mortais como nós…

Por tudo isso que foi dito, deixo aqui 4 pares de olhos de vidro pra essa aventura insana de barro e fogo.

 

Título original: The Golem and the Jinni
Edição de 2015 da Darkside Books
Selo DarkLove
ISBN: 9788566636482
514 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR
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