In Séries

Dobby, The Handmaid’s Tale e Violet Chachki: A reação dos oprimidos

Já parou pra pensar em quantas vezes a ficção foi reflexo da realidade? Novelas que trouxeram temas como descoberta e tratamento do câncer em Laços de Família (2001), violência doméstica entre pessoas casadas em Mulheres Apaixonadas (2003), e condição tetraplégica em Viver a Vida (2015) têm um papel importante em gerar reconhecimento nas pessoas. É dessa forma que alguns assuntos ganham visibilidade na mídia, geram campanhas por parte do governo e, em alguns casos, acabam tendo resultado positivo na sociedade.

Em outros casos, a ficção romantiza e ilude. Sempre que chega à tela mais uma novela falando de indígenas, por exemplo, algumas entidades começam a mobilizar contra essas produções. Isso porque indígenas são constantemente assassinados em todo o país em disputas por terras com latifundiários. Formam-se guerras que acabam em etnocídio, e a cultura indígena da novela continua sendo caracterizada como mística, pagã e fantástica. Basta ver essa Novo Mundo (2017) e relembrar Uga-Uga (2000) e Alma Gêmea (2005) pra ver que não existe preocupação em representar os índios de maneira fiel, além do visual estético.

Sobre a situação indígena no Brasil, leia:

O genocídio dos povos indígenas publicado em diário oficial (Justificando – Carta Capital)
Relatório Violência contra os Povos Indígenas 2015 (Conselho Indigenista Missionário) 
O silêncio da mídia em torno do assassinato brutal de um bebê indígena (Pragmatismo Político)

Claro que, de vez em quando, a ficção acerta de um modo geral. Há um tempo falei aqui (Memória, realidade e ficção LGBTQ+) sobre a importância da presença de Silvero Pereira como Nonato / Elis Miranda e Carol Duarte como Ivana na novela A Força do Querer. Tenho a leve suspeita de que ainda vão acontecer alguns momentos bastante intensos de violência psicológica e física com ambos, por Nonato ser travesti e Ivana ser um homem trans. Mas é esperar pra ver que rumo a estória vai tomar…

Real e não-oficial


“Dobby não tem mestre. Dobby é um elfo livre.”

Peguei alguns casos que caminham entre realidade e fantasia pra exemplificar o que é falar dessas verdades cotidianas nos livros da saga Harry Potter, na série televisiva The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) e no clipe Vanguard, de Violet Chachki.

A causa dos elfos

Na mitologia de J. K. Rowling, elfos são uma espécie servil: famílias de elfos permanecem fiéis a uma família de bruxos durante séculos, até que esses bruxos dispensem os serviços dos elfos. Dobby é o mártir da liberdade élfica. Ele era violentado de forma física e psicológica pela família Malfoy, e a pressão era tanta que ele se forçava a castigar-se, porque sabia que os castigos dos Malfoy seriam bem piores. A liberdade chega para ele, então, como uma quebra de correntes em todos os sentidos e, na primeira oportunidade, se impõe e enfrenta Lúcio Malfoy.

O caso de opressão psicológica se repete com Winky e com Monstro. Winky está presente apenas no livro O Cálice de Fogo, o que eu considero um engano bem grotesco, porque ela entrega elementos chave na trama desse ciclo. Mas Winky está constantemente bêbada, por exemplo, de tanta preocupação com os dramas da família que servia, essa fidelidade cega na qual foi mergulhada desde que nasceu. No caso de Monstro, ele foi impelido a causar um assassinato… precisa dizer mais?


“Sua sangue-ruim imunda, Comensais da Morte virão te pegar!”

Isso aqui serve pra gente lembrar que, até hoje, ainda existem milhões de pessoas vivendo em situação de subemprego e regime de escravidão. Vivendo pra trabalhar e sobrevivendo com uma rotina de trabalho absurda… De vez em quando saem umas reportagens sobre trabalho escravo nas indústria de base no Brasil, mas não é coisa de só de vez em quando. Acontece enquanto você lê isso aqui. Não é coisa só de China, Índia e Tailândia, viu?

