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As alegrias da maternidade e seus demônios: Tag Livros de outubro

Buchi Emecheta desvenda a mulher negra e mãe na Nigéria. As Alegrias da Maternidade foi indicação de Chimamanda Ngozi Adichie para o kit da Tag em outubro.

Buchi Emecheta foi, enfim, traduzida e publicada no Brasil. Através do clube de assinatura de livros Tag, a escritora nigeriana ganhou espaço fixo na estante de alguns leitores. O livro As Alegrias da Maternidade foi recomendado por Chimamanda Ngozi Adichie, que também é escritora e conterrânea de Buchi, sendo autora de Americanah e Meio Sol Amarelo, além do discurso Sejamos Todos Feministas e do manifesto Para Educar Crianças Feministas.

“E não somos todos de certo modo escravos dos brancos?” , perguntou Nnu Ego com voz estrangulada. “Se eles nos deixam comer, então comemos. Se dizem que é para não comermos, de onde vamos tirar comida?” – p. 164

Nnu Ego: vinte sacas de caurim

Nnu Ego, filha de Nwokocha Agbadi e Ona, é uma mulher que passa por intensos percalços para ser reconhecida como uma boa mulher e, consequentemente, uma boa mãe. Com sua história, o leitor compreende as estruturas culturais e sociais da Nigéria desde o início do século XX até a década de 1950, principalmente no que condiz à figura feminina na família nigeriana.

Longe de romantizar qualquer relação, Buchi Emecheta já propõe uma ironia no título de seu livro. Ser mãe é tão glorioso assim? E o livro já inicia com o desespero de uma mãe. Nnu Ego corre enlouquecida por Lagos, em pânico. Cheia de dores no corpo e na alma, só sabemos do motivo dessa algazarra bem depois. Pois, primeiro, Buchi nos conta quem foram os pais dessa mulher.

Nisso, a escritora já aponta o que é importante na sua cultura. Talvez não na cultura nigeriana, mas na cultura do grupo étnico Igbo, na cidade de Ibuza, ancestrais importam. O nome e a honra de uma família importam acima de tudo, e o peso disso recai principalmente sobre a mulher. Nessa época, mesmo na Nigéria dominada pela Inglaterra, a mulher ainda é mercadoria e ainda é propriedade dos homens. A forma como foi criado Nwokocha Agbadi, pai de Nnu Ego, deixa tudo bem evidente:

“Quando ele era moço, a mulher que cedia a um homem sem antes lutar pela própria honra não era respeitada.” – p. 17

A mãe, Ona, fugia ao que era considerado comum para o comportamento de uma mulher. Dona de si, orgulhosa, autoritária, arrogante, ela tinha tudo para enfurecer qualquer homem que sequer tentasse encostar nela. Ona só seria possuída pelo homem que ela achasse que merecesse para si. Mas nada acontece sem conflito. E os conflitos perpetuam de geração a geração.

“Esta criança é a escrava que morreu com sua esposa mais velha, Agunwa. Ela jurou que voltaria como filha. Agora, aqui está.” – p. 38

Nnu Ego nasceu atormentada pelo chi de uma escrava morta por Agbadi. Para vários dos problemas que Nnu Ego é obrigada a passar, a explicação atribuída é de que a chi dela precisa ser acalmada com oferendas e orações. Mesmo com o cristianismo se espalhando pela Nigéria, os costumes ancestrais não deixaram de prevalecer em situações como essa.

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Ao se mudar de Ibuza para Lagos, a fim de morar com o marido Nnaife Owulum, Nnu Ego logo percebe o quanto a vida é diferente. Em Ibuza, a agricultura era a base de tudo. Em Lagos, existem mercados, comércio nos portos, transporte marítimo e ferroviário, além da forte presença inglesa branca em imponentes casarões com dezenas de empregados nigerianos.

A modernidade espanta além do esperado. Com a vizinha, Nnu Ego fofoca sobre o trabalho do marido, que inclui lavar até roupas íntimas de uma mulher branca. Naquela vida, não mais se produzia só o necessário pra viver. Era o sistema capitalista se impondo à força sobre uma cultura que não estava pronta para recebê-lo.

