In Literatura

Cebolas, Mercedes e Divã

Confesso: tenho algumas dificuldades em me manter sóbrio diante de livros que dão aquela sacudida dentro de mim. Permanecer objetivo dando uma opinião, então, é um pouco mais desafiador. Ainda não conheço tantos autores que me deixam nesse estado de pura intensidade emocional mas, de cabeça, posso citar logo Carlos Ruiz Zafón, Rainbow Rowell e a dona da porra toda: Martha Medeiros.

Entre Fora de Mim Divã, dá pra ouvir direitinho isso aqui tocando de fundo:

Foi bem por acaso que, tal dia, andava por uma loja da Saraiva e vi aquele livro dando sopa: Doidas e Santas, uma coletânea de crônicas da Martha Medeiros. Já havia lido umas coisas e outras dela, textos soltos no livro de Literatura do meu Ensino Médio, frases de Orkut, citações de Tumblr. E, claro, tinha o filme de Divã, né? Então, Martha Medeiros já era um nome conhecido na minha rotina.

“Suporto tudo nessa vida, menos as fases transitórias, aquelas onde já abandonamos o lugar em que estávamos mas ainda não chegamos aonde queremos.” – Divã, p. 69

Mas, pronto! Doidas e Santas captou minha curiosidade e peguei pra ler algumas daquelas crônicas. O jeito que ela escreve é muito instigante: lembro que ficava me mordendo pra não ler tudo duma vez só. Estabeleci a rotina de ler, no máximo, duas crônicas por dia pra ir absorvendo melhor as informações dali.

A breve jornada pra Fora de Mim

Eis que, no belo ano de 2010, Dona Medeiros lança Fora de Mim. Eu tava no meu 3º ano, já tinha feito o maldito bendito ENEM e só faltava mais uma fase de outro vestibular quando, finalmente, me permiti comprar e ler Fora de Mim. Olha, falando bem sério: ainda bem que eu esperei passarem as provas pra, só então, me jogar nesse livro, porque foi simplesmente e completamente arrebatador.

Fora de Mim conversava comigo, e muito bem. Uma mulher conta a sua história como se estivesse confessando suas memórias no telefone com a mãe ou uma amiga. Dividido em 3 partes, o livro traz, na 1ª parte, a angústia do rompimento de uma relação; na 2ª parte, conhecemos a história do casal que já não existe; e, por último, é o momento de reconhecer que tá na hora de superar.

“Minha primeira vez fora do país foi como a primeira vez fora de mim, Lopes. Não senti pavor, não tive vergonha, não segui planos. Eu estava para o que desse e viesse, sem preconceitos em relação aos outros e a mim mesma, absolutamente disponível para o desconhecido.” – Divã, p. 161

Esse livro me quebrou as pernas. Li num pulo só e me peguei ansiando por outros romances ou contos mais longos da Martha. Pela dificuldade em achar Divã por um preço bom (e uma edição decente sem a capa do filme), preferi esperar. Quanto a Fora de Mim, se transformou naqueles livros que a gente precisa emprestar aos amigos. Mas aí ele passou dessa pra melhor e nunca mais voltou pras minhas mãos… Triste fim. (Aprendam!)

Encontro com o Divã

Passados alguns anos, bateu a chance de conseguir o Divã. Em 2015, ganhei um livro de amigo secreto que… bem… não era lá muito o meu gosto. Acabei esperando até o último dia pra fazer a troca, pra ter a certeza de que eu realmente não leria o tal livro ganho, porque eu tenho uma coisa, um frivião doido por não doar / trocar / vender livros que ganho de alguém, com aquela finalidade de prolongar o carinho da pessoa pela gente.

Pois bem, cheguei na Livraria Cultura e já sabia que, sem importar o preço, eu levaria algum livro da Ana Miranda. Mas, por uma surpresa divina da vida, o livro trocado era bem carinho e eu ainda tinha uns reais de crédito no meu nome. Foi aí que levei pra casa Boca do Inferno, da Ana Miranda, e Divã, da Martha Medeiros.