Mais que o culto do útero

Assisti a 2 episódios de The Handmaid’s Tale. Ainda não li o livro, então não sei muito dessa estória. É um seriado extremamente certeiro, explora o drama e o suspense, e ainda acha tempo de tela pra explicar uma nova ordem social e apresentar uma religião que dita novos costumes e “cultua” a fertilidade feminina.

Nessa série, poluição, radioatividade e doenças ocasionaram mutações genéticas nas mulheres que tornaram-nas estéreis. Mas algumas mulheres continuam férteis e saudáveis, e essas foram sequestradas e doutrinadas para se tornarem Aias. Essas aias trabalham para casais importantes, cumprem alguns afazeres domésticos (tipo fazer compras) e, a chave de tudo, servem de útero para procriação dessas famílias. Mas não é nada de barriga de aluguel: os homens dessas famílias copulam (sim, bem animalesco, nada de sensual ou movido pelo desejo) com a aia da casa para ter herdeiros, porque suas esposas são inférteis.

No meio de políticas que prosseguem palpitando sobre o que é estupro, em que casos a mulher tem direito de abortar, quando ela deve procurar ajuda, The Handmaid’s Tale polemiza de bom grado. E polemiza bonito, no meio de uma fotografia incrível e atuações de fazer o olho brilhar. Não tá no meu cacife apontar o que acho ou deixo de achar sobre esses assuntos, mas admiro a coragem de Margaret Atwood (autora do livro O Conto da Aia) e de toda essa produção em levar um tema delicado ao grande público, principalmente nos Estados Unidos e no Brasil.

É uma série pesada e não é pra todos os gostos. Mas tem a sua importância. E figura de maneira objetiva a raiva que muita gente guarda dentro de si e a vontade que temos de botar pra fora essa angústia: é um alívio enorme ver um homem estuprador ser espancado pelas aias. Pra algumas delas, pode até não ser raiva daquele cara, mas cada pancada era direcionada ao sistema opressor que controla todo esse mundo. Idêntico até demais à nossa realidade…

Não é bagunça

Já ouviu isso? “Travesti não é bagunça”? Não é mesmo. Violet Chachki, vencedora da 7ª temporada de RuPaul’s Drag Race, é uma performer burlesca. Sabe aquelas pin-ups meio Moulin Rouge que fazem danças sensuais, com movimentos bem delicados e sedutores, favorecendo cada centímetro do próprio corpo? É isso. Dita von Teese é ícone da arte burlesca no mundo todo e Violet Chachki é tão boa que se juntou à mestra na turnê The Art of the Teese.

O visual de Violet é icônico. Cabelo estilo anos 1940, cintura apertada, maquiagem marcante e feminina, sapatos extremamente altos. É nessa estética que Violet apresenta Vanguard, single do seu EP Gagged, de 2015. Nele, Violet entra numa lanchonete e é hostilizada por um grupo de rapazes. Mas ela não deixa barato e confronta os caras, metendo a porrada mesmo. A surpresa é: ela não é a única a participar desse linchamento.

Não defendo linchamento. Ainda assim, entendo que é uma reação impulsiva de uma raiva guardada bem fundo. Mais uma vez, não é raiva de uma pessoa, mas de um quadro social, de um preconceito que já criou raízes por onde quer que passemos. No clipe, todos na lanchonete, até a moça do atendimento, vai lá pra espancar os agressores. Tá certo isso? Como verdade, não é certo. Mas dá pra entender que é o linchamento do preconceito, é a reação contra a raiva desmotivada e irracional.

***

Não, minha gente, esses assuntos não vão entrar no limbo do esquecimento tão cedo. Porque índio continua morrendo e culturas centenárias e milenares são aniquiladas. Porque a economia continua mudando e ainda existe trabalho escravo pelo mundo. Porque políticos brasileiros continuam discutindo o que é estupro e o que é violência contra a mulher, com pouca ou nenhuma participação ativa de mulheres nessas decisões.

