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Família, amizade e autoconhecimento em Fisheye, de Kamile Girão

É raro que um livro converse especificamente com a sua história de vida. Pelo menos pra mim. Vemos a todo momento novelas que se apresentam como reflexo da realidade, ou tentam se vender como isso, à parte de toda espetacularização dos dramas. E logo na ânsia do mercado editorial em produzir ficção científica e fantasia em massa, é raro dar de cara com um livro que reflete a verdade que a gente sente na vida de um conhecido. Por isso que vim falar de Fisheye, da escritora Kamile Girão.

Essa playlist aqui foi feita pela própria autora e, na boa, descreve muito bem todo o contexto do livro. Taca o play:

Se tem algo que caracteriza bem todo o projeto Fisheye, esse adjetivo é ousadia. Não tem como dizer de outra forma. Kamile se empenhou num trabalho intenso que durou 4 anos, dividido em imersão na pesquisa com médicos especialistas, conversas, grupos no Facebook, elaboração de roteiro, escrita, revisão e plano de divulgação para o financiamento coletivo. Sim, esse livro é um dos filhos da onda crowdfunding, e ganhou lar sob o selo da editora Wish.

>> Ravena Patricinha e Geek
>> Nostalgia em exercício
>> Relevância única
>> Um último aspecto
>> Sobre Kamile

O financiamento foi sucesso, superou a meta estabelecida e resultou nesse livro lindo, todo delicado, com uma diagramação impecável e um trabalho gráfico excepcional. Já contei aqui no Desfalk todo o histórico dele e como foi conhecer a Kamile, mãe dessa criança bonitona, na Bienal do Livro do Ceará.

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Ravena Patricinha e Geek

 

Quem é que não tem uma casca? Eu tenho. Você tem. Ravena Sombra, a protagonista de Fisheye, também tem, até demais! Ela se apresenta ao leitor (e a todos à volta dela) como uma menina mimada de 16 anos buscando aprovação de tudo e de todos. Riquinha, perfeita, a popular da escola que tá pegando o cara mais gato, e ninguém conhece Ravena muito além disso.

Talvez, nem o melhor amigo dela, Maicon, conheça ela de maneira completa e verdadeira. Claro, eles são íntimos e dividem todas as vivências, mas até que ponto existe a Ravena popularzinha? Porque até em casa, com os pais, existe um véu sobre a verdadeira personalidade da moça.

Para sobreviver em um mundo de aparências, é necessário obedecer às regras impostas.” – p. 25

O quarto dela é seu nirvana, um espaço neutro de paz e estabilidade onde ela tira essa máscara e deixa Vena debulhar sua essência. E é essa garota que gosta de fotografar com uma Polaroid, que curte The Beatles e idolatra Fleetwood Mac e, óbvio, Stivie Nicks. A essa Ravena, poucos têm acesso. E a quem podemos culpar essa fachada, se nós mesmos somos adeptos dela? É partindo desse reconhecimento desconfortável que a estória começa a nos tocar e causar simpatia.

Nostalgia em exercício

Aos 16 anos, Ravena está às beiras do vestibular e passa por situações delicadas com o pai que tem uma amante e a mãe inerte a qualquer estímulo. Descobrir-se deficiente visual neste momento é um impacto muito maior do que o esperado. Em pânico, ela se fecha num mundo próprio cheio de dor e angústia, se afasta de amigos e fica mais ausente ainda do ambiente familiar.

Um holofote de luz forte e branca foi ligado. A claridade foi tudo que meus olhos conseguiram captar e, por longos e desesperadores instantes, eu me senti completamente cega.” – p. 23

Kamile descreve a retinose pigmentar de Ravena de forma primorosa, tanto que é bem capaz de sentirmos nossa visão encurtar um tiquinho. Tudo é descrito de forma extremamente crível, sensível e respeitosa, sem expor a personagem a momentos sem noção e impossíveis de acontecer… Sim, isso foi uma indireta ao John Green inventando ONGs e viagens e garotos perfeitos em A Culpa é das Estrelas.

Fisheye é sick-lit (subgênero traduzido como “literatura de doenças”), popularizada justamente pelo bendito John Green. Mas não quer dizer que temos aqui uma vitimização desnecessária, um coitadismo da protagonista. Não, o negócio aqui é sério. Toda a pesquisa real envolvida pra elaborar o livro se reflete na descrição minuciosa dos sintomas da doença em Ravena.

Era esquisito perceber que o belo e o horrível podiam habitar a mesma pele e montar a feição da mesma pessoa.” – p. 54

Alguém bem importante pro desenvolvimento de Ravena é Daniel, um cara mais velho que tem queimaduras extremamente marcantes no rosto. Ele passa serenidade e encanto para Ravena e acaba se tornando um catalisador de transformações na vida dela. Aos poucos, Vena vai progredindo por si em termos de aceitação e de perceber alegria em pequenos detalhes do dia.

Relevância única

Além de nos fazer conhecer uma doença fora da espetacularização midiática, Kamile nos entrega de mão beijada uma dose de problemas familiares, conflitos adolescentes e homossexualidade. Maicon, o melhor amigo de Ravena, é gay e responsável por uma das cenas mais emocionantes das 311 páginas de estória. (O parágrafo a seguir pode conter SPOILER, então proceda com cautela.)