“Quem pode me explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder às minhas próprias perguntas. E tenho que ser serena para aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto.” – Divã, p. 106

No mesmíssimo dia, comecei a ler Divã. Eu já tava lá pela página 50 quando pensei “Porra, tô lendo isso aqui rápido demais, não vai dar pra aproveitar nada!” É, eu tenho essa mania de prolongar pequenos prazeres, e poucas vezes me deixo levar até o fundo da coisa. Mas eu tinha esperado tanto tempo pra finalmente conhecer a Mercedes que, não teve jeito, era melhor ir aos pouquinhos, respirando e suspirando o suficiente a cada parágrafo.

Todo dia, uma Mercedes diferente

Devo ter assistido ao filme Divã pelo menos 3 vezes e já associei a incrível atriz Lília Cabral à Mercedes em todas as suas nuances. Sério, em nenhum momento do livro eu consegui imaginar outra mulher falando, a não ser a Lília Cabral. Inclusive, é com a voz dela que eu imagino toda a história sendo contada.

“Acho que sou promíscua, doutor Lopes. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também. Prepare-se para uma terapia de grupo.” – Divã, p. 13

Divã conta sobre Mercedes: quarentona, mãe, casada, pintora, culta, inteligente, um pouco tímida, mas cheia de desenvoltura. Tudo se passa no consultório do doutor Lopes, com quem Mercedes inicia sessões de terapia. Daí o título já se explica: cada capítulo é uma sessão, e Mercedes fala da sua vida pouco a pouco, como se fosse um livro que vai se contando a cada página.

Sabe aquela metáfora da cebola que o Shrek fala quando vai explicar ao Burro Falante como são os Ogros? Ele comenta que Ogros são como cebolas, feitos de camadas… Não lembra? Ok, toma aqui o vídeo:

Mercedes é o Shrek da vez. Não, ela não é uma ogra nem é perseguida por um animal irritante, mas ela tem inúmeras camadas, assim como qualquer um de nós. Quando a gente começa a conhecer alguém, tem que ir atravessando uma trilha cheia de obstáculos. Pouco a pouco, esses obstáculos vão caindo e ficando pra trás, ou então a gente esbarra em algum e não consegue avançar. É exatamente assim que conhecemos a personagem de Martha.

Cada capítulo mostra que Mercedes se abre um pouco mais. Muitas vezes, é uma brechinha de nada, mas dá pra entender que, por trás da mulher ali, deitada, falando da sua vida, tem uma intensidade e um torrente constante de pensamentos e sentimentos. No começo, ela nem sabe o motivo de estar abrindo as portas da sua vida particular a um estranho. E meias: pagando por isso! Mas a correnteza nos leva a perceber que ela tem profundidade em tudo que pensa e faz.

“Ontem, durante 40 minutos em que fiquei no escuro, silenciosa dentro daquele apartamento, mais uma vez minha imaginação perdeu o freio e criou histórias, diálogos e situações que alternavam realidade e ficção. Tenho ido tão longe em pensamento, Lopes.” – Divã, p. 64

Chega um momento em que ficamos tão envolvidos com a narração de Mercedes (ou de Lília Cabral), que não é uma sensação leviana se imaginarmos, em tal momento, sermos o próprio doutor Lopes. Nada de interatividade com livro de marcar, livro de listar, livro de rasgar: interatividade real é fazer a gente se sentir parte do mundo literário, integrante essencial daquele espaço, e Martha Medeiros concedeu esse poder digno de X-Men à Mercedes.

Como a própria Mercedes comentou num dado ponto, são tantas mulheres e alguns homens dentro dela que fica difícil a gente não se reconhecer em pelo menos um deles. Cheguei a me reconhecer em várias dessas Mercedes, tirando um detalhe e outro, porque, enfim, tá bem longe de eu ser essa quarentona, mãe, casada, culta, inteligente, sagaz, esperta e tão cheia de arestas e curvas. Haja chão, viu? Haja terapia, Lopes.

Minha edição é da Alfaguara, edição de 2014, e tem uma diagramação espetacular que deixa a leitura extremamente prazerosa e descansada. 4 oclinhos é o que Divã leva pra casa, só por saber que poderia ser bem mais intenso, como Fora de Mim.

No fim, é isso. Enquanto Divã me encanta, Martha me dilacera, e Mercedes recolhe meus cacos.

Divã
Edição de 2014 da Alfaguara
ISBN: 9788579622229
216 páginas

***

Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

Compartilhe:

, , , , , ,

Deixe uma resposta