In Literatura

Fevereiro, março e a saga do fracasso

Taí 2 meses totalmente sem pé nem cabeça. 2017 anda meio louco e o primeiro trimestre já deu algumas cambalhotas na vida. E, é claro, isso não poderia deixar de afetar minhas leituras, por mais que eu tivesse me planejado tudo: os livros que eu iria ler, quantas páginas por dia, em quantos dias eu leria cada livro. Em janeiro foi lindo! 5 livros lidos e muita alegria ao bater a meta, e você pode ler aqui.

Pra facilitar, um menuzinho:

Fevereiro
>> Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
>> Millennium 3 – A Rainha do Castelo de Ar
Março
>> A Senhora da Magia

Mas, realmente, nem tudo são margaridas. Fevereiro e março chegou pra mim com a tensão de 2 concursos públicos e eu não poderia negligenciar a famigerada revisão. Estudei tanto e estudei com tanto gosto que, certos dias, eu não conseguia ler uma página nem de Harry Potter. Foram tempos de esgotamento físico e mental. Aproveitar as leituras ficou um pouco complicado, mas até que deu certo. Vamos lá aos relatórios de fim de mês:

Fevereiro

Como eu já sabia o que viria pela frente (muitas olheiras e bundas quadradas de tanto ficar sentado estudando), separei só 2 livros pra ler nesse segundo mês de 2017. Continuando aquela meta de ler 12 livros de J. K. Rowling, li Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e, também, Millennium 3 – A Rainha do Castelo de Ar.

Harry Potter and the Prisoner of Azkaban
de J. K. Rowling

O terceiro volume da saga de Harry já traz algumas diferenças palpáveis em relação aos 2 primeiros volumes. Isso acontece por conta do amadurecimento na escrita da J. K. Rowling, que já se torna bem evidente. Ela já deixou boa parte dos floreios e das enrolações de lado e passou a explorar diversas nuances dos, as reações não só de Harry mas também de outros personagens.

Logo no comecinho dá pra sentir esse novo espectro da narrativa. Quando a Tia Guida (Marge, no original) chega na casa dos Dursleys e todo o clima e a dinâmica da família se transforma, e não é só mais uma percepção singular de Harry: o menino também passa a agir como narrador-observador, monitorando a reação dos outros personagens. Depois, no Caldeirão Furado, quando Harry encontra com os Weasleys, se torna evidente a maneira como J. K. explora essa nova possibilidade do Harry como um narrador semi-onisciente.

Com mais fluidez, mais atenção e mais surpresas, Rowling agora prende o leitor pelas tramas que criou, e não mais pela novidade da aventura daquele menino bruxo. É um tanto obscuro que tanto se deva ao período em depressão da autora, mas foi assim que a negatividade transcendeu em arte: a personificação dos dementadores, a bebedeira de Guida, o paternalismo de Lupin, as responsabilidades de Molly e Arthur Weasley sobre o Harry. Está tudo ali: pequenas tragédias cotidianas maquiadas na magia.

Esse é, com certeza, um dos melhores livros de Harry Potter, pelo clima de tensão constante, o perigo sempre à espreita, o jogo com o tempo e com as previsões de Trelawney. Quase perfeito, não fosse a necessidade, já repetitiva, de falar das aulas e das novas coisas aprendidas… é uma fórmula batida, né? Deixei 4 oclinhos e meio pra esse.

Harry Potter and the Prisoner of Azkaban
Edição hardcover de 1999 da Scholastic
ISBN: 9780439136358
435 páginas
Skoob | Goodreads
Onde comprar: Amazon Br – ebook (inglês) | livro físico (português)

 

Millennium 3 – A Rainha do Castelo de Ar
de Stieg Larsson

Os livros do Stieg Larsson sempre me deixaram muito intimidados. Eu comecei a ler Millennium em 2009, se bem me lembro. Os Homens que não Amavam as Mulheres me deixou assim: abarrotado. Eu levei, aproximadamente, 2 meses pra terminar o primeiro volume, mas não pela quantidade de páginas (522). Era mais pela temática tão intensa envolvendo nazismo, supremacia masculina, violência sexual contra mulher (agravado pela dúvida de ser uma mulher “incapaz” ou não). Pouco tempo depois, consegui uma promoção pra comprar o segundo volume, A Menina que Brincava com Fogo, mas demorei 2 anos pra pegar novamente na saga escrita pelo Stieg.

