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Aniquilação, impotência e medo em Attack on Titan

Qual foi a última vez em que a humanidade se sentiu impotente? Eu não consigo lembrar nem da primeira vez em que nossa espécie chegou a sentir isso. Nos sentimos tão superiores, tão donos do mundo por estarmos sempre no topo da cadeia alimentar que jamais paramos pra pensar coletivamente no que significa sentir-se como uma formiga: pequenos, fracos e indefesos.

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Alguns podem fazer uma leitura da Bíblia Sagrada e pensar “somos incomparáveis ao poder de Deus”, mas o aspecto teológico da coisa jamais vai chegar a nos ferir fisicamente. Pessoas se matam em guerras, tribos africanas e indígenas são dizimadas, etnias sofrem genocídios. Mas o sentimento nunca vai bater. O medo de deixar de existir jamais irá aflorar enquanto não nos sentirmos fisicamente, psicologicamente e socialmente sem escolhas, a não ser por nos sentirmos infinitamente na desgraça.

A pintura “Saturno devorando um filho”, de Francisco de Goya, representa muito bem toda a simbologia dos Titãs contra a humanidade indefesa

Shingeki no Kyojin (Attack on Titan, no inglês, e “Ataque aos titãs”, em português) traz toda essa aura de desesperança. Trata-se de uma história com roteiro e ilustrações do japonês Hajime Isayama publicada pela primeira vez em 2009. A adaptação da série em anime estreou em 2013 com direção de Tetsurō Araki, que trabalhou nos anos de 2006 e 2007 com o anime Death Note. Com 25 episódios, a primeira temporada da série foi bastante aclamada pelo público e pela crítica especializada. E dá pra entender direitinho o porquê.

Explicando esse mundo

No futuro escrito por Hajime Isayama, estamos em uma realidade apocalíptica para a humanidade. O armagedom está acontecendo e presenciamos todo esse conflito: surge uma ameaça para a humanidade na forma de gigantes. Não se sabe de onde estes seres vieram ou qual o propósito em devorar pessoas, mas eles acabam com boa parte da humanidade a ponto de que nossa espécie entre em risco de ser extinta.

Acuada, a humanidade se reúne em um único local. Juntos, pessoas de vários continentes* constroem um sistema de cidades rodeadas por muralhas e desenvolvem técnicas para deter os Titãs, como passam a ser chamados os gigantes. (*Sim, eu senti uma falta tremenda de etnias negras, e isso pode ser um sério problema de inclusão e representatividade na série. Não haveria razão plausível pra isso, a não ser uma explicação bastante grotesca da dizimação étnica.)

As três grandes muralhas construídas são Maria, Rose e Sina, uma interna à outra e mais reforçada ao centro. As pessoas se dividem entre distritos localizados a Norte, Sul, Leste e Oeste de cada muralha. De cara, já percebemos que a divisão se trata de um mérito socioeconômico: a população mais externa das muralhas são mais pobres, enquanto a população mais interna é composta por comerciantes e símbolos da realeza, incluindo o próprio rei.

Durante décadas a humanidade tenta estudar as criaturas e descobrem seus pontos fracos e detalhes ameaçadores: elas regeneram todos os membros perdidos e atacam mesmo sem cabeça; comem apenas para matar pessoas, e não pela fome, pois nem digerem o que engolem; elas não têm gênero, mas também não se sabe como ou se se reproduzem. Quanto ao seu ponto fraco, existem apenas dois: a nuca e o tendão de Aquiles. Cortando parte da nuca fora, os titãs morrem, enquanto um corte no tendão de Aquiles, eles apenas ficam mais lentos.

Plot central

No anime, conhecemos Eren Jaeger, um jovem que tem a pretensão de ingressar nas brigadas de defesa contra os Titãs. Eren mora na cidade de Shiganshina, na muralha Maria, a mais externa das três. Somos apresentados aos pais de Eren e a Mikasa Ackerman, amiga órfã acolhida pelos pais de Eren.

