In Literatura

Desconstrói esse Guilty Pleasure aí, faz favor

Qual o motivo de se culpar por ler ou assistir algo por puro prazer? Tá na hora de repensar esse conceito de Guilty Pleasure pra algo mais certeiro.

A Literatura anda um tanto envenenada. E não tem nada a ver com a qualidade dos livros que são publicados hoje em dia. É mais a questão das pessoas se acharem no direito de julgar a leitura do outro. Num país onde tão poucos leem, será que a gente ainda precisa desses vigias de estante pra dizer o que e quem devemos ler, quando e como devemos ler? Pior: devo me sentir culpado por ler algo que vão chamar de Guilty Pleasure?

Por esses dias, um post no Twitter andou circulando entre páginas e grupos no Facebook. Um fulaninho (não vou dizer quem pra não dar Ibope pra cabeção) falou: quem diz que ama ler, muito provavelmente só tem na estante J. K. Rowling, trilogias da moda, John Green e, quiçá, Stephen King. O post circulou, polemizou e irritou muita gente. E não é pra menos: em pleno 2017, ainda tem quem trate como Literatura apenas o que tá encaixado nas vanguardas literárias. Ou o que veio da Rússia.

Yekaterina Petrovna Zalomodchikova, ou simplesmente Katya

O deboche por trás disso é um tanto sério. Aqui no Brasil, o mercado editorial pouco se importa com a produção nacional em fantasia e ficção científica (salvo André Vianco e Eduardo Spohr.) A crítica especializada e, consequentemente, o público têm prazer em endeusar o que é dito culto.

A sensação de exclusividade é algo que caracteriza, por exemplo, as marcas de luxo: quanto menos acessível, mais o aspecto luxuoso é realçado. E é o mesmo com os livros: quanto mais exclusivo é o entendimento, menos popular é o livro, e mais alto ele fica no gosto dos literatos. É só observar quem ganha os principais prêmios literários do Brasil pra ter uma noção disso…

Preconceito literário

Ao que parece, só pode ler ficção científica se for de base. Se sair do ciclo Isaac Asimov + Arthur C. Clarke + Philip K. Dick, já tá fazendo errado. Se tiver o livro do Ted Chiang, tem que entender pelo menos 95% dos contos (e, se não pegar todas as referências, é melhor nem dizer que leu!) É a velha questão da alta literatura, que uns e outros produtores de conteúdo insistem em enfatizar. E o público-alvo engole de boa vontade.

Cena da série Westworld (2016)

Fantasia, então, só se for Tolkien e Marion Zimmer Bradley. Dizer que leu George R. R. Martin é heresia e há risco de parar na fogueira da Santa Inquisição. Romance só entra na tabela se for de escritor oriental, mas na lista cabe também um Válter Hugo Mãe. Livros-reportagem, biografias, livros científicos (de biologia e física, não vale Ciências Humanas) são todos muito bem-vindos. Ah, mas se for dos russos, pode tudo! Menos Svetlana Aleksiévitch, porque ela é mulher, né?!

Perceba que a ironia anda forte por aqui, ainda que bem real entre alguns grupos. A questão é que o costume que foi passando entre gerações é o da produtividade. O tempo todo, só podemos ler se for com propósito, se for pra tirar uma lição. Só podemos comprar um livro se for valer algo pra profissão. Só pode investir tempo no que vai trazer retorno objetivo.

Tenho amigos que insistem em ler só escritores latinos do século passado, se dizem defensores da literatura latina e desprezam o que é feito hoje no próprio estado. Conheço gente que pouco se importa em ler por prazer, e sente que perde tempo ao ler pra relaxar, por puro divertimento e lazer. Sei de gente que fica preocupado em esconder o que lê por medo de ser julgado, e só mostra no Instagram o que é literatura de verdade.

Qualquer coisa que fuja disso, é Guilty Pleasure. Porque se sentir culpado por ler algo inferior deve fazer parte da sua dignidade como pessoa leitora.

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O verdadeiro Guilty Pleasure

Não aceito que me digam que devo me sentir culpado em ler por lazer. Esse bafafá todo pra cima do realismo pós-moderno, do que é clássico, do que é construtivo e essencial: só vejo como jogada capitalista pra fazer de nós, leitores, simples joguetes do mercado. Pra que sejamos cada vez mais letrados e capacitados sem termos noção disso, e ainda ganhando menos por um conhecimento que obtivemos de forma passiva.

É nesse contexto todo que lhes apresento o meu conceito de Guilty Pleasure.

Lembro de ter me sentido extremamente culpado ao ler o primeiro livro de As Brumas de Avalon, da Marion Zimmer Bradley. Mas não só ela. A culpa também bateu depois de ler Arthur C. Clarke e Philip K. Dick. Zimmer Bradley abusou da própria filha. C. Clarke foi acusado em vários casos de pedofilia. K. Dick fez um desserviço à sociedade na criação de personagens femininas fúteis e despropositadas. E que tal mencionar a romantização e naturalização da pedofilia em Gabriel García Márquez e Vladimir Nabokov?

Cena do filme Lolita, de 1997

E nem é só na literatura que esse conceito cabe. House of Cards entrou pra esse hall de culpa assim que vieram à tona os casos de abuso por Kevin Spacey. E o mesmo se estende a Charlie Sheen, Woody Allen e Johnny Depp. São atos como abuso e violência que destroem a carreira de qualquer profissional. E eu, como público, sinto o incômodo disso.

Hoje, consumir produções desses artistas e escritores me dão uma certa sensação de culpa. Mesmo gostando do primeiro volume de As Brumas de Avalon, por exemplo, ainda não consegui dar continuidade à série, mesmo tendo se passado 8 meses desde a leitura. Chego a admirar a construção de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, do Philip K. Dick, mas já não posso dissociar a impressão de que ele humilha toda personagem feminina de sua autoria.

Dostoiévski + J. K. Rowling = paz mundial

Então, amiguinhos, vamos deixar dessa onda de ler apenas o que tá na lista de premiados do Nobel, do Jabuti, entre os 1001 livros pra ler. Vamos explorar também os prêmios Hugo e Nebula. Vamos dar uma olhadinha nos autores que se lançam através de financiamento coletivo. Bora chegar nos eventos locais e conversar com aquela autora ou autor que tá lançando seu primeiro ou segundo livro.

Jamais se impeça de ler só porque tem gente tosca dizendo que tal gênero é ruim. Leia por amor às Letras, leia pelas aparências, pela vontade em transparecer sua vibe culta. Mas leia. Leia seus Tolstói e não tenha vergonha ao sentir vontade em ler o novo mistério do Dan Brown, algumas crônicas da Martha Medeiros, ou ainda mergulhar nos mundos de Maze Runner e Divergente. É o seu dinheiro, é o seu tempo e são os seus prazeres, e não de youtuber marrento.

Afinal, quantas pessoas aprenderam sobre inclusão e empatia com Harry Potter? Muitas mulheres tiveram a noção de que podem ser fortes como Katniss após lerem Jogos Vorazes. Na saga Crepúsculo, Lua Nova foi intensamente sensível ao educar e retratar a depressão de Bella Swan. E uma porrada de gente chorou com A Culpa é das Estrelas e recebeu o recado de viver seus amores com intensidade.

Enquanto isso, no lustre do castelo, ainda tem milhares de pessoas que se gabam por ler Guimarães Rosa, mas continuam tentando descobrir o que diabos é o Grande Sertão: Veredas.

Então, depois disso tudo, pensa aqui com o tio Falk:

Quem entra na sua verdadeira lista de Guilty Pleasure?

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