In Literatura

O destino da humanidade em O Fim da Infância

Quem traça a história da humanidade? Um religioso talvez diga que é a divindade pela qual ele ora. Um biólogo pode mencionar que o equilíbrio da natureza proporcionou a ascensão da espécie humana e, consequentemente, providenciará o seu fim. Já um psicólogo pode mencionar que cada indivíduo preserva a si mesmo, por mais altruísta que seja. E um sociólogo pode apontar para a consciência coletiva e justificar a estrutura orgânica da comunidade, onde cada pessoa desempenha sua função essencial até que o modelo de sociedade seja rompido. Mas a resposta para a pergunta pode estar bem distante de qualquer crença ou teoria científica.

A bordo do ônibus espacial, o motorista é o DJ. Na viagem intergaláctica é ordem que toquem músicas bem etéreas. Vem sentir o clima:

Em 1972, os britânicos do Pink Floyd gravaram a música Childhood’s End, composição lançada no álbum Obscured by Clouds. A canção carrega uma forte conexão com parte da trama descrita no livro O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke (Editora Aleph – 2015, 319 pp.), uma ficção científica de 1953 com os melhores elementos que o gênero tem a oferecer: vida alienígena, tecnologia e evolução da sociedade.

Some are born, some men die
beneath one infinite sky.

Childhood’s End – Pink Floyd

Arthur C. Clarke foi um grande gênio da divulgação científica. Inventor e escritor que viveu de 1917 a 2008, este senhorzinho britânico foi homenageado no ano de 1987 com a criação do Prêmio Arthur C. Clarke (Arthur C. Clarke Award), título conferido anualmente aos melhores escritores de ficção científica do Reino Unido. O escritor também integrou produções televisivas para investigação de fenômenos paranormais. Contraditório ou não, numa entrevista para o The Island, jornal do Sri Lanka, em 2000, Arthur declarou:

“I’m anti-mysticism and I have a long-standing bias against organised religion. I don’t believe in God or an afterlife.” (“Sou antimisticismo e tenho um preconceito de longa data com religiões organizadas. Eu não acredito em Deus nem em vida após a morte.” – tradução própria. Trechos da entrevista estão disponíveis no site do The Island.)

Dessa forma, suas obras não se restringem ao que é estritamente científico. A complexidade das realidades criadas para a ficção também traz religiosidade, filosofia e existencialismo. A paranormalidade também se faz presente, algo que pode ser interpretado pelos leitores como fenômenos metafísicos, místicos ou espirituais, dependendo da visão de cada um. O Fim da Infância representa uma dessas existências complexas, em toda a sua dimensão de esperança e obscuridade.

História ou ficção?

Após a 2ª Guerra Mundial, dois grandes conglomerados socioeconômicos afloraram no mundo: o capitalismo, representado pelos Estados Unidos, e o socialismo, com a União Soviética. Truman e Stalin se prontificavam contra a ameaça nazista e, na retaguarda, carregavam uma política egocêntrica e maníaca pela superioridade. Nesta época, a exploração da África já não era mais suficiente pra dizer quem era o melhorzão: iniciou-se a corrida armamentista e o interesse pelo espaço sideral foi despertado.

Foi neste pós-guerra que Arthur C. Clarke imaginou acontecimentos inéditos para a humanidade em O Fim da Infância, de 1953. É interessante a gente lembrar também que a humanidade apenas se lançou no espaço em 1957, quando foi lançado o satélite soviético Sputnik I. Alguns dias depois, os soviéticos enviaram o primeiro ser vivo, a cadelinha Laika, para viajar pelo espaço no Sputnik II. Yuri Gagarin, soviético, foi o primeiro homem a transpor a atmosfera num voo orbital em 1961.

Os americanos também fizeram o seu investimento para visitar as estrelas, tomando cada sucesso soviético como uma afronta ao American Way Of Life. Em 1958, também enviaram um satélite ao espaço. Um mês após Yuri Gagarin viajar pelo vácuo em 1961, os americanos também enviaram seu primeiro humano, mas numa experiência inferior, um voo sub-orbital. Nos anos seguintes, o investimento americano para o desenvolvimento em tecnologia espacial foi desesperado: não demorou para que, em 1969, Neil Armstrong e Edwin Aldrin chegassem à Lua.

Uma companhia para a humanidade

Para nós, então, soa um tanto profético que Arthur C. Clarke diga, com mais de 10 anos de diferença, que o homem iria ao espaço e à Lua. Mas e se o direito de conhecer o espaço nos fosse tirado? Este é o ponto-chave de O Fim da Infância: naves alienígenas chegam às principais metrópoles do mundo e seu porta-voz, Karellen, informa que a humanidade terá paz, saúde, será o fim da fome no mundo e haverá prosperidade tecnológica e cultural.

