In Literatura

Elitismo e academicismo, e a literatura na palavra da mulher negra da favela

Foi em 2011 quando comecei a ter contato com a vida acadêmica. Entrei na Universidade Federal do Ceará no curso de Ciências Sociais e me esbanjei na Antropologia e na Sociologia. Batia-se muito na tecla de “é importante ler clássicos” e lembro até de um ou dois textos cedidos pelos professores reforçando que, em relação a Marx, Weber, Durkheim, Kuper, Lévi-Strauss, Maquiavel… em todos eles, era essencial lê-los em suas próprias vozes, e não comentados por outros pesquisadores.

Acontece que um contato forçado com esses grandes pensadores é um tanto… bruto demais. Nem todos assimilam as ideias desses caras de primeira e é necessário e essencial que haja um catalisador, um intermediador nesse processo de aprendizado. Quando li Um Toque de Clássicos, de Tânia Quintaneiro, (PDF disponível na internet) foi instantâneo o meu entendimento do pensamento de Durkheim, que era um tanto travado para mim ao ler As Regras do Método Sociológico, do próprio Durkheim.

>> Clássicos na Literatura
>> Que elitismo é esse?
>> O caso de Carolina de Jesus
>> Leitura extra

Um dos textos que citei anteriormente é Por que ler os clássicos, do Ítalo Calvino (também com PDF disponível na internet e livro físico na Amazon BR). Propondo algumas definições para o que, afinal, pode ser considerado um clássico, Calvino expõe o que eu considero o cerne desse pensamento todo:

Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado.” – p. 10

Ou seja, antes de falar que Fulano de Tal é clássico porque é base de um estudo, porque é antigo, porque é berço filosófico, vale considerar se a pessoa em questão condensa o que você, de fato, pensa sobre o assunto. Na faculdade, por mais que os professores nos empurrem goela abaixo os clássicos deles, a gente vai pegando uma lasquinha de cada um pra ir montando o nosso próprio repertório, com a nossa lista de clássicos dos assuntos que nos interessam.

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Clássicos na Literatura

Como temos contato com a Literatura desde cedo, é mais acessível que a gente tenha noção dos clássicos literários. Na escola, ouvimos falar de Machado de Assis, José de Alencar, Jane Austen, as irmãs Brontë, Shakespeare, Victor Hugo e Homero. No comecinho dos estudos, lemos adaptações lindas de Ruth Rocha e Ana Maria Machado. Depois, somos encorajados (na verdade, forçados) a ler esses autores na íntegra, principalmente os nacionais, pra que a gente identifique as marcações do momento literário de cada um.

É isso que acontece. Mas não é como a maioria dos estudantes recebem. Porque não é atrativo ler uma linguagem que não é usada num espaço de tempo entre décadas e séculos. Porque boa parte dessa literatura não vai contribuir tanto assim para o repertório do estudante naquele momento. E isso pode ser questão de timing, pois como o próprio Calvino falou:

(…) ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura na juventude.” – p. 10

A maturidade psicológica e “estudiosa” só dedica atenção real e definitiva a esse tipo de literatura quando estamos pra lá dos 20 anos. Até lá, cai no velho discurso da leitura por obrigação e da falta de interesse dos currículos escolares em tornar a leitura um hábito cotidiano acessível.

Que elitismo é esse?

Vamos fazer jus ao título do post, né? Dia desses, um Beltraninho abriu uma discussão no grupo do Wattpad no Facebook. Wattpad é uma plataforma onde pessoas publicam textos, profissionais ou não, submetendo esse trabalho à opinião dos leitores. É uma das grandes formas que os escritores iniciantes têm de ganhar confiança no seu trabalho, recebendo constante feedback de quem lê.

Enfim, o cara falou em vários caps lock que bom escritor precisa ler clássicos. E, por clássicos, ele quis dizer exatamente os autores que citei, de décadas e séculos atrás. E sabe por que isso é um pensamento nocivo? Porque é determinista e segregador, e dissemina a ideia de que, pra alcançar um patamar de sucesso, o escritor iniciante necessita ler e estudar nomes que, talvez, nem façam parte do seu próprio conjunto de clássicos. Trazendo Calvino mais uma vez:

O ‘seu’ clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.” – p. 13

Quer dizer, o cara chega, joga uma dessas e sai como se nada tivesse acontecido, e desconsidera que as pessoas têm vivências e repertórios diferentes. Se ela escreve bem ou mal, cabe aos leitores julgar. A criação de uma história envolvente não precisa estar relacionada à experiência do autor em ter lido Tolstói ou Dickens e pode, muito bem, ter base em James Dashner (Maze Runner) ou Mary E. Pearson (The Kiss of Deception).