E porque a Parada LGBT aconteceu nesse último domingo (25/06) em Fortaleza, São Paulo e outras cidades brasileiras e do mundo, como a Parada de Nova Iorque, nos EUA. Mas a violência ainda chega até ali. Mesmo dentro desses eventos, que deveriam ser ambientes seguros para as pessoas LGBTQ+, houveram casos e relatos de violência física. Por isso que não dá pra deixar de falar, muito menos de representar. Não dá pra esquecer de nada disso. Muitos por aí esquecem, mas tem quem lembre… lembra e aprende a transformar essa dor em boniteza, arte e alegria.

COMENTE AQUI!

, , , , , , , , , , , , , , , ,

9 Responses to Dobby, The Handmaid’s Tale e Violet Chachki: A reação dos oprimidos

  1. Kah Fernandes disse:

    Muito interessante esse post, acho que o mundo precisa acordar um pouco mais ainda sobre esses temas que ainda não são tão bem abordados, mas aos poucos vamos lá né. Acho um absurdo ter preconceito com a escolha sexual de cada um, temos que ser livros, mas um dia chegamos lá. Belo post mesmo, parabéns.

    Beijos

  2. caroolkilljoy disse:

    Olá, tudo bem? De fato não podemos esquecer, não podemos deixar de lembrar e principalmente nos omitir. Essa questão de HP sempre foi muito clara para mim, além de outros pontos subentendidos que a J.K. Rowling deixou. É fascinante. Não conhecia a série nem a cantora e já estou atrás e buscando mais sobre as mesmas. É revoltante de fato militar por coisas que por lei, por humanidade, por caráter, não devia precisar de lutar e sim simplesmente existir. Ótimo post e parabéns por tudo.
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

  3. Carolina Gama disse:

    Um dos posts mais icônicos que li até então sobre representatividade. Muito bons os exemplos e, as colocações, bom, mais pertinentes, impossível. Esse tipo de abordagem é necessária hoje, mais do que nunca. A mídia é assim mesmo, mas o bom é que existe um meio de fugir disso. Beijos e muito sucesso!

  4. liligirlagarota disse:

    Seu texto ficou ótimo, apesar da referência inicial ser as banalizações produzidas pela Globo, eu não gosto das produções deles, raramente fazem algo que preste, raramente mesmo. minha próxima leitura é o livro O Conto da Aia, ainda não vi a série por questão de tempo e só assistirei depois de ler o livro, que estou bastante empolgada. Adorei a postagem. Também concordo com você que essas temáticas não entrarão no limbo, pena que são banalizadas pelo capitalismo.

  5. Olá
    uau que texto mais foda e inspirador, gostei muito. Me fez refletir e é incrivel ver como um personagem pode representar tanta coisa

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

  6. Representatividade é essencial e as obras de ficção são importantíssimas para trazer essa discussão. Lembro que quando li Harry Potter, não entendia porque a Hermione queria libertar os elfos, se eles não queriam ser libertos. Claro, eu aprendi e mudei muito desde então, e a discussão que Harry Potter trouxe foi fundamental para isso.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

  7. Amyllee Ludy disse:

    Adorei o post e seu ponto de vista sobre estes casos, além do fato que anotei várias dicas de séries e leituras, como a histórias das aias, me deixou bastante chocada e curiosa sobre. Beijos

    Bela Quimera

  8. Olá que postagem maravilhosa, com certeza tudo que foi citado será lembrado, por muitos, por quem sofreu com o preconceito, escravidão e outros fatores que atinge nossa sociedade diariamente, mais principalmente por quem é humano como eu, como você, parabéns pelo texto, beijos!!

  9. Marcia Lopes disse:

    Olá!
    Eu estou assistindo a série profundamente indignada e assombrada dá ideia de resolver o problema do pais ( país não desaparecer) usar um culto totalmente louco em nome de Deus , fanatismo puro e o pior ter sido criado por uma mulher, estou louca atras do livro “O Conto da Aia” de Margaret Atwood pra ver se entendo tamanha insensatez.
    E você tem razão a mídia é uma faca de dois gumes.
    Que post bacana! Parabéns!

Comente aqui!