“(…) meu pai libertou seus escravos porque o branco diz que a escravidão é ilegal. Só que os nossos maridos parecem escravos, não acha?”

“Todos são escravos, inclusive nós. Quando os patrões maltratam nossos maridos, eles descontam em nós. A única diferença é que eles recebem algum dinheiro pelo que fazem, em vez de serem comprados. Mas o pagamento só dá para alugar um quarto velho como este.” – p. 73

Buchi Emecheta faz questão de pontuar várias mulheres diferentes. Onu, Nnu Ego, Adaku, Adankwo, Mama Abby, Kehinde, Taiwo: todas são diversas, pensam diferente entre si e buscam conformidade ou autonomia, mesmo tendo de combater o faladeiro da vizinhança e a agressividade da aproximação com o gênero oposto. Não é apenas a cidade que muda: mulheres mudam num espaço onde coexistem passado, presente e futuro.

Todos os ciclos se fecham para crer que Nnu Ego fez de tudo para ser bem aceita. Como mulher, mãe e esposa, ela passou fome, trabalhou dia e noite, carregou o peso da madeira para vender lenha e o peso dos filhos para levar ao bico do seio. Nnu Ego não é diferente de muitas mulheres que conhecemos, que estão na vizinhança ou na própria família, que se desdobram em várias para fazer dar certo. Seja lá o que for.

5 oclinhos para As Alegrias da Maternidade.

Tag Livros de Outubro

O trabalho editorial no livro transcende a delicadeza em repassar a rusticidade da estória. Feito em parceria com a editora Dublinense, o livro teve tradução de Heloisa Jahn, tem as letras impressas num verde bem escuro e traz símbolos do sistema de escrita Nisibidi, original do sudeste nigeriano. O livro pode ser adquirido através da assinatura da Tag e, ao solicitar o kit, você receberá:

  • o livro As Alegrias da Maternidade;
  • marcador de páginas personalizado;
  • revista TAG falando sobre a curadora Chimamanda e sobre a autora Buchi Emecheta;
  • a caixa ornamentada com a identidade visual do livro;
  • o brinde do mês (um caderninho de anotações).

Ainda não tem a Tag? Assinando pelo link que está aqui, você receberá R$ 35,00 de bônus pra comprar o que você quiser na loja exclusiva para assinantes da Tag. Tem os kits anteriores (incluindo o kit de outubro com As Alegrias da Maternidade), além de cadernos, capas de tecido para livros, cases para celular, marcadores magnéticos e um monte de outros itens. Assine a Tag e vamos ler os próximos livros juntos!

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5 Responses to As alegrias da maternidade e seus demônios: Tag Livros de outubro

  1. A Tag realmente fez um ótimo trabalho, a qualidade parece ser de primeira e as quotes, citadas nesta postagem, são admiráveis em suas verdades.

  2. Olá!
    Eu não conhecia a obra, mas percebi que se trata de uma história bem atual.
    A Tag seleciona bem as obras que chegarão aos assinantes. Bem legal o trabalho que eles fazem além de ser bem próprio.

    Abraço!

  3. A TAG Livros vem surpreendendo seus assinantes, esse diferencial nas escolha das obras a serem distribuídas para seus assinantes é algo muito bom. E esse livro tem uma narrativa centrada, aborda seus temas de forma bem esclarecedora.

  4. Nossa uma boa leitura seria! Já estou curiosa para ler tudo! Mexe realmente com nosso interior!

  5. Olá, Falkner! Livro de utilidade pública, praticamente, né? Interessante… Os trechos:

    “(…) meu pai libertou seus escravos porque o branco diz que a escravidão é ilegal. Só que os nossos maridos parecem escravos, não acha?”

    “Todos são escravos, inclusive nós. Quando os patrões maltratam nossos maridos, eles descontam em nós. A única diferença é que eles recebem algum dinheiro pelo que fazem, em vez de serem comprados. Mas o pagamento só dá para alugar um quarto velho como este.” – p. 73

    Mexeram bastante comigo.

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