In Literatura

A festa dos mortos de Yangsze Choo

Minhas referências são contemporâneas demais pra afirmar algo com 100% de certeza, mas definitivamente não foi Tim Burton quem popularizou a estética dos vivos infelizes / mortos alegres. Desde 1988 com Os Fantasmas se Divertem, passando pelo stop-motion manual Estranho Mundo de Jack de 1993 e chegando na era digital do stop-motion de 2005, Noiva Cadáver, o tema se repete: os vivos estão sempre dramatizando vivências simplórias, enquanto os mortos celebram a nova forma de vida.

Daqui a pouco a gente leva a conversa pro oriente, por isso já é bom ir dando o play aqui.

Além de Tim Burton, o mexicano Guillermo del Toro é outro desbravador na temática da fantasia dark. Hellboy é só o começo de uma estética que foi aperfeiçoada em O Labirinto do Fauno (2006) e em Festa no Céu (2014), nos quais o mundo fantástico, por mais obscuro que seja, é cheio de vida, alegria, surpresas e cores vibrantes, enquanto o mundo real é assim… meio pombo, sabe?

>> Sinopse fantasma
>> Background
>> Entre os mortos
>> Corrupção
>> Altos e baixos
>> Morte e vida
>> O juízo final

Deu pra perceber que esse tema (pelo menos na minha vivência) é bem voltado pro audiovisual, né? Pois foi com surpresa que, há algum tempo, vi o livro A Noiva Fantasma, de Yangsze Choo, publicado no Brasil em 2015 pela DarkSide Books. Deixei esse livro na minha lista de desejos por um bom tempo (um boooooom tempo!), até que bateu a ânsia (quase um desespero, na verdade) por conhecer essa história.

Sinopse fantasma

Li Lan é uma adolescente na Malaia de 1893 (atual território de Malásia e Cingapura), um momento de incertezas culturais por conta da colonização britânica por toda Ásia. A garota sobreviveu a uma epidemia de varíola quando ainda era uma criança, epidemia à qual a mãe sucumbiu e o pai passou a carregar as cicatrizes da doença.

Desde o incidente, o prestígio social da família de Li Lan foi caindo no esquecimento e o acordo de casamento para Li Lan acabou sendo desfeito pelas poucas condições econômicas da família. Também pela falta de contatos, a única opção que o pai de Li Lan encontra é casá-la com o rapaz de uma família rica. O detalhe: ele já está morto. O acordo, no entanto, traria todas as regalias sociais e econômicas a Li Lan e ao pai, que poderia quitar as dívidas.

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É óbvio que a simples sugestão do casamento deixa Li Lan apavorada. Principalmente quando o noivo, Lim Tian Ching, começa a aparecer em seus sonhos. Li Lan se recusa a dormir e vai atrás dos métodos mais esotéricos possíveis, se consultando, inclusive, com uma médium. Ao seguir um dos conselhos da médium, Li Lan acaba entrando em coma e inicia uma experiência astral, vagando pelo mundo dos vivos e, claro, pelas terras dos mortos.

Background

Pela sinopse e pelas resenhas não fica evidente se essa obra realmente aponta pra uma interpretação dark com base fantástica e religiosa / cultural. O que soou interessante pra mim foi justamente uma perspectiva não-ocidental da morte e do além, a partir de crenças e mitos fora do catolicismo.

Yangsze Choo é malaia de descendência chinesa e acabou radicada na Califórnia, nos Estados Unidos, onde estudou e mora atualmente. Quase uma cidadã global, ela escreveu seu primeiro livro, The Ghost Bride (no Brasil, A Noiva Fantasma), com base na tradição chinesa de acalmar espíritos ou reconstituir laços entre familiares a partir do casamento do vivo com o morto, que tem um histórico bem mais antigo que a cultura milenar da China.

