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Cascaviando pela Bienal do Livro

Cascaviar: ô palavra bonita! Daquelas que dá gosto de falar, que a gente enche a boca com o som gostoso da regionalidade. Sinônimo de procurar, fuçar, averiguar o que está oculto, buscar, catar, achar, e inesperadamente, por fim, se deparar com a surpresa. É esse o sentimento que bate quando a gente encontra um livrinho perdido num mar de páginas estiradas nas mesas dos estandes da Bienal do Livro (que já termina no domingo, 23 ☹ ) aqui do Ceará.

Eu poderia falar dos livros que já vinha procurando e que acabei encontrando por lá. Mas isso não é nada, a surpresa é boa e a alegria tem força, mas não tem mistério. Faz bem pegar um livro qualquer, ler a sinopse e ficar na dúvida, ler as orelhas e se interessar. No fim, você já está lendo o primeiro capítulo no caminho para o caixa, cheio de intriga e de dúvidas se aquela leitura vai valer a pena.

Nessa Bienal do Livro (quase uma trienal, porque a última foi em 2014), fui com a intenção de descobrir mais livros de não-ficção. Não porque seja melhor nem nada, longe disso, nem acredito numa insanidade dessas! Mas faltam relatos factuais na minha estante e eu sei que poderia explorar mais esse gênero tão amplo. E foi com esse pensamento que descobri Viagem Solitária, de João W. Nery.

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Da primeira vez que o vi, era minha primeira ronda pelos estandes. Estava em destaque numa das mesas da Livraria Literato, bem ao lado dos livros do André Vianco (qual a relação dessa arrumação, nem me pergunte). Na segunda volta pelas ruas do evento, era hora de comprar o que eu tinha gostado. Voltei pra ler um pouquinho de Viagem Solitária e ele tinha simplesmente sumido.

Revirei o estande todo, descrevi o livro aos funcionários que não sabiam dizer qual era (eu tinha esquecido o nome, sou bem ariado), fucei todas as mesas e me frustrei totalmente. Até que, indo embora sem nada nas mãos, virei pra dar uma última olhada no horizonte e vejo: 2 pilhas de Viagem Solitária. Debaixo da mesa, escondido entre outras pilhas de livros. Vou nem imaginar o motivo de estarem todos ali, censurados e trancafiados pra ninguém encontrar. Me enfiei sob a mesa (mesmo com o olhar reprovador dos funcionários), procurei o mais limpinho e bem tratado e levei pro caixa. Enfim, meu.

Olhei o sumário, as indicações de cientistas sociais, jornalista e o escambau. O que me cativou, de verdade, foi a dedicatória:

Para meu filho, por me fazer um pai feliz. Para todas as transidentidades que se reinventam para achar seu lugar no mundo.

Muito em breve vou dar início a essa leitura. Não vai ser fácil: é o delicado tema da transgeneridade no Brasil, contada pela experiência de João Nery, o primeiro homem trans a passar pelas intervenções cirúrgicas no nosso país pra, enfim, expor sua verdadeira identidade masculina ao mundo.

Pensando em como outras pessoas poderiam ter passado por experiências semelhantes de garimpo pela Bienal do Livro, chamei alguns amigos pra contar das aventuras pelos corredores do evento. Vai lendo!

Bárbara Danthéias cascaviou e

Fui à Bienal do Livro na segunda-feira (17) sem pretensão alguma de comprar novos livros, apenas dar aquela famosa “olhadinha” e assistir à palestra da Eliane Brum. Bom, era essa a intenção, até que resolvi dar uma folheada no livro-reportagem Recortes da Diáspora Síria, da Isabel Filgueiras. Os poucos parágrafos que li me encantaram tanto que eu não consegui resistir e levei o livro para casa.
A guerra na Síria é um tema que está longe de sair dos holofotes da mídia, e, mais do que entender as origens do conflito, precisamos de um olhar mais humano e sensível sobre essa questão. Sem falar que a Isabel se graduou como jornalista na mesma universidade que eu, tendo apresentado este livro-reportagem como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo.

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Saber que ela aproveitou uma viagem feita por sua própria conta e risco para compreender e explorar com mais profundidade os personagens dessa guerra é, de certa forma, inspirador. É o tipo de Jornalismo que eu sonhava e – por que não? – ainda sonho em fazer.

