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[análise] O Planeta dos Macacos: ficção científica com Antropologia e Psicologia

Ficção científica vai além de robôs e guerras espaciais. O livro desta análise, O Planeta dos Macacos, mostra que as Ciências Humanas também estão nessa literatura desde 1960.

O Planeta dos Macacos, romance de 1963 que consagrou Pierre Boulle, é considerado ficção especulativa por supor a existência de um planeta capaz de abrigar vida, além dos elementos de viagem interespacial. O autor não traz muita sustentação de base científica acerca disso e, portanto, cabe essa classificação de ficção especulativa, e não de ficção científica.

Mas discordo dessa classificação. Esse romance tem muito mais de científico do que consideram os críticos e as editoras. Por isso, se engana demais quem acha que a parte científica está na viagem interespacial ou na tecnologia. A ciência, aqui, tá no que se deturpa sobre a concepção do que é ser humano através da Antropologia e da Psicologia.

Ficção de humaninhas

É fato que as Ciências Humanas mudam pouquíssimo durante o tempo. A impressão que fica é que as Exatas recebem novas técnicas, descobertas, procedimentos inovadores e na qual os paradigmas se quebram e pronto (na maioria dos casos, pelo menos… ou assim se mostram a Física, a Química, a Matemática e a Biologia).

Já nas Humanidades esse processo é barrado pelas linhas de pensamento. Professores esquecem que as áreas são plurais e fluidas e dão suas versões como definitivas e únicas. Não é difícil encontrar estudante de Letras, História, Comunicação, Artes, Direito, entre outras, que acusem suas áreas de serem retrógradas, atrasadas, perdidas no tempo, usando métodos que já não se aplicam hoje em dia, mesmo com todo o panorama de mercado e contexto social atuais.

Por isso o filme A Chegada me impactou tanto. A Chegada traz a ficção científica através da Linguística. E a ciência que se ficcionaliza no livro de Pierre Boulle também é da área de Humanidades, e não das Exatas. É estranho ver conceitos psicológicos e antropológicos sendo tratados de maneira fictícia, por vezes invertida e até futurística. Essa impressão acontece justamente porque são conceitos que se internalizaram na sociedade com o tempo e já tomamos como senso comum, coisas imutáveis, como as concepções de Civilização e Cultura.

Por “civilização”, podemos entender como pessoas que vivem em harmonia e em ordem, de maneira “civilizada”. Em 1929, o historiador francês Lucien Febvre realizou um seminário explorando o termo “civilização” (Fonte – Cultura: A visão dos antropólogos, de Adam Kuper, 2002, EDUSC). De acordo com ele, civilização tem 2 definições:

1. Concepções (aspectos materiais, intelectuais, morais e políticos da vida social) que um pesquisador leva em consideração ao estudar o modo de vida de um grupo de pessoas;
2. A nossa própria sociedade como modelo ideal, sendo supervalorizada e restrita a um grupo de pessoas privilegiadas.

Até um tempo atrás (1920) os tupi-guaranis, por exemplo, não eram considerados civilizados, e eram chamados de selvagens, pessoas sem “civilidade, cortesia e sabedoria administrativa” (Fonte – Cultura: A visão dos antropólogos, de Adam Kuper, 2002, EDUSC). Mas isso em comparação ao modo de vida que levam a maioria das pessoas vivendo na cidade.

Sobre cultura, implicamos de maneira vulgar as expressões culturais, como folclore, lendas, costumes e principalmente as artes. Freud, pra definir “cultura”, levava em consideração “todos os aspectos em que a vida humana se elevou acima do seu status animal e difere da vida das feras” (Fonte – The Future of an Illusion, de Freud, 1961, Hogarth Press). Para ele, existe sempre uma oposição “homem educado” e “animal instintivo”. Adam Kuper esmiúça o pensamento do Freud:

“A cultura transforma um simples ser humano em deus. (…) Mas esse poder é conquistado com grande esforço. O processo de educação do ser humano é considerado puramente externo, imprimido pela força. Assim como o indivíduo faz o sacrifício atroz das fantasias edipianas, ‘toda civilização deve ser erguida sobre coerção e renúncia do instinto’. A sublimação estimula a criatividade cultural, mas impõe grandes sacrifícios da liberdade sexual e exige o controle da agressividade.”Adam Kuper em Cultura: A visão dos antropólogos, 2002, EDUSC, p. 56 - 57

E é a partir disso que a gente consegue entender melhor a dimensão que O Planeta dos Macacos tem. Porque todos esses valores são invertidos no momento em que a espécie humana se animaliza e perde todas essas características de civilidade e age com o instinto animal.

