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Coração Satânico: culto sobrenatural na Nova Iorque marginal

Produto esgotado. Sinônimo de sucesso para escritores e motivo de frustração para leitores. Mas isso só à primeira vista. Carlos Ruiz Zafón é autor de A Sombra do Vento, que também é título do livro do personagem Julián Carax, escritor sem nenhuma obra disponível em catálogo. Julián Carax foi perseguido e teve todos os seus livros destruídos. O que contavam esses livros? Alguma revelação, alguma dádiva, uma maldição? A história se repete e, dessa vez, na realidade: Coração Satânico, por décadas esgotado, ressurgiu aos leitores. Por quê?

Sabe o que tocava nas rádios americanas em 1950? Pois tome rock e blues, baby.

O grande sucesso de William Hjortsberg foi lançado em 1978. No Brasil, só chegou 10 anos depois e saiu de catálogo. Quase 30 anos depois, a DarkSide Books invocou a presença desse título e relançou Coração Satânico. O intuito: revelar o que escondia a Nova Iorque ao fim da década de 1950. A questão é que só se revela algo que está escondido, que é proibido, que tantas pessoas se esforçaram para manter em segredo.

>> Rock paranormal
>> Nova Iorque sitiada
>> Polêmicas
>> Narrativa circular

Coração Satânico é ficção. Mas Hjortsberg parece que fala com muita propriedade sobre tudo relacionado ao ocultismo e aos ambientes de Nova Iorque. Quase como um roteiro das ruas obscuras da megalópole, o livro nos leva a um passeio por uma cidade turística disforme, bem diferente da que estamos acostumados a ver em fotos e filmes.

Rock paranormal

Ao contrário do que pode parecer, Coração Satânico não é de todo obscuro. Se trata de um romance policial investigativo que tem Harry Angel como protagonista, um cara bem esperto e alerta que fez seu nome em Nova Iorque como investigador particular. A ambientação é nessa megalópole no ano de 1959, a década do auge do movimento Rockabilly, tão famoso pelo Elvis Presley, e que decaiu com a Invasão Britânica. Por isso mesmo que não dá pra imaginar Harry Angel de outra forma: topetão, óculos escuros, tragando cigarro num jeitinho até meio arrogante.

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A trama inicia com Angel recebendo um serviço: encontrar Johnny Favorite, um músico desaparecido depois de voltar da Segunda Guerra. Mas seu contratante não é um homem qualquer: Louis Cyphre é bastante excêntrico e cheio de segredos e pretende esconder a todo custo seu interesse em Johnny Favorite.

Era fácil imaginar aquelas mãos bem cuidadas segurando um chicote. Nero deve ter tido aquele tipo de mãos. E Jack, o Estripador. Era a mão de imperadores e assassinos.” – p. 21

Na busca pelo homem desaparecido, Harry Angel segue uma linha interminável de pistas que levam a caminhos sem saída. Todos com quem o investigador conversa parecem esconder fatos e detalhes essenciais para desvendar o caso. Mas Harry precisa correr contra o tempo, principalmente depois de a polícia ligá-lo a assassinatos que ocorreram por onde o investigador passou. Assassinatos grotescos envolvendo mutilação, sangue, vísceras e simbologia satânica…

Nova Iorque sitiada

O livro funciona como um roteiro de viagem por onde Angel passou. Não por acaso, a narração em primeira pessoa favorece a impressão de que estamos ali dentro da estória, ao lado de Angel, caminhando com ele pelas ruas ou entrando nos táxis apressados. Os detalhes de geolocalização descrito por Hjortsberg são tão específicos que só podemos acreditar que é extremamente fiel ao real mapa da Nova Iorque.

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A pesquisa em relação ao tema do vodu também esteve presente no processo: o autor leu alguns livros e participou de cerimônias. Ao mesmo tempo que Angel se educa acerca do assunto na estória, nós também somos ensinados em alguns pontos do vodu. Mas, é claro, nem tudo ali é verídico. No posfácio da edição da DarkSide Books, o autor mesmo explica:

Na verdade, eu não acredito em magia negra ou no demônio. Por não temer ofender as sensibilidades de adoradores do diabo, fiz uso de certas licenças poéticas ao descrever seus rituais libertinos.” – p. 313

Dessa forma, as descrições do vodu e de rituais em adoração ao Diabo descritos na estória soam pouco convincentes. Ainda assim, é nesse contexto que centra todo o clima de suspense e mistério. Nesse princípio, funciona muito bem como ficção, mas não como fonte sobre o que são esses rituais do oculto.

Polêmicas

Eu poderia até dizer que Hjortsbert tem muita coragem. A trama inclui um policial extremamente racista. Humilha e xinga negros, associa à criminalidade e ainda usa do discurso (bem contemporâneo e brasileiro, por sinal) de que bandido bom é bandido morto. É importante lembrar que, pelo fato de um escritor falar sobre um tema ou expor uma situação no seu livro, não quer dizer que ele é conivente com aquilo. Inclusive, Harry Angel até demonstra estar desconfortável em situações nas quais o dito cujo fala essas… merdas.

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Coração Satânico pode ainda ter sido inventivo na sua época, por trazer temas bem delicados. Hjortsberg parece tentar abordar religiosidade com base africana e tenta desassociá-la do estigma de “vodu é coisa ruim”.

Obeah nunca precisou pendurar um homem em uma cruz. Nunca houve uma guerra santa Obeah ou uma inquisição Obeah!” – p. 145

Indo além da religiosidade, o autor também provoca ao inserir temas como sexo, relacionamento interracial e incesto. O único problema dessa ousadia parece ser a romantização da pedofilia, num formato que me recordou Lolita, de Nabokov.

O beijo abominável. Era assim que uma bruxa tradicionalmente selava sua aliança com o diabo.” – p. 216

Narrativa circular

Quem assina a introdução é James Crumley, autor de The Last Good Kiss, que flopou bonito depois do lançamento de Coração Satânico. James diz que, desde a primeira frase do livro, existem pistas do que vai acontecer. O autor também fala que, na segunda leitura, é tudo bem previsível. Pois bem: tentei ler com toda atenção e, apesar de ter suspeitado do final de derreter 70% do cérebro, não consegui prever tudo.

Coração Satânico é o tipo de obra que, na primeira leitura, temos uma impressão. Mas a segunda leitura é muito melhor, mais proveitosa, mais divertida e, talvez, bem mais impactante. Tudo está conectado. William Hjortsberg criou um quebra-cabeças de 5.000 peças e oferta ao leitor o poder de decisão sobre quais estratégias usar para montar os grupos de peças até formar a imagem definitiva.

De leitura incrivelmente fluida e com uma diagramação e trabalho gráfico excepcional, a experiência de ler Coração Satânico só é definível assim: um espetáculo de horrores, uma dança de órgãos e corações batendo no ritmo do tambor. Com tantos segredos, é compreensível que ele tenha permanecido esgotado por tanto tempo: é revelação demais pra um livro só. 4 oclinhos pra essa belezinha endemonhada.

Coração Satânico
Título original: Falling Angel
Edição de 2017 da DarkSide Books
ISBN: 9788594540072
320 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

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Livro cedido pela editora DarkSide Books. Para mais conteúdos frutos de parceria com a editora, clique aqui.

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