Yan Ferreira cascaviou e

De acordo com o que observei, um dos pontos fortes da Bienal é a diversidade de livros e de editoras. Se você estiver com tempo para visitar os vários estandes, pode encontrar desde revistas populares até um livro com diversas novelas do Cervantes (já esgotado nas livrarias). Vale a pena garimpar!
Por isso, não tenha pressa para encontrar o livro dos seus sonhos. Nem se prenda a editora para achar um bom livro. Pare, observe, dê uma lida e deixe o match acontecer. Foi em uma dessas garimpagens que encontrei um dos meu livros preferidos, O livro das Coisas Perdidas, de um autor que nunca havia ouvido falar, John Connolly.

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Explorei os vários montes de livros até encontrar o livro “perdido”. Um livro vermelho com capa em alto relevo que chamou minha atenção. Peguei, folheei e constatei que, finalmente, havia achado o livro que ia ocupar minha cômoda durante algumas várias noites.

Nathanael Filgueiras cascaviou

18 de abril de 2010. Minha primeira bienal, em Fortaleza. Lembro que fui com a intenção de comprar um livro de jornalismo, já que eu pretendia fazer o curso alguns anos mais tarde. Fui com pouquíssimo dinheiro, uns R$20. Como devem prever, não encontrei, naquela lotação, nenhum livro da área que coubesse no meu baixo orçamento. Rodei todas as lojas, me encantava por tudo, mas nada barato.
Já na saída bato o olho em uma edição do O Alquimista, de Paulo Coelho. Ilustrada pelo Moebius, em capa dura, publicada pela Rocco. O preço era atrativo, devo ter pago uns R$10. Levei. Confesso que mais por ter um livro do que por gostar dele. Só dei uma chance para a leitura alguns meses depois e aí já sabe, né? Li dentro de uma semana e me encantei pela história.

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Hoje não lembro com precisão toda a narrativa, mas sei que fui apresentado pela primeira vez à palavra Maktub, que quer dizer “estava escrito”, dito em relação aos acontecimentos. Aquela coisa do destino. Me fez pensar que o livro estava lá esperando por mim. Tinha que acontecer. Surgiu aí meu interesse por bienais e pela possibilidade de me encontrar (e também me perder) em alguma página de algum livro barato, também perdido naquela multidão.

***

A Bienal do Livro do Ceará segue até o domingo, 23/04, e ainda tem programação interessante e uma penca de livros escondidos só esperando pra serem levados pra casa e lidos. Clicando aqui você acessa a programação completa. Mas separei alguns itens pra esses últimos 3 dias, ó:

SEXTA-FEIRA, 21/04

18h: Construção de Cenários na Literatura (Escambau). Sala 8, Mezanino 2.
19h: Batalhas Épicas: Star Wars X Star Trek. Sala 8, Mezanino 2.
20h: Bazar das Letras Sesc – De notícia e não-notícia se faz a crônica e o cordel. Rouxinol de Rinaré e Arievaldo Vianna. Mediação Bruno Paulino. Sala 5, Mezanino 2.

SÁBADO, 22/04

– Bienal fora da Bienal
16h: O coração do mar é o vento – Uma roda de conversa no mar, com Daniel Galera. Local: Vila do Mar – Pirambu
19h: A literatura como modo de rebeldia urbana com Ignácio de Loyola Brandão. Local: Cuca Jungurussu

– No Centro de Eventos
15h: De Rachel de Queiroz a J.K. Rowling: O crescimento feminino na literatura. Sala 8, Mezanino 2.
20h: Cristóvão Tezza em diálogo com Lira Neto: Os mundos da criação literária em nossos dias. Mediação Cleudene Aragão. Salas 3 e 4, Mezanino 1.

DOMINGO, 23/04

16h: Daniel Galera em diálogo com Joca Reiners Terron:Cada pessoa por si ou ainda há gerações de escritores? Sala 1, Mezanino 2.
15h: As três leis da robótica e suas variáveis na Ficção Científica. Sala 8, Mezanino 2.
18h: Monstros Clássicos Na Literatura De Horror. Sala 8, Mezanino 2.
20h: Ignácio Loyola Brandão com mediação de Kelsen Bravos: O escritor como biblioteca viva. Salas 3 e 4, Mezanino 1.

 

Avia, minha gente! Tem tempo de sobra pra explorar esse mundão de letras e páginas.

