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A Chegada: comunicar é ser entendido

A Chegada (Arrival – 2016) é uma ficção científica bem diferente das outras. Nesse filme, o cientista físico, o profissional das ciências exatas que tanto recebe foco em produções do gênero, é deixado em pano de fundo. Aqui, o diferencial fica por conta de uma cientista de humanidades: Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma especialista em linguagens.

Na trama, temos aí uma comunidade extraterrestre que, do nada, pousa na Terra: 12 naves em 12 lugares espalhadas pelo mundo. Ninguém sabe o que eles querem, afinal, nenhuma comunicação foi estabelecida. Cada país “residente” das naves usam métodos diferentes, com várias tentativas, mas sem resultado. O que impede, então, que essa conexão seja feita?

Todo estudante de Comunicação já ouviu falar nos Modelos de Comunicação. Desde o modelo retórico de Aristóteles (séc IV a.C.), passando por Lasswell (1948), Shannon e Weaver (1949) até chegar em Schramm (1954), foi um bocado de observação, mas todas com uma única base: tem sempre alguém que diz uma mensagem (locutor), o conteúdo que é dito (discurso, mensagem) e quem recebe esse conteúdo (ouvinte).

Locutor + Discurso + Ouvinte ou
Emissor + Mensagem + Receptor

Schramm, inclusive, partiu dos estudos de Shannon e Weaver pra incluir nas suas pesquisas os sentidos de Codificação e Decodificação a partir das experiências de quem é fonte da mensagem e de quem a recebe. Ou seja: pra que Fulanin entenda a mensagem de Beltrano, Fulanin e Beltrano precisam entender o mesmo código: o idioma, por exemplo, é um deles, e engloba as linguagens de fala e escrita. Botei um esqueminha do modelo de Schramm a seguir:

O problema apresentado em A Chegada é perto disso: humanos e extraterrestres não tem o mesmo campo de experiência pra poderem se comunicar. E, sendo assim, não existem dicionários pra usar, professores com quem aprender ou intérpretes pra traduzir as falas de cada lado. É aí que fica a premissa central do filme: como saber o que os extraterrestres querem se ninguém consegue estabelecer uma comunicação mínima possível?

Nós temos uma vastidão enorme de idiomas, e conseguimos ter acesso a intérpretes, dicionários, podemos estudar e aprender. Ou seja: existe uma ponte entre eu, com português brasileiro nativo, e o idioma árabe falado e escrito, que nem usa o mesmo tipo de letra que a nossa. Mesmo assim, existe uma ponte, e pode haver um certo nível de compreensão. Quando não existe essa compreensão, o resultado é como nesses casos aí:

Eventos

Certa vez, trabalhei num evento de fotografia. Toda a comunicação já estava pronta, eu só precisaria divulgar. Mas o material tava inacessível, cheio de longas descrições extremamente embasadas, texto carregado até demais. Digo inacessível porque a coordenação do evento queria alcançar novos públicos, e um texto carregado de referências a nomes e vanguardas da fotografia não é exatamente popular, né?

Quando tentei ser profissional e avisar que tinha uma falha naquela estratégia (falei que o evento tinha caráter exclusivista com aquela comunicação e só chamaria atenção de acadêmicos, jornalistas, artistas, e não da comunidade toda) recebi olhares tortos e uma ordem: faz assim mesmo. E não deu outra: por mais espaço editorial que eu conseguisse, a movimentação acabou sendo bem pouca…

Diabéisso mermo?

Comunicação eleitoral

Em épocas de eleição, alguns candidatos de esquerda são constantemente incompreendidos. O trabalho de comunicação que se faz com eles nunca parece ser voltado pra população toda, parece bem mais voltado ao círculo de influências: jornalistas, acadêmicos, artistas (de novo, oie).

Claro que toda comunicação tem um objetivo, e ela pode muito bem ser chamar atenção e ter espaço editorial e repercussão nas mídias sociais. Mas voto, em si, não parece ser uma prioridade, porque muita gente é deixada de fora quando candidato decide falar difícil ou discute temas de forma muito subjetiva. Anote e repare aí nas próximas eleições: sempre tem candidato de visão política de esquerda “falando difícil”, polemizando e se carregando de subjetividade. (Só pra deixar claro: eu presto atenção redobrada nisso porque são candidatos que eu voto e profissionais que eu conheço. Então, óbvio, vou sem bem mais crítico com eles.)