O caso de Carolina de Jesus

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No dia dessa presepada, lembrei na hora da Carolina de Jesus. Ela foi uma escritora negra, de periferia que nasceu em 1914 em Minas Gerais e radicou-se em São Paulo. Mesmo tendo estudado durante pouco tempo na escola, Carolina se apegou à leitura. Em São Paulo, viveu na favela e escrevia, em forma de diários, a vivência e o cotidiano da vida em cadernos que encontrava no lixo. Quarto de despejo: Diário de uma favelada, de 1960, foi um dos diários de Carolina lançados como livro, que a impulsionou a ser publicada em mais de 20 países.

Atriz e escritora Elisa Lucinda

Em abril passado, dia 17, a Academia Carioca de Letras homenageou Carolina de Jesus. Estavam presentes no evento o cantor Martinho da Vila e a atriz e escritora Elisa Lucinda (que fez um relato do acontecimento, publicado no portal PublishNews). Eis que, no evento, tem a palavra o professor de literatura Ivan Cavalcanti de Proença. Com a primeira fala da homenagem, o professor afirma categoricamente: “Isso não é literatura.

Isso pode ser um diário e há inclusive o gênero, mas, definitivamente, isso não é literatura. Cheia de períodos curtos e pobres, Carolina, sem ser imagética, semi-analfabeta, não era capaz de fazer orações subordinadas, por isso esses períodos curtos.

Ou seja: como disse a própria Eliza Lucinda, no relato à PublisNews, ele parecia exigir de Carolina a rigidez e o domínio pleno da morfossintaxe portuguesa, o mais puro formalismo acadêmico para que Carolina fosse considerada literatura. Mais do posicionamento barato do tal professor: “É o relato natural e espontâneo de uma pessoa que não tinha condições de existir por completo. (…) Ouvi de muitos intelectuais paulistas: ‘Se essa mulher escreve, qualquer um pode escrever’.”

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Então tá, né? Vale lembrar que Virginia Woolf, Sylvia Plath, Tolstói, Anaïs Nin, Susan Sontag, todos escreveram diários e todos têm total relevância editorial, literária, artística e comercial. Afinal, qual a base desse cara pra dizer o que é literatura? Porque se ele afirma que diários não fazem parte desse nicho, ele também exclui boa parte das produções de vários autores, incluindo obras póstumas de milhares deles.

Ou será que isso é mais uma daqueles preconceitos mascarados de opinião? Eu aposto mais nessa opção, sinceramente. De toda forma, é bom que, de vez em quando, cheguem brutamontes desses pra falar as barbaridades da vida, pra que a gente lembre que tem gente alimentando esse tipo de pensamento mesquinho, hipócrita e segregador. Afinal de contas,

doutorado e Lattes não dizem nada sobre caráter.

 

***

Leitura extra

O número 23 da revista Conexão Literatura, edição desse mês de maio, destaca justamente a escritora Carolina Maria de Jesus, homenageando e celebrando sua vida e obra. Vale a pena a leitura, conhecer essa revista online de distribuição gratuita, assim como ler um tantinho a mais sobre a mulher negra de periferia que ganhou o mundo através das letras nos seus cadernos. Para outras edições, clique aqui.

Conexão Literatura – Nº 23

 

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2 Responses to Elitismo e academicismo, e a literatura na palavra da mulher negra da favela

  1. Kami Girão disse:

    Quero casar com este texto. Mas disso você sabe 😀
    Só uma ressalva (um pouco mais pessoal, pra ser sincera): acho que o bom escritor deve ler – muito e de tudo. Não deve desprezar nem o contemporâneo (que conversa com nosso tempo), e nem os clássicos (que já se eternizaram e tem seu valor por várias razões). Escrever é um eterno aprendizado, então quanto mais leituras, mais experiências a gente traz para si.
    No mais, eu, como estudante de Letras, fiquei extremamente feliz em ver um texto que vai tão direto ao ponto. Se você não fosse do Jornalismo, juraria que já deu uma passeada no CH1 e percebeu o elitismo de lá.
    Um beijo grande, querido!

    • Falkner disse:

      Concordo contigo Kami! É bem verdade que a diversidade em leituras ajuda a compor um repertório mais amplo de possibilidades de escrita. É dessa forma que os escritores vão encontrando a própria voz. Acredito até que quanto mais leitura, mais individualidade na escrita. Só me preocupa ditar isso aos outros, sabe? Porque cada um busca suas experiências e suas referências. Se isso guiar para os clássicos, massa! Se não, tudo bem também.

      E o elitismo é em todo canto viu? No Jornalismo tem demais, é uma pregação quase religiosa de alguns nomes. Na Ciências Sociais também, e pior: foda os básicos que citei aqui, tem alguns mega inacessíveis e com livros caríssimos (isso quando são traduzidos). Enfim, é um problema bem amplo em questão de acessibilidade também…

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