In Música

As 3 consequências da saudade

Nunca vai ser fácil falar sobre perda. Por mais que sejamos bombardeados com as perspectivas ideológicas de algumas religiões ocidentais e orientais de que a vida se renova em outro corpo e de que o corpo é somente uma passagem para a existência eterna, nem sempre é na palavra divina que encontramos conforto. A saudade fica, independente da crença.

Eu tive 2 lutos negados. Pelas circunstâncias nesses dois momentos, tive que engolir e me negar os sentimentos que eram meus por direito. Não foi por acaso que, no momento seguinte a esses eventos em que tive contato com os rituais católicos do luto, simplesmente desabei e me desliguei. Nosso luto tem que ser preservado, amiguinhos, e vivido e sentido.

Não falo só do luto pelo falecimento de alguém. Me refiro também à perda de amizades, os amigos que se afastam, as frustrações pelas escolhas na vida, as perspectivas que somos obrigados a desistir e, por fim, quando se calam as vozes que nos inspiram. Nesses dias pudemos sentir coletivamente o que foi isso.

O susto: Belchior

Os dias andam bem difíceis. Não que devessem ser fáceis, porque não existe desafio nem aprendizado relevante no que exige pouco de nós. Mas é que tudo parece ruir em horas como essa. Já não bastasse a loucura política, social, cultural e midiática, ainda somos bombardeados com a perda de Belchior.

Agora eu sou bem melhor juntando as palavras. Escute a melodia porque meu amor está ali, escondido.” – A Song for You, composição de Leon Russel e interpretada por Amy Winehouse no álbum Hidden Treasures

Pois chegou o domingo e, com ele, a notícia do falecimento de Belchior. O cantor que acabou virando meme pelo seu “sumiço”, andava querendo voltar à ativa e, quem sabe, contar e cantar as suas preocupações com o status brasileiro atual. Na madrugada de sábado para domingo (30/04), em Santa Cruz do Sul (RS), Belchior estava nos seus 70 anos quando, de acordo com médicos do IML da cidade, sofreu uma dissecção na aorta.

Os quase 40 anos de carreira serviram pra cativar muita gente. É de se esperar que a comoção seja generalizada e rompa, até, os posicionamentos políticos de cada um. A dor não se julga e, dela, não se tira proveito. Nesses momentos, só aquele belo abraço consola o vazio repentino que se instaura no meio da alma.

A revolta: Amy

O single Back to Black, da Amy Winehouse, completou ontem, dia 30/04/2017, seus 10 anos de lançamento. Amy foi a grande voz contemporânea das paixões arrebatadoras, que chegam, impressionam, destroem, dilaceram e deixam cicatrizes. Back to Black acaba relatando a insistência da saudade e a teimosia das lembranças boas e ruins de relacionamentos antigos (e atuais, com o Blake).

Lembro bem do dia em que Amy foi encontrada morta em sua casa em Londres. Fazia pouco tempo que ela estivera no Brasil. Mesmo contrariado de que ela estivesse em recuperação dos vícios e com os fãs suspeitando de que ela estava sendo forçada pela sua gravadora Universal a fazer a nova turnê mundial, ainda assim, todos queríamos vê-la.

Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua, é que se fez o meu lábio, o meu braço e a minha voz.” – Como Nossos Pais, de Belchior

Passei dias em angústia por não poder ir ao show em Recife porque algo me dizia que, se ela continuasse naquele ritmo desenfreado e sem o devido cuidado da família, seria uma das últimas vezes que cantaria. E, certamente, a última vez que eu e milhares de fãs poderíamos vê-la sobre o palco.

Eu e minha mente chapada e minhas lágrimas secas seguimos sem meu cara.” – Back to Black, de Amy Winehouse

A notícia da overdose se espalhou pelo mundo com uma nota aguda de veneno. Drogada, bêbada, largada, viciada, submissa, birrenta, desgraçada sofredora, desrespeitosa com o público, teimosa com os patrões, foi bem feito o que ela teve: os comentários de “ela teve o que procurou” iam de mal a pior. A vontade em destilar veneno pra se destacar e criticar um problema social (ou particular, no caso da Amy) acaba sendo maior do que a honestidade em ficar caladinho, sem falar do que não entende. Estamos bastante mal acostumados com essa merda da empatia seletiva.

Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho, algum punhal de amor traído completara o meu destino.” – Coração Selvagem, de Belchior

Ainda assim, é bonito ver momentos nos quais deixamos as diferenças de lado. O último dia do Maloca Dragão, em Fortaleza, foi marcado pela homenagem de vários cantores no show Viva Belchior. Afinal, o que importa é o legado que o artista deixa pra nós de presente, bem assim, de mão beijada. A voz e a presença farão falta, e o paradeiro do rapaz latino americano já assumiu seu caráter de grande mistério da humanidade.

A lembrança

Sirius Black foi um dos personagens que mais deixou o gosto amargo da saudade na boca dos fãs de Harry Potter. No seu momento de destaque na saga, pelo menos no filme, ele falou:

Aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade.

Passamos por todos aqueles estágios do luto pra aceitarmos a ida de alguém para a inexistência presencial. Uma pessoa que faleceu, ou que foi embora pra seguir um sonho, ou que se afastou pelas circunstâncias da vida, ou que prefere se manter ausente pela própria sanidade, todas são perdas que acabam tendo alguma semelhança. A Anna Schermak, do Pausa para um café, tem um vídeo lindo sobre o ato da despedida, que eu sempre vejo e sempre enche meus olhos de emoção.

O adeus nunca vai ser fácil. Por mais que haja uma possibilidade do reencontro, é tudo incerto e se apega no fator das probabilidades. A saudade que fica é uma dorzinha insistente e chata, mas tal hora ela transcende em aceitação. Adeus nenhum é tão difícil que não possa ser verbalizado e não é por isso que estaremos abrindo mão de tudo que passou, dos fatos ocorridos, da história acumulada.

Por fim, só queria dizer que, sim, é comum nos sentirmos desamparados e solitários diante das perdas. Pode ser preocupante que tanta gente preze pelo desapego dos laços coletivos e preguem por aí a individualidade fajuta da nossa espécie que é, essencialmente, social. Mas não estamos vitimados à solidão. Podemos nos sustentar e pegar força das memórias e lembranças, das prosas e poemas, dos momentos e das canções de quem já se foi. Ainda que só por um tiquinho de tempo, não estaremos tão sozinhos assim.

***

Um post dedicado ao Belchior, à Amy, à Alvani e à Estela.

 

COMENTE AQUI!

, , , , , , , , , ,

Comente aqui!