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14 Responses to Cascaviando pela Bienal do Livro

  1. Vickawaii disse:

    Que bacana ler os relatos! Aqui em Porto Alegre não tem bienal, mas todo ano tem a Feira do Livro e eu adoro o clima da feira, as banquinhas com vários livros e claro, todo ano tem *aquele livro* que estou procurando por absolutamente todos os lugares.

    Beijos, Vickawaii
    http://www.neverland.com.br

  2. Gostaria muito de ir na Bienal deve ser incrível! Não acredito que você falou do Alquimista e do Paulo Coelho, esse é um dos meus livros favoritos!

  3. Olá! Bem interessante a resenha, é sempre bom ir nesses eventos de livros, na minha cidade sempre ia, aqui ainda não vi nada. Abraços e sucesso!

    http://www.pandapixels.com.br

  4. Bia Lourenço disse:

    A melhor parte de ir na Bienal é achar essas preciosidades, mesmo se precisar sentar/deitar no chão pra chegar lá. hahaha
    Fiquei muito interessada em Viagem Solitária, vou tentar encontrar uma cópia para mim.

  5. Júlia disse:

    Bienal é um evento maravilhoso, né? Vou sempre na de São Paulo (onde eu moro) e sou apaixonada pelo evento porque ver aquele monte de estante e estar rodeado por leitores é muito bom <3 (fora que sempre gasto rios de dinheiro com os livros maravilhosos que encontro lá).

    Beijos, Ju!
    http://naosepreocupecomisso.blogspot.com.br/

  6. Rubyane disse:

    Aaaaaaah que post gostoso de ler! Adorei a forma como você escreve *-*
    Que eu me lembre acho que nunca comprei um livro que nunca tinha ouvido falar em uma livraria física, ou mesmo em uma online. Mas imagino que deve ser ótima essa experiencia de comprar um livro sem saber muito sobre ele e se surpreender de forma positiva com ele.
    Dos livros citados no post eu tenho vontade de ler O livro das Coisas Perdidas. Adoro esse título dele e a capa é tão bonitinha!

  7. meioassimetrica disse:

    A Bienal acabou e eu nem fui, sabe o que estou sentido? Vou guardar dinheiro e me preparar para próxima, que não vou perder nem que eu esteja amarrada (rsrs). Seu post só aumento a minha vontade de conferi o evento.

  8. Sonho da vida é poder ir em uma Bienal, mas ainda não rolou. Dos nomes que você deu destaque só conheço o Paulo Coelho.

  9. Nunca fui a nenhuma bienal e morro de vontade. Ler posts como esse só aumentam minha vontade, deve ser maravilhoso para descobrir novos livros, autores…
    Beijos
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

  10. Willian Lopes disse:

    Perdi a Bienal de 2015 daqui do estado, o que quer dizer que a última que eu fui foi em 2013.
    Muito bom o seu post. Me deu aquela saudadezinha gostosa.
    Esse ano tem.

  11. Nossa! Que saudade de uma Bienal aqui em Brasília! A primeira e última que fui eu nem me lembro mais qual foi o ano. 🙁 e vendo você falar assim do livro achado que lhe encantou eu sinto até mesmo uma nostalgia em mim. Ô saudade!

    Até mais! O/
    Karolini Barbara

  12. Que aventura! E que post gostosinho de ler <3 Já conhecia a história de João Nery, mas só imagino a intensidade desse livro. Eu já tinha uma listinha de compras feita em todas as Bienais que fui aqui em São Paulo, mas decidir em cima da hora por um livro que você nunca ouvir falar geralmente resulta em surpresas incríveis! É sempre bom se arriscar com um livro novo. <3
    http://www.sentimentaligrafia.com.br

  13. Adoro esse formato interativo de alguns posts teus! Ainda tô chateada por não ter conseguido a biografia do Stieg Larsson 🙁

  14. Nanda disse:

    Eu amo o clima de Bienal. Todo ano viajo pro RJ ou pra SP (depende de onde vai ser naquele ano) pra poder ficar lá curtindo. E ainda vou na de Minas aqui em BH. Não me arrependo. Estar em meio aos livros e pessoas que amam leitura é muito bom! Fiz muitas amizades assim!
    Não gosto de livros de não-ficção. Apesar de ter gostado de Marley e Eu e Dewey, que são livros que contam a história de animais e são histórias reais… Mas é que realmente me sinto melhor lendo ficção.
    Adorei seu post, é bacana ver as impressões de outras bienais. <3

    http://www.papodefangirl.com.br

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