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Abominação, blasfêmia e bruxaria na estreia de Gary Whitta

Até o momento, 2017 tem sido um ano gratificante em leituras. É sensacional poder acompanhar de perto o trabalho de uma editora popular entre os jovens, como a DarkSide Books porqueo catálogo da editora vem ganhando acréscimos incríveis. 2016 foi o ano de Mary E. Pearson, autora de Crônicas de Amor e Ódio (e até comentei a leitura de The Kiss of Deception aqui no Desfalk), e agora, quem sabe, pode ser um bom ano pro ápice da fantasia dark, principalmente depois do lançamento de Abominação, de Gary Whitta.

Prepara a espada e a mochila e vem mergulhas em mais uma fantasia dark:

Há algum tempo eu vinha com sede por lutas, guerras, sangue e até um belo gore bem feito. O que eu não queria era ter que voltar pra Crônicas de Gelo e Fogo, por mais que a culpa bata na consciência por ter abandonado o volume 4, O Festim dos Corvos. Divulgado Abominação, senti que tava na hora de sair da zona de conforto dos autores conhecidos e das estórias agradáveis. E aconteceu: recebi o romance de estreia de Gary Whitta através da parceria com a editora responsável pela publicação do autor no Brasil, a DarkSide Books.

>> Gary Who
>> Feras
>> Religião
>> Macabras referências
>> Boa surpresa

Após a saga de ir atrás do pacote da editora nos Correios, devido a todos os problemas que a ECT tem enfrentado nos últimos meses, recebi o pacote com muita gratificação. No kit enviado pela Darkside vieram um pôster com a ilustração da capa do livro, um besourinho com rodinhas (daqueles de brinquedo, uma graça!) e o livro, tudo numa caixa de latão estampada com o símbolo do besouro. Encanto teve muito! E a leitura começou pouco tempo depois

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Gary Who

Esse fui eu me perguntando de onde saiu Gary Whitta. Abominação é o seu romance de estreia, mas ele não é amador na arte da criação de tramas. Envolvido na equipe criativa de Star Wars, Gary fez parte do roteiro de Rogue One e da animação Rebels, fora os filmes O Livro de Eli e Depois da Terra.

Rogue One foi um dos melhores filmes que assisti em 2016, me impactou de forma bastante gratificante. A possibilidade de ler um livro de um cara envolvido nessa produção me encheu de entusiasmo. Óbvio que eu iria ler o quanto antes! E a experiência do cara no cinema se transfere quase diretamente às páginas de um romance. A escrita dele é bastante visual e segue uma estrutura fílmica que divide a trama em cenários e datas distintas, que foi até um recurso usado em Rogue One, lembra? Tudo acaba sendo extremamente fluido e ágil, não cansa nem decepciona.

Feras

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Abominação narra tempos antigos da Inglaterra de 888 d.C., momento no qual o reino de Wessex, que escapou das invasões nórdicas, tenta manter sua compostura reunindo recursos pra um futuro incerto entre se fortificar e se defender de possíveis ataques Vikings. Alfredo é rei da Inglaterra e tem Aethelred como sacerdote, um homem ambicioso que fará de tudo para que seu Alfredo atenda aos métodos de combate que ele, como sacerdote, propõe.

Wulfric não era alheio ao medo, nenhum soldado era. Conhecera-o muito bem e em toda a multiplicidade de disfarces, do terror mortal no rosto de um berserker nórdico enlouquecido até o pavor frio que sentiu na presença das avominações de Aethelred.” – p. 102

Aethelred descobriu pergaminhos com magias ancestrais em um idioma perdido no tempo, quase impossível de ler. Seu aprendiz, o jovem Cuthbert, descobre a chave para traduzir aquele idioma e passa tudo que descobre ao seu mestre. As magias liberam um poder maligno que transforma animais em criaturas com sede por violência, sangue e combate. A sugestão de Aethelred ao rei é usar essas criaturas contra todo e qualquer inimigo, sem que haja a morte de um único homem inglês.

Religião

A estória de Gary Whitta é bem posterior ao que se passa nas lendas de Rei Arthur e em As Brumas de Avalon (comentei a leitura do volume 1, A Senhora da Magia aqui e aqui), que concentra os acontecimentos entre os séculos V e VI. Nessa época, as antigas religiões estavam sendo repreendidas e marginalizadas pela entrada do Cristianismo nas ilhas bretãs. Em Abominação, religião não é um tema forte, mas poderia ser bem mais aprofundado, pois a premissa da estória são documentos e magias pagãs, que produzem criatura denominadas pelo rei Alfredo, pelo sacerdote Aethelred e todos os outros como “criaturas do Inferno”.

Do que sabia da Bíblia, um único versículo sempre falara a Wulfric mais que qualquer outro: Amai teu próximo como a ti mesmo.” – p. 39

Só a menção ao inferno já pressupõe a força com a qual o Cristianismo adentrou na Inglaterra. Fala-se de bruxaria, de abominação, de castigos de Deus e demônios andando em terra. E tudo sem lançar um panorama mais amplo dos pergaminhos ancestrais, sem explorar as origens e os propósitos desse tipo de magia. 1 ponto a menos para os meninos...

Macabras referências

Me incomoda que a Darkside tenha usado o contexto viking como pano de fundo pra divulgação do livro. Isso porque os vikings são apenas mencionados e não tem participação alguma nas tramas centrais ou secundárias. Então, se você vai atrás de um livro com lutas e guerras nórdicas e coisas do tipo: esse não é pra você.

Entretanto, esse livro é pra você que gosta, sim, de cenas sangrentas. Esse livro é pra você que enxerga a beleza do sangue espirrando em câmera lenta. É pra você que suspira e sente arrepios quando percebe seu personagem preferido encarando a encarnação do mal na escuridão e, só de mencionar sons guturais vindos do inferno, treme com o farfalhar de uma planta.

Então era assim que ela morreria. A certeza disso veio quase como um alívio; ela percebeu naquele momento que o medo da morte ficava apenas na ansiedade de quando e como aconteceria.” – p. 196

As cenas de batalha são o mais puro gore, e se torna evidente, em algumas cenas, a capacidade de Gary inovar um tipo de cena tão batida e tão repetida na literatura e no cinema. Whitta encontrou sua identidade refrescando o leitor com doses homeopáticas de H.P. Lovecraft e overdoses de Franz Kafka, em passagens com resquícios arrepiantes de A Metamorfose.

Boa surpresa

Abominação foi uma leitura intensa. Infelizmente, a característica roteirizada do texto, vinda da experiência de Gary no cinema, pode cansar e deixar a leitura um tanto mais lenta. Mesmo assim, confio que ele poderá trazer projetos incríveis no futuro, porque eu li as primeiras 100 páginas em 2 dias, e as últimas 100 também! E isso, meus caros, é algo a ser enaltecido: início espetacular, final repleto de alívio.

Fui entretido? Demais. Só que não dá pra esquecer das questões que ficaram sem resposta. Portanto, no juízo final, as abominações serão marcadas a ferro com 3 oclinhos e meio pela estreia de Gary Whitta na literatura.

Abominação
Título original: Abomination
Edição de 2017 da DarkSide Books
ISBN: 9788566636796
320 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

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