2017, portanto, foi hora de acabar com isso de vez. Lançaram um 4º volume, escrito por um autor bem whozinho e eu não considero isso como parte da saga. Então resolvi encarar e absorver as 685 páginas de A Rainha do Castelo de Ar, e não tem outra forma de dizer isso: foi surpreendente. Millennium 3 se tornou um dos meus livros favoritos da vida e, provavelmente, o melhor do gênero policial (subgênero investigativo) que lerei na vida.

Stieg pode não ter sido mestre em estruturar seus romances, mas caralho esse homem sabia como instigar uma leitura até o fim. Pelas pausas que fui obrigado a tomar, tinha dias que eu tirava pra relaxar e engolia com muita facilidade entre 100 e 150 páginas. Nos dias que sucediam essa leitura, então, batia uma sede, uma angústia… quase uma abstinência de Lisbeth Salander.

Falando em Salander… aliás, é melhor nem falar. Mas todos os personagens bonzinhos dessa saga fenomenal tiveram o seu final razoavelmente feliz. Com destaque para a sensacional Erika Berger, mulher forte e resiliente, inteligente e astuta, incrivelmente corajosa. Na boa: lembrou muito minha própria mãe em diversas situações, na maneira como ela se comporta diante das dificuldades. Palmas às personagens femininas de Stieg: humanas, profundas e nuances de todo jeito. Por elas e por essa conclusão (!) suprema: 5 oclinhos.

A Rainha do Castelo de Ar
Edição 5 de 2015 da Companhia das Letras
ISBN: 9788535926187
685 páginas
Skoob | Goodreads
Onde comprar: Amazon Br

 

Março

Nesse mês, tive o segundo maior esgotamento mental da vida: o primeiro foi durante o meu TCC na faculdade. Mal conseguia ler ou me divertir com qualquer coisa. Foi barra, foi difícil e foi uma ressaca literária extremamente intensa. Eu tinha separado 5 livros pra ler em março, e fiz uma seleção linda só com escritoras mulheres pra exaltar e participar do Mulheres para Ler, projeto da Iara Picolo, do canal Conto em Canto.

Nesse princípio aí, separei esses livros pro mês de março:

– As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia, de Marion Zimmer Bradley;
– A Noiva Fantasma, de Yangsze Choo;
– Lágrimas na Chuva, de Rosa Montero;
– The Casual Vacancy, de J. K. Rowling;
– Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozie Adichie.

Eu queria né… mas não consegui terminar o segundo dessa lista. Depois de terminar A Rainha do Castelo de Ar (que finalizei já no começo de março), ficou estranho passar de uma narrativa apressada e urgente e cheia de acontecimentos pra narrativa de Marion Zimmer, em Avalon, que é bem mais lenta e detalhista. A Noiva Fantasma eu ainda avancei até a metade, mas não finalizei, pelo mesmo motivo. E Lágrimas na Chuva (sim, eu tenho mania de intercalar leituras), fiquei no segundo capítulo. Consegui ainda o ebook Pottermore Presents: Hogwarts – Na Incomplete and Unreliable Guide, e esse eu quase terminei.

A Senhora da Magia
de Marion Zimmer Bradley

O primeiro livro de As Brumas de Avalon me deixou de cara no chão. Como já fiz um review desse livro no post anterior, não vou me estender muito. Mas vou usar desse espaço pra revelar algo que me deixou inquieto. Divulguei o post no grupo Mulheres para Ler, no Facebook, e duas coisas ficaram evidentes:

Coisa Nº 1

Muitas pessoas querem ler esse livro, mas, de alguma forma, se sentem intimidadas. Talvez seja por conta da edição do livro, que é bem porquinha e acaba com o tesão de qualquer um em ter um prazer pleno na leitura. Mas também pode ser por conta da temática, que pode ser agressiva às crenças de alguns leitores (como foi pra mim, nas duas primeiras tentativas de leitura que fiz). É uma leitura desafiadora, sem dúvidas, mas tem as suas recompensas.

