In Literatura

Enganado por Ransom Riggs e um bando de Crianças Peculiares

Tim Burton sempre traz alguma essência juvenil e inocente às suas produções. O probleminha surge quando ele extrapola os limites etários e entrega um trabalho mais infantilizado que o familiar juvenil-grotesco de Edward Mãos de Tesoura. Me irrita bastante, portanto, que tenha sido ele o responsável pela adaptação do livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares (editora Leya, 2011) – agora, O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares (Intrínseca, 2016). Eis que justificarei os motivos partindo das percepções do próprio livro.

A playlist do dia tá toda vintage. Vibes de viagem no tempo, né?

Jacob Portamn sempre ouviu histórias absurdas do seu avô Abe da época da 2ª Guerra Mundial. As contações envolvia um casarão numa ilha onde viviam crianças fugidas da guerra, e essas crianças possuíam características que as tornavam únicas: uma menina voa, um outro rapaz tem força descomunal, outra moça controla fogo com as mãos, e tudo sempre regadas a várias fotos estranhas desses jovens mostrando suas habilidades.

Claro que isso seria apenas fantasia, certo? Errado! Um acontecimento inesperado impele Jacob a investigar o passado do avô. Aos poucos, ele vai descobrindo que era tudo verdade e, o mais inacreditável de tudo é quando Jacob se vê rodeado por essas pessoas que viveram há décadas atrás.

Observação: todas as sinopses desse livro, seja pela Intrínseca, pela Leya ou até pela editora americana Quirk, entregam as primeiras 100 páginas do livro numa boa! Isso é uma falha enorme, contando, numa boa, os primeiros plot twists da estória. É meio ridículo isso, levando em consideração que a estrutura proposta por Ransom Riggs não distribui muito bem as informações importantes e as reviravoltas.

Premissa impecável

Temos aqui um livro que monta sua narrativa a partir de fotografias estranhas coletadas pelo autor Ransom Riggs. Todas elas são autênticas (pelo menos é o que o escritor diz), e por autenticidade entendo que não são manipuladas por softwares de edição gráfica, porque dá pra perceber muito bem que todas sofreram algum tipo de edição na hora da captura ou posteriormente, sem uso de artifícios digitais.

A partir dessas fotos, a fantasia ganha vida. É bem interessante ver a criatividade de Ransom Riggs aflorando e criando lendas, mitos e narrativas instigantes a cada uma das fotos. Isso não é exatamente original, afinal muitos cronistas fazem exatamente isso: pegam um pequeno acontecimento passado e criam uma narrativa reflexiva, real ou fictícia.

Inclusive, há alguns anos, existia um blog no qual o cara recebia várias fotos dos leitores e criava crônicas, contos e poemas tendo a foto como base. Infelizmente não lembro do nome do blog e acredito que nem esteja online atualmente. De toda forma, essa maneira de criar é delicada e instiga o leitor a saber tudo que o autor pensa sobre aquela imagem.

Nem tudo são fotos

Eu passaria dias a fio se fossem, simplesmente, pequenos contos com base nas fotos. Isso porque, quando a narrativa de Crianças Peculiares se distancia das imagens, ela se perde. Sem fotos, parece que Riggs não encontrou um fio narrativo a ser conduzido de forma independente e os acontecimentos ficam dispersos e confusos e todo o livro fica, de repente, desinteressante.

Minha leitura desse livro foi na edição em inglês e se prolongou por 2 meses. Dois longos meses de sofrimento, porque eu não conseguia engatar a leitura de forma a ler mais de 20 minutos seguidos por dia. E o problema começa já com a escolha narrativa do autor: pra uma estória ambiciosa como essa, cheia de nuances, falta uma perspectiva que não seja a do Jacob.

Por isso mesmo que a narração em primeira pessoa é exaustiva e desafiante para o leitor. Desafiante num mal sentido: estamos presos na visão de Jacob, um adolescente mimado e arrogante, carente de atenção ao mesmo tempo que sociável com as pessoas que ele nutre interesse. Tem muito orgulho e prepotência em cada palavra de Jacob, e isso fica claro desde muito antes do seu momento de luto, então sua perda familiar não é motivo pra agir da maneira que ele age.