Academicismos

Quem nunca leu o mesmo parágrafo de um artigo 5 vezes, que atire a primeira pedra. É bem fácil encontrar pesquisador acadêmico que só sabe escrever pra outros acadêmicos. Por mais que o assunto seja relevante pra quem nem completou ensino médio, essa galera com menos oportunidade de vida não vai ter acesso. Não é nem duvidando da capacidade de ninguém, porque somos capazes de muito mais que imaginamos. Mas tenta aí, ler uma dissertação de mestrado de uma área que não é a sua, com uma linguagem técnica que você não conhece e com escrita que não lhe desperta vontade… Você vai querer arrancar os olhos na segunda página.

Parece grego…

Comunicar é desafio

O que acontece em A Chegada é bem pior do que campanha eleitoral mal-arranjada ou falta de acessibilidade. Uma das naves é hostilizada com bombas quando não há forma de fazer a comunicação acontecer (no caso, de fazer os extraterrestres falarem a finalidade com a qual vieram ao planeta). Sem possibilidade de comunicar qualquer coisa, as naves começam a abandonar a Terra. E, sem comunicar, não haveria como a humanidade tirar qualquer proveito da presença alienígena. Afinal, quem viu o filme, sabe muito bem o que estava em jogo ali…

Por isso que comunicar é um desafio em qualquer ocasião. Na minha graduação em Jornalismo, lá pra 2012, os professores comentavam toda hora o quanto é importante falar de acordo com o público que o profissional quer alcançar. Já entre os estudantes e alguns professores mais atualizados sempre circulou a máxima de comunicar de forma acessível, não só por aquela na qual estudei ser uma universidade pública e ser nosso dever retribuir, mas também pra que toda informação pudesse ser entendida pelas pessoas com menos oportunidade de acesso e das mais variadas idades. Comunicar, pra mim, é isso: sem simpático da forma que o outro compreende

***

18 de julho completa 1 ano que apresentei meu Trabalho de Conclusão de Curso. No dia 18 de julho de 2016, apresentei um planejamento de comunicação que fiz pra uma microempresa. Talvez, o maior elogio da banca tenha sido a acessibilidade do meu texto. Mais de 100 páginas de um plano de comunicação com embasamento teórico, e tudo isso (nas palavras deles) fluiu bem. E, agora, eu vejo como ficar atento a isso foi importante. Os donos lá da empresa ainda agradecem e aplicam o plano. E eu fico aqui morto de feliz em ter, de fato, contribuído pro bem de alguém…

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15 Responses to A Chegada: comunicar é ser entendido

  1. Michele Lopez disse:

    Olá,
    Já tinha visto outras postagens sobre o filme, mas nenhuma como a sua. Há muito embasamento teórico para explicar o enredo do filme e isso eu gostei bastante.
    Há uma problemática a ser resolvida de forma bem peculiar ao que costumamos encontrar nos filmes do gênero e achei isso bem ousado e interessante. O foco não é o pessoal da exatas, mas sim da humanidade e aí a gente lembra de NADA COMO UMA BELA CONVERSAR PARA RESOLVERMOS TUDO.

    LEITURA DESCONTROLADA

  2. Kah Fernandes disse:

    Olha tenho que confessar que li muito por alto seu post, pois esse é um filme que eu ainda quero ver e desde que lançou eu venho evitando saber a opinião das pessoas para não absorver elas, espero logo conseguir assistir, pois o trailer me deixa a mil.

    Beijos

  3. Andy disse:

    Adorei a sua crítica! A forma como você fez a conexão entre o filme e a nossa realidade e a sua carreira. Como acadêmica de direito entendo perfeitamente o que você quer dizer com relação a comunicação. Já teve artigos que eu tive que ler com um dicionário ao lado e hoje já me pego escrevendo textos que antigamente eu sei que leria e ficaria com um monte de dúvidas, percebo até que como o vocabulário expandiu me vejo falando alguma palavra mais específica do meu meio profissional em uma conversa e logo emendo com o sinônimo para evitar desentendimentos. Imagino que realmente seja MUITO complicado quando não há um meio termo e nenhuma forma de entendimento.