Planeta Soror

No livro, um grupo de cientistas homens (no sentido da espécie e no sentido do gênero, praticamente só tem homens aqui) partem numa expedição espacial para um planeta distante com as mesmas características físicas e químicas da Terra. Chegando lá, esses homens se deparam com o novo paraíso, um território pacífico e inabitado só esperando pra ser colonizado. Certo…? Errado!

Esse lugar, ao qual batizaram de Soror, é habitado por humanos. Mas esses novos humanos não parecem compartilhar da mesma sensibilidade que os humanos da Terra. Esses são completos selvagens: não se comunicam por palavras, não desenvolveram cultura, não dominam o fogo, não constroem moradia, não cultivam ou tratam o alimento e o mais curioso: não riem. Vivem em ninhos coletivos, pelados, sem noção alguma de religiosidade ou de conceitos básicos como família.

O único sentimento que essas pessoas parecem conhecer é o medo. Medo porque os humanos são tratados como praga animal, que se reproduz incessantemente e representam um perigo a outra espécie. Portanto, são livremente mortos, capturados, escravizados, torturados, condicionados, adestrados e estudados por essa outra espécie, a dominante da cadeia alimentar de Soror.

Essa é a sociedade dominante formada essencialmente por várias espécies de macacos: chimpanzés, gorilas, orangotangos em sua maioria. São estes que vivem numa comunidade organizada, dotada de conhecimento técnico, cultura, costumes, noções individuais e coletivas, fé religiosa e tudo mais que, supostamente, fazem de nós “humanos”.

Ulysse, o humano falante

Ulysse Mérou é um dos cientistas que partiram para explorar Soror. Ele acaba sendo capturado por uma investida da sociedade dos macacos e é encaminhado a um laboratório. Neste lugar, ele vai passar por diversos estudos e desperta a curiosidade (e o espanto) dos macacos cientistas por ser diferente dos outros humanos. No entanto, ser diferente faz de Ulysses um alvo e ele deve provar a toda uma sociedade cética que humanos podem ter conhecimento, cultura e formar uma sociedade civilizada.

Pierre Boulle inverte toda a realidade e quebra vários estereótipos de humanidade. Vendo do nosso ângulo de humanos da Terra, quem disse que cultura é só do homem? Existem divergências nos dois extremos dizendo que animal algum desenvolve cultura. Mas também são várias as pesquisas que afirmam primatas de algumas espécies serem capazes de desenvolver hábitos (ou costumes) que fogem ao instinto de sobrevivência individual e coletivo da espécie e são repassados de geração em geração. E isso vai bem além do que pode ser aprendido por influência externa.

É por aprendizado que chimpanzés e gorilas, por exemplo, conseguem até se comunicar através da Linguagem de Sinais. Mas é preciso que humanos que já possuem esse conhecimento repassem o que sabem a esses animais. Como o caso da Koko, uma gorila que aprendeu a linguagem de sinais, responde a comandos orais e expressa sinais de humor.

Os experimentos

Em um dado momento, Ulysse é aprisionado numa jaula no laboratório, junto de outros humanos também separados individualmente em jaulas. De repente, os macacos cientistas iniciam alguns testes com os humanos. Mas, para Ulysse, é como jogar Super Mario World já conhecendo todos os macetes e segredos. Pois ele sabe que esses experimentos são derivados da Caixa de Skinner.