Explicações meia-boca

Minha decisão por ler em inglês veio justamente da insistência de todos os booktubers apontarem a linguagem infantilizada, mesmo que o protagonista seja adolescente. Achei que, lendo no original, pudesse ter uma experiência mais agradável e me importaria menos com os deslizes narrativos do autor. Só que não.

Quando Jacob encontra a tal fenda para a dimensão temporal da década de 1940, onde as tais crianças peculiares revivem o mesmo dia dessa época, a sensação é que entramos no País das Maravilhas. Ocorre aquela velha estranheza dos nativos em relação a Jacob e suas roupas, situação já explorada em tantos livros e filmes por aí que envolvem viagem no tempo.

Aliás, a explicação para a permanência dessa fenda temporal é bastante imprecisa. Alma Peregrine é a responsável por essa fenda. Ela é uma peculiar, que possui poderes assim como as crianças das quais cuida e, entre todos os personagens, é a mais interessante. Mas Riggs desperdiça todas as aparições dela investindo na contação de um passado desimportante entre Alma Peregrine e Abe, o avô de Jacob.

Desinteressante também são os beijinhos que Jacob troca pelo caminho. Enquanto o mundo vai acabando em drama e caos, não acredito que o leitor, de forma geral, vá querer saber de casinho amoroso, de quem tá perdidamente apaixonado por quem. Todo o enchimento de linguiça poderia ter sido transformado em esforço pra encorpar a densidade desse mundo, por exemplo. Sou palpiteiro SIM e acredito que tudo poderia ter sido melhor apresentado.

Plot twist?

Alma Peregrine não é a única adulta no livro. Também temos os pais e o psicólogo de Jacob. A negligência cai também sobre eles. Lembra do desenho Tom e Jerry, nos momentos em que aparecia algum adulto e a tela só mostrava eles da cintura para baixo? Pronto, foi assim que senti a descrição desses adultos na escrita de Riggs. São caricatos e frígidos, sem preocupações, inertes a qualquer possibilidade emotiva.

As reviravoltas na estória até incluem um adulto, o vilão desse primeiro livro das Crianças Peculiares. Mas me incomoda a forma como isso acontece. Repentino, sem profundidade, com poucas explicações. Tudo parece acontecer após simplesmente brotar do chão e as justificativas são pífias e risíveis. O vilão não soa bem. A revelação da trama e da conspiração existente no mundo dos Peculiares não instiga, muito menos surpreende.

Ler ou não ler

Com personagens frígidos e pouco carismáticos, Riggs lançou ao mundo um sucesso duvidoso, construído para ser consumido e comercializado. Não haveria problema nisso, não fossem as sensações de falha, as necessidades em retornar páginas para lembrar o que aconteceu. Eu torci para que fosse uma experiência agradável de leitura, envolvendo fotografias e mistério. Não foi.

Hoje fico pensando se eu não tava exigindo demais da leitura. Mas quando eu vejo quantas evidências existem de que Ransom Riggs simplesmente deixou a mão correr de jeito totalmente descontrolado, eu fico em paz. Não vou avançar na leitura da série tão cedo, nem vou insistir em ver o filme, que abandonei com 30 minutos de tela depois de perceber que, o que já era infantil, ficou ainda mais infantilizado nas mãos de Burton, e nenhum problema do livro foi solucionado ou parece ter recebido atenção no filme. Vou gastar fôlego pra quê, então?! Não sou obrigado.

1 oclinho pela edição linda + 1 oclinho pela ideia das fotografias = 2 estrelinhas para Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children.

 

Observação 2: A edição da Intrínseca, em capa dura, é praticamente a cópia da edição americana da Quirk. Todas as fotos estão presentes, as páginas tem uma leve coloração de papel velho. Mas não, não é Pólen.

O Lar das Srta. Peregrine para Crianças Peculiares
Título original: Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children
Lido na edição de 2011 da Quirk Books
ISBN: 9781594744761
348 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR – edição em inglês – edição em português

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