Aqui, as chinesas não precisam amarrar os pés. Na verdade, as outras etnias viam os pés amarrados como algo estranho e feio, que aleijava as mulheres e as deixava inválidas para o trabalho no lar.” – p. 15

Essa base surgiu à autora em sua tese acadêmica na qual abordou opressão feminina, especificamente o papel de fantasmas femininos nas culturas asiáticas. É um detalhe que permeia vários detalhes da trama, da personagem central, Li Lan, passando pela sua amah (espécie de governanta, mulheres que se dedicam à educação social de meninas) e terminando em Fan, um dos espíritos de destaque na estória.

Todas as amahs economizavam seus salários para a aposentadoria. Elas eram uma classe especial de empregadas (…) Algumas eram solteiras que haviam se recusado a casar, outras eram viúvas sem filhos e que não tinham outros meios de se manter.” – p. 32

Entre os mortos

Ainda que a premissa do livro seja o ritual do casamento fantasma, a narrativa amplia os horizontes quando começa a discorrer sobre o mundo dos mortos. Misturando elementos folclóricos, religiosos e fantásticos, Yangsze apresenta ao leitor uma percepção bem diferente da morte, mais como uma segunda vida do que propriamente uma inexistência.

Em culturas asiáticas, quando alguém morre, família e amigos podem realizar oferendas ao espírito de quem se foi, queimando bonecos de papel ou madeira e até dedicando comidas em altares sagrados. Dessa forma, é bem estranho (absurdamente estranho, pra ser sincero) ver Li Lan e outros espíritos vagando no plano físico comendo essas oferendas, sentindo gostos e odores, além de serem sentidos na matéria física, movendo papéis e folhas de plantas e deixando rastros na areia.

Talvez fosse solitário, no além. Ou talvez os que se arrastavam por tempo demais eram aqueles que não conseguiam se desprender.” – p. 187

Enquanto no plano dos vivos os espíritos vão perdendo força e têm energia vital sugada, ao atravessar os Portais do Inferno, o fantasma recobra a sua essência física e interage com tudo ao seu redor. Por isso que acaba soando mais distante ainda a narração da existência física dos espíritos na Planície dos Mortos, onde eles literalmente cozinham, temperam e comem o porco, o peixe e outras oferendas. Além de se alimentarem, os espíritos de Choo se mantêm presos às vontades físicas, como o sexo, e sentem dor, se machucam e necessitam de tempo para se recuperar.

Corrupção

É justamente nessa Planície dos Mortos onde os espíritos aguardam para serem chamados pelas Cortes do Inferno. Lá, serão julgados pelos pecados que cometeu em vida. De acordo com a mitologia e chinesa, existem 10 cortes, cada qual lidando com determinados tipos de pecado e todas submetendo as almas presentes a castigos. (Clique aqui e veja imagens de um parque temático, na Singapura, com representações dos juízes e das torturas realizadas – as imagens são fortes e podem ativar gatilhos emocionais, então optei por não postar aqui, apenas essa a seguir, representando um dos Portões do Inferno.)

São esses castigos, semelhante a torturas, que todos temem na estória de Yangsze, e o medo é tão grande que incentiva a permanência do espírito no plano físico e na Planície dos Mortos. Através de acordos, chantagens e pagamentos aos juízes e aos demônios do lugar, espíritos com as devidas condições conseguem aproveitar dos prazeres físicos na Planície dos Mortos, adiando o seu julgamento por tempo indeterminado e, consequentemente, o retorno ao plano físico em outra vida.

Choo menciona um espírito que posterga a sua ida às Cortes há mais de 200 anos. Daí podemos considerar que a meritocracia, num sentido mais amplo, envolvendo nomes de família e posses, afetam claramente o bem estar de alguém numa existência não-física. Afinal, quem teria bens suficientes pra subornar um juiz no inferno oriental? Poucos, bem poucos, obviamente...

Altos e baixos

A narrativa de Yangsze em seu primeiro livro é bastante desnivelada. A obra não chega a fazer o coração acelerar, despertar suspense, muito menos o sentimento de terror, o que pode decepcionar algumas pessoas que esperam por esse tipo de abordagem. Os momentos que mais cativam são os detalhes da narrativa, como algumas lendas e histórico de elementos culturais.