Ravena havia passado um bom tempo afastada de Maicon. O rapaz ainda não sabia do leve problema com a retinose pigmentar e, quando Ravena decide contar ao seu amigo sobre a doença, ele também revela e reafirma sua sexualidade. A delicadeza e a força dessa passagem cabe justamente na forma como tudo acontece. Não existe julgamento nem problematização, além de compreensão, respeito e empatia.

Não vou te julgar se você quiser usar o gênero correto para se referir a esse alguém – afirmei, olhando-o nos olhos. – Você sabe, não sabe?” – p. 123

Sabe por que isso é bacana? Porque tem gente que não aguenta o tranco de ter amigo viado, pensando que é sinônimo de problema. Tem quem se afaste e esqueça da existência de colegas gays, lésbicas e trans depois que saem do armário. Se saímos do armário não é pra entregar fardo pra ninguém, é apenas pra aliviar o nosso. Eu passei por isso e não fui o único. E o mesmo vale para o contrário: Maicon oferece todo amparo à Ravena num momento complexo, confuso e assustador. Tudo é recíproco por aqui, e é aí onde habita a força de uma relação fraterna sincera.

Um último aspecto

Uma das outras belezas desse livro é a localização. Por mais que o local da estória não seja nomeado, quem é de Fortaleza percebe alguns ambientes da cidade transpostos para as páginas. Kamile foi singela e cuidadosa em deixar esses easter eggs, trazendo a essência da Beira-Mar, a proximidade do Centro com a praia, cafés e boates populares. Uma pequena homenagem a quem vive, transpira e respira essa cidade mixada em belle époque e pós-modernidade.

Talvez eu seja mesmo uma espécie de fisheye, como você falou. Uma fisheye que tenta ser uma Polaroid, querendo registrar tudo de imediato porque tem medo de não poder fazer mais registros.” – p. 243

Fisheye termina desenhando uma figura sensível ao toque. Tal qual Picasso, que tanto influenciou as artes plásticas em tela e em escultura, Kamile pincelou uma estória àspera, pra ser habitada e sentida por mais de um sentido. Entretanto, além da apresentação de alguns personagens muito concentrada no início, senti falta da conclusão de alguns deles, mesmo sendo secundários. Por isso mesmo, Fisheye fica com 4 oclinhos.

Fisheye
Edição de 2017 da editora Wish

ISBN: 9788567566061
316 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: editora Wish | Loja da Kamile

Sobre Kamile

Kamile Girão é cearense e tem outros 2 livros publicados, Yume e Outubro. É designer gráfica formada pela Faculdade 7 de Setembro (Centro Universitário 7 de Setembro) e, agora, estudante de Letras Português-Inglês na Universidade Federal do Ceará. No mercado, atua como revisora e integra a equipe (toda feminina, diga-se de passagem) da Editora Wish. Enquanto novos projetos caminham, você pode acompanhar o que ela faz em:

Site www.kamilegirao.com
Instagram @kamigir
Facebook Kamile Girão

Ah, e Kami é parceira do Desfalk (mas comprei o livro na época do financiamento, porque nois tem que incentivar o trabalho dos migos mesmo). 💜

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7 Responses to Família, amizade e autoconhecimento em Fisheye, de Kamile Girão

  1. Thaisa disse:

    Olá!
    Fiquei muito curiosa para ler esse livro, que parece ser aquele que te faz refletir. A capa é muito bonita e adorei em saber que é uma autora nacional.
    Obrigada pela dica!
    Beijos

  2. Alice Martins disse:

    Olá, tudo bem?

    Não conhecia a autora e seu livro, mas fui totalmente envolvida, a começar pela capa que é simplesmente divina. Eu adoro livros que trazem uma doença como pano de fundo, pois sempre é uma oportunidade de descobrir mais sobre assuntos que para mim ainda são ocultos. Imagino que essa máscara que a personagem criou durante toda sua vida foi moldando-a e assim irá fazendo durante o seu problema de saúde. Me parece uma história linda e que me deixou bem curiosa. Parabéns pela resenha maravilhosa!

    Beijos!

  3. Oi, Falkner! Bom, você sabe que também sou parceira da Kami e como ainda estou lendo o livro, pulei a parte do spoiler. Mas amei ler as suas opiniões sobre a obra e seus personagens. Acho que vou curtir bastante essa leitura!
    Beijos
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

  4. causoseprosas disse:

    Fiquei bem interessada na premissa da história. Parece ser o tipo de livro que te faz refletir bastante. Sendo de autora nacional me conquistou de vez.

    Bjos

  5. Thayama Matos disse:

    Achei um máximo a ideia da playlist. Já vou correndo no spotfy pra conferir.
    No mais, super amei sua resenha e, tô apaixonada por essa capa, que coisa mais linda!

  6. – Que legal! Um livro com playlist, deve ser uma emoção e tanto ler e ouvir como se fosse um filme descrevendo a sua vida, muito interessante e suas palavras são bem argumentadas referente ao livro, amei a resenha.
    beijos

  7. Kamile Girão disse:

    Eu tô meio boba, meio em transe, meio sem saber como expressar o quanto essa resenha mexeu comigo. O divertido de escrever é ver como nosso trabalho impacta as outras pessoas, como os leitores enxergam o que fizemos. Acho que nunca vou esquecer, Falk, dos seus olhos meio marejados quando tu me falou sobre a cena entre Mick e Vena no café. É o tipo de coisa que valida um dia, uma semana, um ano!
    Acho que não vou conseguir falar nada além de obrigada, obrigada e obrigada <3
    E, no mais, "é nóis que voa!"
    s2

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