In Séries

A arte culinária transcendental de Jeong Kwan em Chef’s Table

Masterchef me fez entrar no limbo dos realities de culinária. Dá um prazer bem gostoso, uma sensação relaxante em ver outras pessoas cozinhando, ainda que nas situações mais adversas de pressão. Chef’s Table, entretanto, transcende todo esse aspecto e não mede esforços em mostrar a culinária e a gastronomia como uma arte da emoção.

Caso queira, você pode ir logo ao que interessa:

>> Na mesa de chefes
>> Cultura e religiosidade
>> Vida e obra de Jeong Kwan

Chef’s Table tem um formato diferenciado de uma série comum ou de um reality show. Idealizado como uma série de documentários, essa produção da Netflix se distancia em todos os aspectos de Masterchef, Top Chef e Kitchen’s Nightmare, e anda de mãos dadas com produções dos canais National Geographic, History Chanel e Animal Planet.

Na mesa de chefes

Em cada episódio, conhecemos a história de cozinheiros e chefes de cozinha de várias localidades do mundo. As narrativas são construídas de forma a unir as pontas entre vida e arte culinária, descrevendo sempre com bastante delicadeza a maneira como a cozinha se revela na vida de cada profissional. Veja o trailer da terceira temporada no vídeo:

Todo capítulo tem o seu grande mérito em quesitos de produção, fotografia, quadros inusitados, sequências de faltar o ar dos pulmões, roteiros impecáveis e trilha sonora bem delineada a cada nova sensação. E isso tudo unido, é claro, à emotividade enraizada na construção de cada prato e na exposição de detalhes da vida particular dos chefes.

Chef’s Table estreou em 2015 e está agora na sua terceira temporada, que entrou no catálogo da Netflix em 17 de fevereiro desse ano. Confesso que não assisti a todos os episódios, até porque todos eles são independentes entre si, então não tem a mínima necessidade de linearidade. Mas é absurdo de evidente a maneira como a produção evoluiu e chegou no nível do transcendental no seu primeiro episódio da terceira temporada, que conta a história da coreana Jeong Kwan.

Cultura e religiosidade

Estamos na Ásia. Essa é uma cozinha que se opõe diretamente aos gostos ocidentais. Animais de todo tipo, incluindo insetos, fungos, frutos do mar, ervas, raízes e flores: basta a gente pensar num sushi ou num yakisoba pra perceber as diferenças entre o que é popular por aqui e o que é cultura milenar por lá. Aparentemente, no meu olhar de leigo (e posso estar enganado em 300%), são culturas alimentares que chegam a se opor uma à outra quando a gente põe lado a lado.

Kim Chi, por exemplo, é um prato típico da culinária coreana. (Na verdade, o nome do prato é kimchi, ok?)

É como se tivéssemos nos acostumado à explosão, à agressividade dos temperos, às brigas de sabores dentro da boca, enquanto a cozinha de países asiáticos tem particularidades que nos custa a assimilar. Talvez, por conta disso (mas não só por isso!), é que a principal imagem promocional da terceira temporada de Chef’s Table seja uma das criações de Jeong Kwan.

Chá de Flor de Lótus feito por Jeong Kwan. A imagem do chá com a flor compõe peça promocional da terceira temporada de Chef’s Table.

De acordo com censo realizado em 2015 na Coréia do Sul, quase 8 milhões de pessoas, cerca de 15,5% da população sul coreana, se considera budista. Ainda que o cristianismo invada o país cada vez mais (27% da população, ou 13,5 milhões de pessoas), o budismo resiste com bastante força e sustenta a milenaridade cultural da religião, do modo de vida e de aspectos mais singelos, como a culinária.

Nesse episódio de Chef’s Table, vamos direto para o templo budista de Baegyangsa, localizado em Bukha-myeon, distrito de Jangseong, província de Jeolla do Sul. Tudo isso pra dizer que é um lugarzinho bem mínimo ao sul do país. Esse templo segue o budismo da Ordem de Jogye, vertente budista predominante na Coréia do Sul por mais de mil anos. E é lá onde encontramos a monja (ou freira budista) Jeong Kwan.

Anyoung haseyo! (Saudação em coreano.) – Fonte: The Upcoming.

Já tive alguns contatos com o Budismo, mas nunca me aprofundei. Contudo, deu pra sentir que é bem mais que uma religião, com finalidades para concentrar seguidores, espalhar doutrinas, ditar regras e reprimir atitudes comuns na forma de pecados. Nunca me senti bem nos cultos e rituais de nenhuma religião ocidental, mas foram em leituras e integrando reuniões budistas que senti paz, confiança, respeito, integridade, calma e segurança emanando de todos os lados.