Coisa Nº 2

Uma das participantes do grupo, Jaíne Cavalini, comentou algo que fiquei simplesmente abismado: Marion Zimmer Bradley abusou da filha. Na hora eu já dei uma jogada no Google e tava lá, em vários sites: Moira Greyland, filha de Marion Zimmer e Walter Breen, foi abusada por ambos os pais dos 3 aos 12 anos. Ler o desabafo de Moira me deixou com um aperto fundo no coração, seja lá qual motivação que Marion e Walter tinham na cabeça pra fazer aquilo. O relato todo você pode ler nesse link, em inglês (existe outro site em português lusitano com o texto traduzido, mas é site de cunho totalmente homofóbico, que justifica os atos de Marion e Walter por eles serem homossexuais – por isso mesmo, não vou deixar o link aqui, mas está lá no Google).

Jaíne ainda deixou esse vídeo da Bruna Miranda em que ela discorre sobre o assunto:

No fim das contas, a gente escolhe o que consome, e Jaíne Cavalini sugere a solução que ela encontrou: ler a obra, mas não compra-la. Incentivar esse comércio é incentivar a perpetuação de abusos como esse. É um dilema e um conflito terríveis, porque eu fui absurdamente seduzido pela trama que Marion criou. Vou ler, sim, os outros livros de Avalon, porque os tenho em casa. Mas não, não tenho mais intenções de compra-los. E, provavelmente, até seja por isso que a Imago ainda tá presa com os direitos editoriais de Avalon: porque nenhuma outra editora quer associar sua imagem à alguém que molestou uma criança.

Agora, isso aí vai ficar na minha mente sempre que eu ler algo nos outros 3 livros de As Brumas de Avalon. Mas isso é bom. A gente não deve esquecer de quem faz esses trabalhos e da desgraça que foram capazes de fazer nas suas vidas pessoais. É exaltar a obra e não o nome: uma escolha bem tênue, pra ser sincero.

Pro livro A Senhora da Magia (e somente por ele, não mais pela autora), dei 4 oclinhos.

As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia
Edição de 2008 da Imago
ISBN: 9788531210372
248 páginas
Skoob | Goodreads

***

Como ainda não terminei os outros, vou deixar pra comentar algo só quando tudo estiver marcado como 100% lá pelo Skoob. Tal hora a gente conversa sobre eles de novo. Mas não vou deixar o Mulheres para Ler de lado. As metas de março já estão automaticamente elegidas ao mês de abril. E agora que o Desfalk tem parceria com a editora DarkSide Books, vai ter muito material interessante da caveirinha por aqui. Só esperar, ok?

 

***

Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.
COMENTE AQUI!

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

2 Responses to Fevereiro, março e a saga do fracasso

  1. Eu até comecei uma série no blog sobre como planejar as leituras, mas não tem jeito, acontece isso mesmo: a gente planeja e não consegue ler tudo o que queria, né?
    Amo o terceiro HP, é um dos meus preferidos da série. E já li As Brumas de Avalon, todos eles, mas não sabia dessa história do abuso. Mais que isso, acho difícil separar a obra do autor e se soubesse hoje, provavelmente não leria. Pode não ter nada a ver para muita gente, mas eu pessoalmente não consigo.
    Beijos
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

    • Falkner disse:

      Pelo menos a gente ainda TENTA se organizar, né? Hahaha

      Pois é, é muito complicado separar obra de autor. Vou tentar passar por essa experiência, mas com certeza o problema do abuso vai ser sempre aquela vozinha no fundo da mente. E faz bem que esteja mesmo, tanto nesse caso quanto em tantos outros. Até agora não engoli Johnny Depp no Animais Fantásticos, mas eu tenho uma ligação muito forte com o que a J. K. Rowling faz. Se for pra consumir, então, que seja sempre o mais consciente possível. :\

Comente aqui!