Sentimos a tensão dessa nova realidade já de cara: o primeiro episódio da série aborda a invasão dos titãs ao distrito de Shiganshina, e não são cenas agradáveis. Um titã da escala de 60 metros abre passagem na muralha para que os outros titãs menores de 5, 10 e 15 metros atravessem. Na cidade, o caos é palpável: pessoas devoradas, membros decepados, sangue a todo lado, desespero, medo, gritos. Ninguém tem como se salvar, nem mesmo a divisão militar está preparada pra lidar com os monstros.

Comparação entre as alturas de uma pessoa, os titãs e a muralha

No ataque, (impossível contar a história sem SPOILER) o pai de Eren desaparece e a mãe é devorada por um titã. Desde então, Eren se enche de fúria, raiva e ódio dos titãs, e toma a destruição das criaturas como o propósito da sua vida. Com a ocupação dos titãs em Shiganshina, as pessoas sobreviventes são encaminhadas para o distrito de Trost, na muralha Rose.

Eren entrando no modo Super Sayajin

Os três amigos Eren, Mikasa e Armin Alert formam o trio do sucesso, o mais próximo possível de Harry, Rony e Hermione. Eren é temperamental e impulsivo; Mikasa é fria, calculista e habilidosa com os equipamentos de aniquilação dos titãs; Armin é absurdamente estratégico, inteligente e detalhista. Cada um deles tem o seu momento de destaque (geralmente envolvendo Eren em perigo, pra variar).

Muitos gritos de dor, medo e desespero nos mostram o quanto somos fúteis como espécie. Nos preocupamos tanto com superficialidades e deixamos de lado o equilíbrio que as forças naturais sempre buscam alcançar. (Aqui vai uma suposição minha, pura metáfora:) Os titãs são a personificação da reação da natureza contra a maior doença que o planeta já teve: a quebra do equilíbrio causada pela humanidade. Místico ou consequência da devassidão humana, os titãs são criaturas que ainda vão ganhar umas belas batalhas contra a espécie humana.

Depois do anime

Desde a finalização da primeira temporada do anime, em 2013, foram produzidos dois filmes em live action: Shingeki no Kyojin Zenpen – Guren no Yumiya (Attack on Titan – Part 1: Crimson Bow and Arrow), de 2014, e Shingeki no Kyojin Kōhen – Jiyū no Tsubasa (Attack on Titan – Part 2: Wings of Freedom), de 2015. Os filmes compreendem os episódios de toda a primeira temporada do anime. O trailer da primeira parte você pode ver a seguir:

O hiato de quase 4 anos, contudo, vai terminar agora em 2017. Em abril deste ano será lançada a segunda temporada do anime, que irá prosseguir na fábula de Eren, Mikasa, Armin e os titãs. Chega aqui pra ver o trailer também:

A primeira temporada de Shingeki no Kyojin (acho que soa bem melhor no título original, hein) é sangrenta, intensa, cheia de perdas e plot twists. Muitas vezes, se torna impossível parar de assistir devido aos cliffhangers no fim dos episódios. É produção pra caramba que te deixa hipnotizado pelo traço lindíssimo do desenho, uma trilha sonora absurdamente caprichada e uma trama que literalmente tira o fôlego. Tem muito susto, muita ficção, muita abstração e um tanto mais a se pensar sobre o nosso papel como espécie no planeta.

Nota aos gigantes

Esse é, com toda certeza, um dos melhores animes existentes. Pela qualidade do enredo, pela beleza e delicadeza de cada cena (até nas mais grotescas e difíceis de ver), não é por acaso que deixo 5 oclinhos aos Titãs.

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One Response to Aniquilação, impotência e medo em Attack on Titan

  1. Diego disse:

    Não tem como não se impressionar com esse anime, mas tão bom quanto esse anime foi a publicação dessa matéria nesse site. O texto bem escrito e os fatos mostrados pelo autor do texto mostram como ele é apaixonado pelo que faz e também apaixonado pelo anime.

    Bom trabalho 🙂

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