In Literatura

Elas leem, elas indicam

Março foi intenso de descobertas e reflexões. Me engajei na proposta dos projetos Mulheres Para Ler e Leia Mulheres pra que me servisse de incentivo e me motivasse a ler mais. E não só pra ler mais durante o mês, mas pra ler mais livros escritos por mulheres.

Durante essa minha saga pelos livros, me apeguei só a alguns nomes de escritoras: J. K. Rowling, Clarice Lispector e Hilda Hilst. Delas, eu li bem mais que um só livro. Mas isso é pouco, principalmente se a gente for comparar ao número de escritores homens que têm na nossa estante: muito provavelmente, essa proporção vai pender mais aos nomes masculinos.

De forma consciente ou inconsciente, a gente acaba consumindo mais trabalhos de homens. E a explicação pra isso podem ser inúmeras: falta de apoio de grandes editoras às escritoras, falta de destaque dos nomes femininos nas livrarias, a construção simbólica e disseminada entre nós do que é “literatura de mulher” e o que é, simplesmente, “literatura”.

Essa última razão eu tirei de uma postagem no grupo do Skoob no Facebook. Um fulaninho de tal perguntou o que as pessoas ali do grupo aprendiam ao ler um “bom” livro. Mas, pra ele, não valia uma leitura qualquer, teria que ser um livro de não-ficção que conte as verdades do mundo, e não fantasias. Só pra completar, o moço lá ainda desdenhou sobre o que as mulheres do grupo andavam lendo, e que provavelmente seriam só “livros de mulher”.

Mas então… o que é livro de mulher? E agora livro tem gênero? O que é esse livro de aprendizado? Quer dizer que a gente não pode ler ficção e tirar uma lição dali? Quer dizer que existe mesmo uma diferenciação tão forte de “literatura” e “literatura para mulheres”? Isso é absurdo de se pensar. Um raciocínio totalmente elitista que puxa muito daquela base escrota de “alta literatura”, e ainda adiciona algumas xícaras de machismo na receita. Em resposta a isso, vou deixar aqui um vídeo de 2016 da Iara Picolo, do canal Conto em Canto, que é do começo do projeto Mulheres para Ler.

Eu fico indignado com essas merdas, sério mesmo. Mas bora mudar de assunto e falar do que o mês de março de 2017 trouxe de bom. Realmente bom.

Aqui no Desfalk, decidi fazer o Mês das Mulheres: falar de artistas em várias nuances da produção cultural e de entretenimento. Dessa forma, fui atrás de conhecer novas escritoras, personagens, musicistas, roteiristas, diretoras de cinema, além da melhor parte de tudo isso: conversar com amigas e procurar inserir mais desse assunto em pauta no círculo de amizades. Ainda que o impacto seja só ao meu redor, já foi possível sentir uma mudançazinha.

Buscando mais nomes femininos na literatura, pude ver que nesse março tinha muita (MUITA!) gente lendo Mary E. Pearson, Xinran, Virginia Woolf, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rainbow Rowell, Chimamanda Ngozie Adichie, J. K. Rowling, Simone de Beauvoir e nossa… a lista só iria crescer mais se fosse uma pesquisa formal.

Como andei perguntando pra amigas e amigos o que eles andavam lendo naquele período, acabei decidindo por chamar algumas dessas amigas pra falar aqui sobre um livro incrível que impactou a vida delas de uma forma bem significativa. Olha aí 3 dessas indicações:

Clarissa Cidade indica

Mulheres que correm com os lobos
de Clarissa Pinkola Estés

Como uma boa simpatizante da psicologia analítica, a primeira coisa que me chamou atenção foi o fato da autora ser uma junguiana diplomada e cantadora. Eu estava me descobrindo feminista quando ganhei este livro de presente e devo dizer que foi uma longa jornada até terminá-lo.

Demorei exatamente um ano para mastigar tudo o que ia lendo, pegando cada pedaço, marcando e identificando pontos fortes que me tocavam muito. Foi um ano de autodescoberta e para entender que existe essa Mulher Selvagem dentro de cada uma de nós. Você não precisa estudar psicologia para se sentir tocada por esse livro. Basta receber cada conto como uma parte perdida sua e se jogar no olhar da Clarissa Pinkola, deixando-se levar nessa viagem sobre nós mesmas.

“Existe um ditado que diz: ‘É impossível voltar às origens.’ Não é verdade. Embora não se possa realmente voltar para dentro do útero, pode-se retornar ao lar da alma. E não é apenas possível; é indispensável.”
Mulheres que correm com os lobos
Edição de 2014 da Rocco
ISBN: 9788532529442
575 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Saraiva

 

Geórgia Oliveira indica

Americanah
de Chimamanda Ngozi Adichie

Lembro de ter passado o dia inteiro chorando quando terminei “Americanah”, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, dois meses depois de tê-lo iniciado. Há muito tempo não me sentia tão profundamente tocada por uma história, que é não só muito bem escrita, mas também incrivelmente complexa de um jeito fácil. A história de amor romântico entre Ifemelu e Obinze se conecta com a saga da personagem ao redescobrir o amor próprio.

São Ifemelu e sua história, que traduz também a história da autora, um retrato fiel, nu e cru, do que é ser uma mulher negra e imigrante em um país que constroi muros, que te torna indesejável e invisível e que te obriga a resgatar o próprio sentido da sua existência. E é essa a maior virtude de Chimamanda: falar, com a propriedade que lhe assiste, de todas as grandes questões sem deixar de produzir uma história forte e emocionante, que é com toda certeza um marco da literatura do século XXI.

Americanah
Edição de 2014 da Companhia das Letras
ISBN: 9788535924732
516 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

 

Thaís Fernandes indica

Reunião de poesia
de Adélia Prado

Esse é um livro que eu guardo com muito carinho. Nunca fui muito fã de poesia, mas comprei esse aqui por causa de um poema que dizia exatamente tudo o que um dia eu já quis dizer. Se chama “Para o Zé”. Mas eu mal sabia que eu ia encontrar tanta coisa linda e tanta coisa pura. E foi assim que nasceu um amor.

“Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis.” – Carlos Drummond de Andrade

Reunião de Poesia
Edição de 2013 da Best Bolso
ISBN: 9788577994038
224 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

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Às vezes aquele livro transformador tá bem pertinho da gente, só que deixamos passar batido. Se o que te impede em ter uma experiência literária diferente é o gênero da pessoa que escreveu o livro ou o próprio gênero literário daquele trabalho, você só está perdendo.

A melhor leitura da sua vida pode ser exatamente aquela que você tem tanto receio em ler. Pode ser um clássico ou algum new adult. Pode ser um romance espírita e pode ser um conto erótico. Pode ser poema e pode ser a Enciclopédia de Anatomia. Pode ser escrito por homem da mesma maneira que pode ser escrito por mulher.

Quem se dispõe a ler obras diferentes, quem vai atrás de títulos fora do eixo América – Europa, quem faz questão de comprar, divulgar, incentivar e recomendar livros escritos por mulheres: essas pessoas todas engrandecem o espírito e a mente.

Bora tentar ler mais mulheres, custa nada. Não precisa nem ser em homenagem ao 8 de março, pode ser durante o ano inteiro, durante a vida toda. Só não dá mesmo é pra esquecer que é justamente saindo da inércia que a surpresa acontece.

 

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Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

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