Página de abertura da parte 1 de O Fim da Infância: A Terra e os Senhores Supremos

A partir desse momento, violência e guerra não seriam toleradas, as fronteiras entre países seriam abolidas para a construção de um estado soberano único e a humanidade estaria proibida de visitar o espaço para além dos seus domínios. Um detalhe bastante estranho aos humanos: os visitantes, ou Senhores Supremos, como são apelidados, não se mostram à humanidade sob nenhuma condição, e se comunicam apenas com o Secretário Geral das Nações Unidas, Stormgren.

O ser humano ainda era, por conseguinte, um prisioneiro em seu próprio planeta. (pp. 122)

É claro que as ofertas, as ameaças e as condições são recebidas com desconfiança por muita gente. Mas qual prosperidade universal não seria aceita de bom grado? Ainda que seus novos gerentes sejam de outra espécie, a felicidade plena de todos poderia ser alcançada em pouco tempo. Entretanto, desconfiados das intenções dos visitantes, uma parcela da população mundial continua resistindo.

Alguns formam a Liga da Liberdade, uma organização de resistência com vias extremistas contra a ocupação alienígena. Outros formam a Nova Atenas, uma nova comunidade sem influência alienígena que retoma costumes, cultura e medicina antiquados. E uns poucos desconfiam mas observam de perto cada passo dos Senhores Supremos, como o estudante de engenharia Jan Rodricks.

Alguns SPOILERS

Com jogadas políticas, misticismo e esoterismo que se confunde com metafísica, O Fim da Infância vem falar, essencialmente, da evolução da espécie humana. “As estrelas não são para o homem” – essa expressão é repetida algumas vezes e é a principal motivação para todos os acontecimentos do enredo.

Os Senhores Supremos não chegaram à Terra de mão beijada, eles foram enviados pra encaminhar a humanidade ao rumo certo da escala evolutiva. Isso porque a humanidade não é apenas uma espécie comum, mas faz parte de uma entidade muito maior. Entidade esta que serve de explicação para toda a manifestação extrafísica nas religiões humanas.

Dessa maneira, Arthur põe aquela sementinha da dúvida na nossa mente. Nos faz pensar que profetas, sacerdotes e outras pontes com o divino são induzidas por um fator bem mais externo do que realmente consideramos. Nos faz refletir, ainda, em tabus como a figura do demônio que, na verdade, (SPOILER MASTER, NÃO DIGA QUE NÃO AVISEI!!!!) se tratava de uma visão do futuro da humanidade: o causador da discórdia e do apocalipse não é o demônio. São os Senhores Supremos, com seus chifres, pele vermelha encouraçada, cascos no lugar de pés e cauda pontuda. Um pouco Black Mirror demais, né?

A edição da Aleph

A edição publicada pela Editora Aleph, além do texto integral de O Fim da Infância, contém ainda o conto “Anjo da Guarda”, escrito em 1946 e publicado somente no ano de 1950 na revista Famous Fantastic Mysteries. O conto pega 36 do total de 319 páginas da edição da Aleph e o seu enredo discorre sobre a chegada dos Senhores Supremos no planeta e o que eles desejam para a humanidade, abordando também a reação da Liga da Liberdade contra os visitantes alienígenas.

Em 1989, Arthur ainda considerou mudanças no primeiro capítulo da obra, para deixar claramente exposto que a União Soviética seria pioneira na corrida espacial. Contudo, as mudanças foram abandonadas após a queda soviética e a obra prosseguiu sem alterações de enredo. O capítulo alterado também se encontra na edição da Aleph como material extra.

A nota

Com tantas qualidades, quebras de lógica, plot twists imprevisíveis e explicações totalmente plausíveis de serem reais, O Fim da Infância despertou em mim o interesse pela ficção científica. Cada questionamento às religiões e aos tabus esotéricos nos causa impacto, incerteza, dúvidas e pânico. Não é toda leitura que é capaz de desgraçar nossa mente dessa forma e ainda nos deixar ansiosos por mais.

Queria poder expressar a transformação que essa leitura me deu, mas é um tanto ridículo tentar expor esse sentimento. O Fim da Infância é simplesmente aquele livro que deveria ser lido nas escolas, debatido, aprofundado e entrelaçado com matérias de geopolítica, história, física e teologia. Arthur C. Clarke ganhou um fã e 5 oclinhos do Desfalk.

O Fim da Infância
Título original:  Childhood’s End
Edição de 2015 da Aleph
ISBN: 9788576570813
319 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR
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