    • Falkner disse:

      Isso aí! Eu já trabalhei num sindicato de professores e fazia matérias pro jornal com o setor jurídico. É bem complicado adaptar uma linguagem técnica pra uma linguagem acessível a todos de todas as áreas. É importantíssimo ter noção da linguagem específica da sua área, mas, da mesma forma, é essencial saber passar essa mesma informação de forma compreensível pra uma criança de 10 anos. É desafio, mas é necessário. Quantas informações não se perdem quando acontece um mal entendido, né?!

  4. Jéssica Melo disse:

    Olá, eu não conhecia o filme citado, mas acabei curiosa para assisti-lo. Tudo que você comentou sobre a comunicação me lembrou das aulas que tive quando cursava jornalismo, não cheguei a concluir porque acabei trocando de curso, mas lembro que todos os professores focavam muito nisso, o texto tinha que sempre ser condizente ao publico que ele era voltado para que a mensagem fosse de fácil compreensão.

  5. Olá eu assisti esse filme e gostei demais. Melhor exemplo de comunicação mal entendida… Uma torre de Babel,uma confusão! É isso que acontece conosco quando não conseguimos compreender uma mensagem… confusão.
    Amei sua postagem, parabéns.
    Nizete
    Cia do Leitor

  6. Larissa disse:

    Olá, tudo bem?
    Gostei muito como em sua resenha do filme explicou um pouco sobre a área da comunicação. Não assisti ainda a este filme, porem iriei assistir logo.
    Gostei muito da sua resenha!
    Beijos, Larissa (laoliphant.com.br)

  7. Mari disse:

    Eu ainda não assisti esse filme, mas já tinha lido outros posts que colocaram como a questão da comunicação é trabalhada na história e fiquei bastante interessada.
    Beijos
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

  8. Oi, Falkner. Tudo bem?
    Não conhecia teu blog ainda, mas gostei muito! E tu é sonserino e geminiano, sacanagem rs (brincadeira).
    Sobre tua postagem… ainda não assisti esse filme. Nem estava com vontade na verdade, apesar de adorar o tema. Mas, gostei bastante da tua abordagem e até fiquei curiosa agora. Gostei que tu colocou teu ponto de vista e conhecimento enquanto jornalista. Não sou jornalista (faço direito), mas concordo contigo em vários aspectos. Também sou de esquerda e não consigo entender nossos políticos que vão pra lá falar engomadinho na TV enquanto deveriam estar tentando alcançar o povo pobre trabalhador (que é o “público” que eles deveriam tentar alcançar né). Mas, enfim… curti tua página e quero estar por dentro das tuas próximas postagens. Beijos <3

  9. Valéria disse:

    confesso que nunca tinha ouvido falar desse filme,mas fiquei curiosa pela temática que ele aborda…
    comunicação é tudo, belas considerações a respeito…
    bjs…

  10. sannzinha disse:

    Hey, Falkner!

    Caramba! Sensacional o seu post!
    Comunicar-se é realmente um desafio medonho.
    Eu assisti ao filme e confesso que não gostei muito. Entendi toda a essência da trama, mas só não fui fisgada mesmo. Fazer o quê?
    Mas é como você disse mesmo: se queremos ter sucesso na comunicação, devemos fazê-lo de uma maneira que permita ao receptor da mensagem compreender o que está sendo dito.
    E há ainda um outro problema: da mesma maneira que há inúmeras pessoas que não sabem se comunicar, há inúmeras outras que não sabem ouvir. E isso está cada vez pior.
    Texto excelente, meus parabéns mesmo!

    Beijos!

  11. Marcia Lopes disse:

    Meu! Assisti esse filme e devo assistí-lo novamente, ele é bárbaro ! Q que sabemos sobre comunicação? NADA! E o que fazemos para mudar isso NADA!

  12. Adorei, sua resenha foi bem explicadinha. O post me chamou atenção por se tratar de um tema do meu interesse, comunicação. Já que é algo que usamos no cotidiano, é sempre bom ler sobre. Parabéns pelo texto.

    Beijos

  13. Oi,
    Que escrita maravilhosa a sua, mega detalhista porem nao deixa ela ser chata, está de parabens. Você transcreveu tudo que acho que eu sentiria e como o assunto foi tratado.

  14. Morgana Brunner disse:

    Oiii Falker tudo bem?
    Adorei saber e ler sobre teu texto menino, realmente ficou fascinante e é sempre bom sabermos o significado de mensagem e como as pessoas irão receber.
    Beijinhos

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