Mas eu sei que o Budismo é bem mais intenso que isso. É a busca pela experiência plena do ser humano mantendo o respeito com o próximo, sejam pessoas, animais ou plantas, porque, afinal, todos compartilhamos um mesmo ecossistema, que é só uma bolhazinha de ar na imensidão do universo.

Foi exatamente tudo isso que senti ao conhecer a história de Jeong.

Vida e obra de Jeong Kwan

Sabe aquela pessoa que você, por acaso, conhece e você pensa “Quero ser ela quando crescer”? Pronto. Essa foi minha reação depois de assistir ao episódio de Jeong.

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É tanta calma, tanta paz dentro dessa pessoa, que fica difícil não admirar quem ela é. Muitas vezes ela nem parece humana, de tão transcendental. É quase uma entidade que chega pra gente e diz no ouvido “Quero te convidar a ser uma pessoa melhor. Vem comigo?”

Jeong não tem restaurante e também não vende sua comida. Ela cozinha para todos no mosteiro onde mora e segue sua doutrina. Algumas vezes na semana, dá aulas de cozinha vegetariana para alunos universitários. Em certas ocasiões, cozinha para a comunidade e serve a todos. Pra completar, ela ainda cuida da própria horta e não se incomoda em cercar a plantação contra os animais porque, pra ela, é tudo um ciclo natural.

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Existem dois momentos extremamente marcantes que me emocionaram bastante. Primeiro, a cena em que mostra Jeong lavando a cabeça e se preparando pra raspar o cabelo e deixar a careca bem rente. Não é nenhum drama de Laços de Família, mas são imagens delicadas e me deixou pensando no que significa entrar em comunhão com um ambiente de pureza e iluminação.

No segundo instante, e aqui podemos ter algum SPOILER, Jeong conta como se deu a sua saída de casa. Na busca pelos significados da existência, ela foge de casa ainda adolescente e vai direto para o mosteiro pedir abrigo, onde foi acolhida e passou a seguir o budismo na sua maior intensidade. Não que sua família tenha ficado de lado, porque Jeong afirma categoricamente que sentia falta deles e pensava em voltar pra casa e tinha inúmeras inseguranças quanto à sua postura dentro do mosteiro.

Lições de desapego

É impressionante o poder de uma decisão nas nossas vidas. Partir de casa sem nada nos bolsos pode até soar como uma velha música da MPB, mas nem se compara à sensação exponencial de tentar ser alguém melhor e elevar seu espírito à instância do divino.

Desapego não é pra todo mundo, e a gente tem o costume febril de manter relações abusivas nas quais nos sentimos inferiores, só pela necessidade em ter alguém por perto. E isso pode partir de qualquer canto: família, amigos, namoros…

Quanto ao materialismo, nem se fala! O que é um iPhone parcelado pra moral e pro ego de alguém? Fora aquela insistente necessidade de buscar um futuro próspero. E o que é esse maldito futuro próspero, se só nos dizem que significa ter emprego, ter diploma, casa própria, carro e construir família?

Seja lá por qual motivo for, largar tudo é uma vontade insistente que se acumula dentro da gente e vai virando uma bola de neve. Se não temos como aliviar, como exalar esse sentimento, ele vai nos consumindo por inteiro, até chegar no patamar do insuportável. São tantas pressões, tantas moralidades, deveres e rituais sem valor impostos a nós desde o nascimento, que fugir, muitas vezes, tá fora de cogitação.

O jeito é respirar fundo, assimilar uma informação por vez, deixar que as coisas fluam. Tranquilidade, paz, ternura e prosperidade nem sempre são alcançáveis, mas se a gente não busca isso, como que um dia teremos o prazer de dizer que somos plenos? Foi essa a inspiração que Jeong Kwan trouxe pra mim, e na hora mais certa possível.

Nessa entrevista para o The Upcoming, Jeong fala sobre a experiência de participar de Chef’s Table, como foi assistir à sua própria história e mais alguns detalhes sobre a convivência e a importância de seus pais. O vídeo possui legendas em inglês, com tradução para português, e a entrevista também está descrita no site do The Upcoming, em inglês.

Ela nem precisa disso, mas ainda assim classifico esse belíssimo trabalho com 5 oclinhos míopes.

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Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

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