Meu amado fez com que eu me livrasse do bebê. Disse que ela nunca se casaria com ele, se ele tivesse um bastardo. Você sabe o que é ter um filho arrancado de seu corpo? Gritei tanto que não pude falar por vários dias.” – p. 188

Yangsze opta por não seguir uma estrutura rígida da Jornada do Herói, por mais que hajam idas e vindas entre mundos caóticos. Não existe um propósito fixo ou um problema imediato a ser resolvido por Li Lan. De início, ela só quer escapar de Lim Tian Ching; noutro, ela quer descobrir se Tian Bai é um assassino; em outro momento, ela se empenha em buscar a mãe falecida.

Da mesma forma que as finalidades da jornada fantástica é dispersa, também não existe um vilão. Lim Tian Ching assume esse aspecto no começo, mas perde esse posto para uma aventura ausente de vilões, até que outros personagens obscuros vão cruzando o caminho de Li Lan e tomando para si o papel de antagonista.

Em minha breve existência fora do corpo, eu era invariavelmente recepcionada com total descortesia. Talvez fosse menos por este ser um mundo fantasma do que pelo fato de eu não ser nada mais que um espírito errante, praticamente uma mendiga, na verdade.” – p. 204

Outro ponto positivo, reafirmando a intenção de Choo em contar essa história, revelam as fantasmas femininas como mais assombrosas que espíritos de homens. Fan, por exemplo, é uma fantasma que, de início, ajuda Li Lan, mas que vai despertando um lado obscuro na sua personalidade ao demonstrar como atormenta o antigo esposo e, principalmente (SPOILER SPOILER SPOILER), ao se tornar a principal vilã da estória, mais ao final da narrativa, por tomar o corpo de Li Lan para si, a fim de aproveitar uma nova vida de prazeres físicos.

Morte e vida

Yangsze Choo revela delicadeza nas escolhas narrativas e instiga a leitura por motivos abstratos, como lendas e curiosidades, enquanto o objetivo principal acaba se dispersando. Li Lan não me soou cativante como eu gostaria e a simpatia por ela me surgiu apenas nas últimas 100 páginas.

Alguns detalhes na edição também chamam a atenção aos olhares espertos. E infelizmente são motivos negativos: são alguns erros de revisão (nada que prejudique a leitura!), como acentuação e grafia, além das escolhas de algumas palavras e construções frasais, que pode ser um detalhe de revisão ou de tradução. (Só pra você saberem, sou parceiro da DarkSide Books nesse ano de 2017 e, por isso mesmo, me sinto na obrigação de expor esse probleminha, assim como repassar pra editora esses erros que encontrei, afinal é algo que pode ser refeito e solucionado numa reimpressão do livro.)

A capa da edição da Darkside me agrada e desagrada. Não crio muito interesse por capas com pessoas, e a capa de A Noiva Fantasma me parece um tanto bizarra porque é justamente uma mistura de imagem real com ilustração. Pode ter sido a intenção, né? Pelo menos tem aquele toque gostoso do material emborrachado. Por dentro, a diagramação é razoável, agrada e flui bem.

Os elementos gráficos, diga-se de passagem, são um tanto literais para relacionar com culturas asiáticas. Aquele pássaro de papel que todo mundo tenta fazer quando vai aprender origami se chama Tsuru e é meio estranho que ele esteja aqui: que eu saiba, Tsuru é um elemento da cultura japonesa, e não da chinesa. Funciona, no fim das contas, é bonitinho e, no geral, agrada aos olhos com os elementos da folha de guarda.

O juízo final

Foi uma leitura carregada mas que, no fim, bateu a vontade que não acabasse, que tivesse só mais um tantinho de páginas. Nesse livro ficou claro que Yangsze era uma escritora iniciante, mas apenas pela estrutura narrativa que ela escolheu, porque de imaginação… ela tem de sobra! Que venham outras obras dela pra gente ficar fissurado pela cultura chinesa. A Noiva Fantasma fica aqui, pela estória e pela edição, com 3 oclinhos.

A Noiva Fantasma
Título original: The Ghost Bride
Edição de 2015 da DarkSide Books
ISBN: 9788566636277
360 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

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