Talvez você já tenha ouvido falar do experimento da Caixa de Skinner. Não lembra? É aquele experimento que aparecia constantemente em filmes e séries dos Estados Unidos nos anos 1990 no qual jovens estão fazendo experimentos com ratos numa caixa. Geralmente, o animal é privado de algo essencial, como comida ou água, e deve manifestar um comportamento pré-determinado pelo experimentador para, só então, receber o que lhe foi privado, quase como uma recompensa.

De acordo com a Comissão de Ética no Uso de Animais, existem alguns fatores determinantes no manejo de animais em experimentos. As normas estipulam, por exemplo, o tempo máximo de privação de água que o animal pode passar ter sofrimento e a manutenção desses animais em convívio coletivo (no caso de espécies que são consideradas animais sociais, como os ratos).

Então, obviamente, não são experimentos realizados de qualquer jeito. (E se você conhece algum sabidinho fazendo isso irregularmente, denuncie! Sério!) Em O Planeta dos Macacos, há um momento no qual os macacos até duvidam que os humanos possam sentir dor como eles. E é um pouco do que muitos de nós pensamos de certos animais: que eles não sentem dor como sentimos, que eles são desprovidos de pensamento, sentimentos e terminações nervosas. Para esses macacos, toda dor humana é suportável, e assusta perceber que muitos humanos da nossa realidade pensam exatamente o mesmo dos animais.

Psicologia ímpia

Na Psicologia, B. F. Skinner tem bastante influência nos estudos sobre comportamento, tanto em humanos quanto em outros animais. Então existem vários experimentos induzidos por ele para saber, por exemplo, de que forma se dá o aprendizado de um comportamento ou para entender em quais circunstâncias ocorre um comportamento. E é exatamente isso que os macacos da história fazem com os humanos.

A Caixa de Skinner, no caso, é um instrumento que enfatiza o reforço natural, ou seja, a resposta a uma necessidade instintiva e vital. É a partir de estímulos externos e recompensas que animais humanos e não-humanos aprendem e reproduzem um comportamento desejado pelo pesquisador ou indutor. Em Planeta dos Macacos, no caso de Ulysse e dos outros humanos aprisionados, querem que eles fiquem no centro da jaula, subam em caixas, manejem objetos e reajam a comandos para ganhar ração.

Como Ulysse não conseguiu estabelecer uma comunicação com os macacos, ele simplesmente acata aos experimentos com enorme sucesso na tentativa de dizer que ele não é como os outros. Entrega até além do que o esperado em resultados, pois ele sabe exatamente o que os macacos buscam com aqueles testes.

Ulysse até menciona estudos de Ivan Pavlov, reconhecido pelo trabalho sobre condicionamento, e de C. Lloyd Morgan, psicólogo famoso pelos experimentos em psicologia animal. Mesmo assim, os macacos reduzem o sucesso de Ulysse a repetições e condicionamentos, como se Ulysse já tivesse sido adestrado por outros macacos anteriormente. O mesmo que talvez você tenha feito ao ver 10 segundos do vídeo da gorila Koko.

Que humanidade?

E nesses impasses o questionamento permanece o mesmo durante todo o tempo: O que é ser humano? O que faz de nós humanos se esses macacos conseguem realizar exatamente o mesmo que nós? Por que nos definimos humanos pela convivência coletiva com civilidade se várias outras espécies também fazem o mesmo? Acumular conhecimento é típico da humanidade? Repassar costumes e noções coletivas é próprio da humanidade?

Não!

O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle, passa longe de ter um discurso ecológico. Chego a crer até que influenciou um pouco demais o filme Avatar. De toda forma, os questionamentos são indiscutivelmente certeiros e podem dar um nó no cérebro de quem lê. Afinal, não somos únicos na Terra e, possivelmente, não somos exclusivos no universo. Se é preciso matar, escravizar, perpetuar preconceitos e rancores, repelir e demonizar pensamentos e instintos, talvez eu nem queira ser civilizado. Talvez nem valha a pena ser humano.

O Planeta dos Macacos
Título original: La planète des singes
Edição de 2015 da Aleph
ISBN: 9788576572138
216 páginas
Nota Skoob – 4.5 | Nota Goodreads – 3.92
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